Rafael Lage, 34, começou a escrever sua história como artesão e Maluco de Estrada ainda na adolescência, aos 16 anos Rafael saiu da escola por que se sentia infantilizado pelo sistema. Ele é o diretor de dois documentários, disponíveis na internet, sobre o universo cultural dos malucos. A ideia surgiu da necessidade de buscar reconhecimento popular ao movimento – por se tratar de uma manifestação da cultura brasileira, com características de uma identidade específica.

Para falar sobre a motivação, as dificuldades no processo de produção e o impacto social que, possivelmente, os documentários gerem, Rafael Lage concedeu uma entrevista ao Observatório do Cinema:

O.C: Como você começou a idéia de produzir o documentário? E quais as dificuldades que você enfrentou?


R.L: Inicialmente a produção tinha o foco de conseguir registrar os abusos de poder que estavam sendo cometidos contra os malucos na Praça Sete, centros de Belo Horizonte, pela Prefeitura com o apoio da Policia Militar. Acompanhamos de 2009 a 2011, dezoito operações de fiscalização. Fomos duramente reprimidos, agredidos e impedidos de gravar na maioria das vezes. Por fim, publiquei o documentário “A criminalização do artista” (https://vimeo.com/27659191) com 276 mil visualizações. Esse é o primeiro vídeo.

O.C: Como foi a briga com a justiça?

R.L: “A criminalização do artista” foi entregue ao Ministério Público, que abriu um processo de investigação, o caso deu origem a três audiências públicas sobre o abuso de poder. Os Malucos de Estrada em parceria com a Defensoria Pública processaram a Prefeitura de Belo Horizonte através de uma ação civil pública e conseguiram uma liminar da justiça que obrigou a Prefeitura a devolver todos os artesanatos apreendidos e permitir a exposição dos artesãos na rua. A vitória na justiça foi um grande passo para discutir a legitimidade da presença do maluco no espaço público e buscar um

reconhecimento do movimento como uma manifestação da cultura popular brasileira.

O.C: Foi mais fácil produzir o primeiro ou o segundo documentário?

R.L: São momentos bem distintos. Para realizar “A criminalização do artista” foram dois anos de embate direto contra o Estado de Minas Gerais, tentando registrar os abusos de autoridade da Prefeitura de Belo Horizonte, e da Policia Militar, contra os artesãos. Já a trilogia do documentário “Malucos de Estrada” foi outro processo, bem desgastante também, mas de outra forma. Ele é um filme de estrada, feito na estrada é outra onda. “É o filme que eu sempre quis ver e nunca pensei que pudesse existir”, parafraseou o educador Rubem Alves.

O.C: O Documentário “Malucos de Estrada II – Cultura de BR” faz parte de um movimento que luta pela resistência e afirmação da identidade cultural do “Maluco de Estrada”, fale sobre esse movimento. Qual a mensagem que vocês querem transmitir à sociedade?

R.L: Acho que a malucada trabalha o simbólico das raízes da humanidade: Artesanato, nomadismo, resistência, são os primeiros fazeres humanos e eles mantêm essa cultura através dos tempos. Acredito que “a malucada” não têm uma mensagem específica para passar. O maluco é a prática e é aí que ele passa uma mensagem, a ideia de maluco, comunicada ao mundo pela atitude que ele tem perante a vida.

O.C: Qual atitude?

R.L: Atitude de desapego, de criar alternativas para superar as limitações, a coragem, a resistência, a arte… Mas se há algo que une a todos, é o desejo de ser. Ser realmente quem é e não um mero produto que surgiu da construção social a ele imposta. Ser original e único, da mesma forma que é o artesanato de cada um.

O.C: Depois do primeiro lançamento, qual foi o impacto alcançado pelo documentário?

R.L: Quinze dias depois de publicado, o documentário já tinha mais de 40 mil visualizações. Sinto-me realizado, sei que agora ele vai seguir seu caminho. É uma bomba semiótica que vai aumentar e muito, a visão da sociedade sobre o tema.

O.C: Existe interesse em vendê-lo para uma produtora ou canal de TV?

R.L: Interesse em vender não. Mas obviamente, queremos que o filme seja visualizado, a internet ajuda muito, mas pensamos que outras plataformas são necessárias. Projeções na rua, festivais, TV, tudo pode somar. O que agente não vai fazer é dar exclusividade pra ninguém, o filme está aí público na internet. Se alguém quiser licenciar a obra, vai ter de aceitar nestes termos. Já recebemos contato de dois canais da TV a cabo que demonstraram interesse.

O.C: Você crê que o brasileiro está mais sensível para perceber a realidade social, mesmo que acessando, à distância, uma nova linha de pensamento. Algo possivelmente transmitido pelo documentário?

R.L: Olha, não creio nisso não. Acho que esse filme vai tocar apenas as pessoas que já tem dentro de si uma “maluquês”. Esse “pensar fora da caixa”. A grande massa ainda está refém do senso comum. Não acho que o filme possa romper os muros que cada um levanta para se proteger do mundo. Ele não tem essa força. Agora, quem tem uma abertura, vai ser contaminado.

O.C: Você tem esperanças que estes documentários mudem a forma da sociedade enxergar os Malucos de Estrada?

R.L: No inicio, eu tinha esperança de que isso acontecesse. Hoje eu tenho certeza. É nítido e perceptível que atingimos uma massa critica da sociedade, ela está refletindo sobre esse universo. São pessoas que não só prestam atenção, como tiram dinheiro do próprio bolso para que isso aconteça. É um trabalho conjunto da sociedade civil organizada. Esse coletivo já realizou muita coisa e algo me diz que é só o começo.

Por Ká Sant’Ana
Estudante de jornalismo do 7º semestre na Universidade Sagrado Coração (USC) em Bauru/SP. Gosta de história, cultura e cinema.
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