“Eu acho que essa pode ser minha obra-prima”. A última linha de diálogo de Bastardos Inglórios, nas mãos de qualquer outro roteirista, soaria como uma nota final arrogante para um épico de guerra revisionista (no sentido literal, já que muda deliberadamente a história) que poderia facilmente ser inchado e pretensioso. Como o roteirista e diretor em questão é Quentin Tarantino, no entanto, a história é outra – as palavras finais do seu Bastardos Inglórios não só parecem merecidas pelo filme que as precede, como são o toque perfeito de metaficção em um filme que tateou por ela o tempo todo.

No entanto, nossa pequena história de como Tarantino, chamado frequentemente pela crítica americana de “artista de pastiche” devido às referências cinematográficas mais do que explícitas que figuravam em seus filmes, se tornou um autor/diretor que precisa ser levado a sério, não começa em Bastardos. Começa em Kill Bill, a obra de “retorno” de Tarantino sete anos depois do relativo fracasso de Jackie Brown, de 1997.

Dividido espertamente em duas metades, lançadas em 2003 e 2004, Kill Bill atrai o espectador com a ultra-violência e as referências pop que fizeram o nome de Quentin Tarantino em Pulp Fiction e Cães de Aluguel. Dessa forma, quando o cineasta troca de marcha para o Volume 2, um drama de ação ainda violento, mas cheio de diálogos estendidos e carregados de significado emocional, o choque é ainda mais brutal – é típico desse americano do Tennessee marcar um ponto de virada em sua carreira com essa manobra de fisgar e enganar o espectador.


Em Kill Bill Vol. 2, emerge o começo dos temas que Quentin Tarantino passaria a explorar na segunda metade da carreira. Em diálogos tremendamente inteligentes como o monólogo de Bill sobre a dualidade Superman/Clark Kent, Tarantino teceu para si um estilo que é uma evolução do que ele já fazia antes, especialmente em Pulp Fiction, usando as referências pop nas falas para explorar e esclarecer os pontos da história que está contando e dos personagens contidos nela.

Kill Bill Vol. 2 é também o primeiro filme dessa nova fase a explorar o tema da vingança, tão caro à Tarantino nos últimos anos, especialmente quando se trata da vingança de um personagem oprimido contra o seu opressor, comentando em questões sociais ao mesmo tempo em que desenha uma jornada pessoal muito identificável para qualquer espectador. Identificar essa veia discursiva de Tarantino e segui-la se tornou indispensável depois de Kill Bill Vol. 2. O homem que revolucionou o cinema independente nos anos 90 se tornou um autor maduro, com algo a dizer.

Para sermos justos, algumas pessoas realmente absorveram a mensagem dos últimos filmes de Quentin Tarantino, pelo menos de forma superficial. Bastardos Inglórios coloca uma garota judia se vingando de Hitler, e uma tropa americana conseguindo uma vitória sobre o terrível Coronel Hans Landa de Christoph Waltz (que venceu, merecidamente, o Oscar pelo papel). Django é ainda mais explícito, lidando com a questão da escravidão e dando ao protagonista feito por Jamie Foxx a oportunidade de soltar o gatilho contra o dono de escravos feito por Leonardo DiCaprio e seu fiel e hipócrita lacaio, feito por Samuel L. Jackson. Até o esquecido À Prova de Morte coloca mulheres se vingando de um personagem masculino abusivo, feito por Kurt Russell.

Não é difícil identificar, portanto, que a veia violenta que corre por baixo dos roteiros do americano tem a ver com questões muito maiores do que apenas as referências cinematográficas que ele usa para construir seus filmes ou mesmo a vida íntima dos personagens que ele constrói. No entanto, muita gente ainda vê o uso dessa violência, o exagero das cenas sangrentas e explícitas, como exploração barata – e talvez em uma dimensão eles estejam certos, visto que essa característica visceral (às vezes literalmente) de Tarantino é muito mais um floreio de entretenimento do que uma necessidade artística.

No entanto, é latente que outros cineastas com gostos tão apurados quanto o dele para sangue e violência nunca experimentaram a mesma recepção fria e crítica quanto a esse aspecto de seus filmes. Isso porque, na boca dos cinéfilos e resenhistas, tais diretores (Sam Peckinpah, Wes Craven, David Cronenberg) discursavam sobre “muito mais do que violência”, o que de alguma forma permitia com que os extremos que eles escolhessem explorar fossem bem recebidos pelo público. Ou seja, esses diretores se levavam a sério, o que fazia sua violência, profanidade e exploração do gore justificáveis – o problema é que Quentin Tarantino, desde Kill Bill Vol. 2, também se leva muito a sério. É só o público que não o acompanhou ainda.

É por isso que Bastardos ainda é a obra-prima do diretor. No drama de guerra de Tarantino, o clímax se realiza durante a exibição de Nation’s Pride, filme de propaganda nazista estrelado pelo suposto herói de guerra Fredrick Zoller (Daniel Brühl). Cada um dos personagens em cena, até no lado nazista do conflito, carrega suas próprias cicatrizes de violências passadas e presentes. Quando Zoller confronta Shosanna nos bastidores do cinema, se afundando na arrogância de não aceitar a resistência dela a seus avanços românticos, é que vem o golpe de mestre do roteiro.

O final trágico dos dois e de Marcel é cruel, uma execução perfeita do roteiro de Tarantino, que relativiza seus personagens-caricatura e examina um ciclo interminável de violência, seja ela perpetrada em nome da vingança ou em nome do “orgulho de uma nação”. Enquanto isso, uma plateia cheia de oficiais nazistas se deleita com a violência em tela, vibrando com cada disparo do seu herói de guerra – tanto que nem ouvem os tiros que terminam com a vida de pessoas reais, logo atrás do projetor. É uma mensagem clara de Tarantino sobre o que se esconde por trás da violência que ele traz para seus filmes, e é o sinal de um autor/diretor com plena consciência de si mesmo e da responsabilidade que carrega como artista.

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O trauma e a degradação que vem dessa violência para os personagens, mesmo que não para o espectador, fica ainda mais claro em Os 8 Odiados, filme mais recente do diretor. No retrato das humilhações sofridas por Daisy nas mãos de seus captores, no sangue e hematomas que ficam marcados em seu rosto durante o filme todo, na espetacular atuação desafiadora de Jennifer Jason Leigh, o filme constrói uma personagem simbólica do abuso e da feiura de qualquer ato de violência.

Saudado como o faroeste mais direto, e o filme mais intimista, de Tarantino, Os 8 Odiados expande o discurso consciente do diretor sobre violência de tal forma que fica impossível ignorar a forma como suas inclinações mais grotescas se tornaram necessárias para que ele conte e ilumine suas histórias. O discurso está no personagem de Samuel L. Jackson, e na forma como ele se vinga do General sulista que matou tantos negros durante a Guerra Civil americana. Está na disposição de personagens como caçadores de recompensa, carrascos e xerifes – afinal, a violência não está também incutida no nosso próprio conceito de justiça? Quando ela é justificável, e quando não?

Uma review do filme em um site americano disse perfeitamente: “Houve um tempo em que quando um diretor americano queria dizer algo sobre valores fundamentais, ele fazia um faroeste. E isso parece ser só o que Tarantino tem feito ultimamente”. Os 8 Odiados é um filme que, ao explodir em violência no final, explode com energia niilista e visceral, sem pudores ou elegâncias – mas é também um importante drama sobre racismo, machismo, a falha fundamental no conceito de justiça, os valores ocidentais. É um filme cujo discurso violento e sujo fala muito mais alto do que sua exploração visual desses conceitos.

Quentin Tarantino cresceu, e está na hora do seu público crescer com ele.