Em A Profecia, o filme de Richard Donner de 1976 refilmado quase tomada a tomada por John Moore em 2006, Damien é um garoto que não sabe que ele é o Anticristo. Coisas terríveis acontecem ao redor desse garoto, quem quer que preste muita atenção a ele é vítima de uma morte cruel, e quando seus pais (Gregory Peck e Lee Remick) percebem o caráter maligno do menino e da aura ao seu redor, o mesmo destino acaba cabendo a eles. É um filme cruel e um tanto tolo, que não tem problemas em abraçar o absurdo de sua premissa e da hipótese que a move.

50 anos após o primeiro filme (e três sequências e um remake depois), Damien está de volta, e completando 30 anos de idade, em Damien, nova série do A&E. Nessa versão, ele está a trabalho na Síria quando uma mulher sinistra o pega pelo rosto e diz a famosa frase do filme: “É tudo por você!”.

O agora adulto Damien, que não se lembrava de nada de sua infância, de repente tem flashbacks emprestados direto do filme original e chega a mesma realização que seus pais enfrentaram antes: ele é o Anticristo. A partir disso, a série apresenta uma sinistra aliada, Ann (Barbara Hersey), e um detetive (David Meunier) que começa a notar todas as mortes e problemas que acontecem em torno desse homem aparentemente comum.


Bradley James interpreta esse Damien, uma versão do personagem que o crítico do AVClub chamou de “um Anticristo atormentado”, assombrado pelas pessoas ao seu redor que ele estima e que com certeza vão morrer se o seu propósito de vida (lançar o apocalipse sobre a terra) for concluído. É claro que essa concepção contradiz a própria ideia do personagem: será que um Anticristo com consciência ainda é um Anticristo?

Damien não tenta desenhar seu protagonista como um anti-herói, porque não tem como: Damien não está fazendo coisas terríveis para atingir um objetivo – ele causa coisas terríveis apenas por ser quem é. Na nova série do A&E, ele é essencialmente uma vítima ao invés de um algoz, e apesar disso soar interessante na teoria, na prática a história é outra.

O crítico do The Hollywood Reporter, por sua vez, criticou a falta de definição da série sobre sua mitologia. Agora que Damien sabe que é o Anticristo, qual é a sua jornada? Ele deve simplesmente entrar em “modo apocalíptico” e começar a destruir a Terra? Ele tem que reunir um exército para que isso seja possível? Pelo menos nos primeiros episódios disponíveis para os críticos com antecedência, Damien não são ensaiados movimentos para fazer a jornada desse personagem seguir em frente como uma história que se sustenta por si mesma, e tampouco são colocadas grandes ameaças contra ele. Uma exorcista do Vaticano interpretada por Robin Weigert recebe ordens de apenas coletar dados, e os dois detetives de polícia não tem a mínima ideia de com o que estão lidando.

Um aspecto positivo citado pelo THR é que Damien coloca seu protagonista trabalhando como um fotógrafo de guerra, o que poderia levar a série a discussões mais sérias e interessantes, nos perguntando se Damien tomou essa profissão para si para registrar os horrores dos quais a humanidade é capaz ou porque se sente inconscientemente mais confortável quando está perto de outras pessoas sofrendo.

Damien poderia se tornar um drama de horror pungente sobre a capacidade humana de fazer o mal e ter extraordinária coragem ao mesmo tempo, e Bradley James está ótimo no papel principal, mas a série precisa de mais estabilidade e vontade de contar uma história para que as coisas funcionem assim.

Para o jornalista do AVClub, a promessa de que Damien pode se tornar uma boa série no final das contas, depois dos cinco episódios liberados para os críticos, é que há muito trabalho de qualidade no “lado negro da série”. Barbara Hershey é um destaque com sua atuação que transmite uma espécie de cuidado materno ao mesmo tempo em que deixa transparecer os esquemas e trapaças que existem por baixo disso, e as cenas de morte são imaginativas e, em alguns poucos casos, chocantes.

O que falta para Damien é abraçar essas sombras e se tornar o que sua premissa promete.