Divergente | Os filmes e livros que inspiraram a série

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A essa altura, a história das ficções científicas distópicas já é bem conhecida – ou será que é? Mesmo com o gênero se espalhando indiscriminadamente pelas maiores franquias de apelo jovem do cinema atualmente, nem todo mundo conhece a fundo a história dessas estranhas criações que imaginam um mundo futuro geralmente controlado por um governo totalitário, ou dizimado por doença e miséria.

Obviamente que essa descrição vaga abre espaço para muitas histórias serem classificadas como distopias, de The Walking Dead até Eu Sou a Lenda, passando por, pasmem, Person of Interest – mas a ficção científica distópica na forma como a conhecemos, a inspiração para séries de filmes e livros como Divergente, cujo terceiro capítulo, Convergente, sai nesta quinta-feira, 10 de Março, nos cinemas brasileiros, é bem mais específica.

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Crítica | A Série Divergente: Convergente

Talvez 1984, o livro de George Orwell da década de 1940 que inspirou muitas recriações e adaptações desde que foi lançado – a mais famosa delas estrelada por um jovem John Hurt (o Olivaras da série Harry Potter) no próprio ano de 1984. No filme dirigido por Michael Radford, Hurt interpreta Winston, um empregado de um setor burocrático do governo que começa a questionar a autoridade totalitária que governa seu mundo, uma sociedade pós-apocalíptica em que não existem mais países (só grandes continentes unidos sob um mesmo governo) e em que o estado permanente parece ser a guerra, seja contra quem for.

Durante a história, Winston se apaixona, descobre sentimentos que haviam sido inibidos pela mão firme do governo, e procura se juntar a uma facção rebelde. Conforme vamos adentrando o sistema descrito por Orwell, tanto no livro quanto no filme, vamos percebendo que talvez o governo seja grande demais, poderoso demais, para só uma pessoa derrubar, e o nosso final é inevitavelmente trágico. Soa familiar? Isso porque essa é uma versão mais adulta (e deprimente) do Jogos Vorazes original, cujo final ecoa emocionalmente o de 1984 mesmo que com palavras mais amenas e direcionamento mais pós-adolescente.

Divergente, por outro lado, mantem uma espécie de idealismo (que também aparece, ainda que discretamente e brevemente, nas continuações de Jogos Vorazes) – talvez uma pessoa sozinha seja, sim, capaz de mudar o mundo. A sociedade fria e dividida em “facções” que os livros e os filmes protagonizados por Tris atestam não é tão diferente da vida de trabalhos compartimentalizados que Winston vive em 1984, nem dos “Distritos” de Jogos Vorazes, mas a fonte da qual Veronica Roth chupou diretamente essa inspiração é outra: O Doador de Memórias.

Lançada em 1993, a obra de Lois Lowry é creditada por muitos como a responsável por trazer a ficção distópica para dentro de um mundo acessível para jovens leitores. Até então, o gênero estava nas mãos de gente como Ray Bradbury (Fahrenheit 451) e Philip K. Dick (Blade Runner), que escreveram obras-primas do estilo mas não eram exatamente leitura-passatempo. Ao simplificar a linguagem e as regras do mundo distópico, Lowry nos trouxe a primeira história de um grupo de jovens amadurecendo em um desses futuros estranhos, sendo divididos em vários compartimentos e funções dependendo da trajetória de suas infâncias, e descobrindo a oportunidade de quebrar com o mundo preto-e-branco (literalmente, nesse caso) onde vivem.

No mundo de O Doador de Memórias, recentemente adaptado para o cinema em um subestimado filme estrelado por Meryl Streep, Jeff Bridges e o ótimo Brenton Thwaites, emoções foram erradicadas em favor do pensamento racional. Todos tomam uma injeção diária que os ajuda a manter essas emoções inibidas, da forma como devem ficar – até que Jonas (Thwaites) é escolhido em sua “cerimônia de formatura” para ser o novo doador de memórias, o que significa que ele receberá do atual (Bridges) todo o conhecimento sobre a forma que o mundo era antes do regime totalitário atual ter se instalado. Os ensinamentos despertam a rebeldia do garoto, como é de se esperar (e como o personagem de Bridges já planejava), e o governo é desafiado a quebrar seu pulso firme com os cidadãos.

Embora relativamente desprovido de ação, O Doador de Memórias é uma jornada emocional e tanto, o que muitas vezes falta aos filmes da franquia Divergente. Criar arte nova e interessante a partir de pedaços reutilizados de outras obras é difícil (pergunte à Andy Warol), e em seus momentos de brilhantismo é isso que a ficção científica distópica adolescente pode fazer. Essas releituras de histórias de revolução e rebeldia falam alto aos jovens, porque é claro que falam – mas é quando elas tem algo a dizer para eles que elas fazem a diferença.

E quanto àquele velho clichê de um jovem “especial”, que está destinado a completar grandes feitos ou é esperado por uma tribo ou grupo de pessoas qualquer como o cumpridor de uma profecia? Nesse sentido, a Tris de Divergente é herdeira de uma tradição tão antiga que talvez remonte até à história de Jesus Cristo como está contada na Bíblia. Mas querem exemplos mais recentes e que se localizam mais ou menos no mesmo espectro de Divergente? Basta olhar para os muitos Escolhidos e Escolhidas (com E maiúsculo) do cinema e da literatura: Harry Potter, Neo (de Matrix), Anakin Skywalker, Jupiter (de O Destino de Júpiter), John Connor (de O Exterminador do Futuro), Clary Fray (Os Intrumentos Mortais/Shadowhunters)… a lista poderia seguir eternamente se nós assim quiséssemos.

É natural que narrativas sigam motes (ou “tropes”, no termo americano) comuns, mas o que faz é a diferença é a habilidade em executá-los e dizer algo interessante e novo com eles. Nós do Observatório não estamos aqui para julgar qual dessas referências do nosso texto faz isso bem ou mal – quem decide, obviamente, é o espectador –, mas é sempre bacana conhecer e reconhecer de onde vem as coisas que gostamos e para onde elas podem ir.

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