Game of Thrones | Por que a série nunca foi longe demais

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ATENÇÃO PARA SPOILERS DA SÉRIE A SEGUIR!

Esse não é mais um artigo elogiado à política “qualquer um pode morrer” de Game of Thrones. Mas esse também não é mais um artigo listando as vezes em que a série da HBO foi “longe demais” em seu retrato da violência, da sordidez humana, ou da sexualidade. Esse é um artigo que quer tentar entender porque essa violência existe dentro do universo de Westeros, e o que levar essa violência para a televisão em uma das séries mais populares da atualidade significa.

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Os rumores e as expectativas para a sexta temporada

No início de Game of Thrones, lá em 2011, quando a trama ainda não era o fenômeno cultural que veio a se tornar, o final chocante do primeiro episódio, com Bran Stark sendo jogado da janela mais alta da torre por Jamie Lannister (uma punição por ter pegado o cavaleiro no meio de um ato sexual com a própria irmã, Cersei), foi grande parte do que deu ignição aos primeiros espectadores para continuar acompanhando a série. Nove semanas mais tarde, no episódio “Baelor” (1×9), Ned Stark foi morto em frente às duas filhas mais novas, graças as ordens de um rei-menino que ainda perpetuaria muitos horrores nos próximos anos de narrativa.

Parte do que é tão atraente sobre Game of Thrones é sua imprevisibilidade, sim. No terceiro ano, o Casamento Vermelho pegou os fãs que não haviam lido o livro de surpresa em “The Rains of Castamere” (3×9), e a terrível morte de Oberyn Martell em “The Mountain and the Viper” (4×8) também deixou um gosto amargo na boca do espectador. Mas o que realmente nos mantem assistindo não é a perspectiva de que qualquer um pode morrer a qualquer momento, mas a forma como a série se atém as regras do mundo que construiu e aos particulares minuciosos dele.

Quem tem o poder?

Que o mundo de Westeros é cruel e guarda semelhanças com a era medieval não é novidade para ninguém, mas é interessante analisar o quão pouco pensamos nos motivos para essa crueldade. Ramsay Bolton e Joffrey Baratheon são garotos de famílias nobres que ascenderam a posições de poder e imediatamente se dispuseram a abusar da mulher mais próxima – tristemente, em ambos os casos a vítima foi Sansa Stark. Game of Thrones não é maniqueísta, mas mostra que, em um mundo que coloca homens como guerreiros condecorados e uma coroa em suas cabeças, esses homens frequentemente começarão a ver suas mulheres como criaturas inferiores.

Digam o que quiserem de Cersei Lannister, mas a maior vítima em seu casamento com Robert Baratheon, a pessoa que provavelmente se sentia mais presa a um compromisso que não queria assumir, era ela. O rei tomava amantes como quisesse, enquanto Cersei precisou se limitar a seu círculo íntimo (talvez um pouco demais) para não chamar muita atenção. Claro, há algo de alarmantemente realista nisso, conforme a série reflete de sua própria forma muitas estruturas de poder que ainda vemos hoje em dia, embora de forma mais camuflada, e muitas atitudes das camadas privilegiadas da sociedade que são mais comuns do que gostaríamos.

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A questão é largamente de machismo porque Game of Thrones se localiza em um mundo machista. Vítimas de um destino sórdido, as personagens femininas da série se destacam pela resiliência e pela jornada de endurecimento que invariavelmente passam – Brienne e os preconceitos que sofre por ser “masculina demais”; Daenerys e as consecutivas traições e abandonos que os homens em sua vida (o irmão, Ser Jorah, etc) impõem a ela; Arya e seus diversos guardiões ineptos e violentos; Cersei e sua busca pelo poder repetidamente negada e abatida pela presença de homens mais poderosos que ela; Sansa e seus dois casamentos marcados por violência psicológica e sexual.

Quando dizemos que a série “foi longe demais” ao retratar o estupro de Sansa por parte de Ramsay, ou os repetidos avanços de Jamie sobre Cersei mesmo quando ela tenta terminar a incestuosa relação, falta pensar que tipo de impacto esse tipo de representação na TV traz para o mundo real. Quando dizemos que há excesso de violência aqui, ou que a filosofa niilista da série passa dos limites ali, falta analisar o contexto.

Como, quando e onde

Um mundo em que homens poderosos infligem coisas terríveis sobre aqueles e aquelas que estão sob o seu jugo não é nem um pouco estranho a nenhum de nós. Trazer essa verdade para a ficção requer um cuidado que a dupla David Benioff e D.B. Weiss, largamente, teve – o de sempre colocar carga negativa forte nos atos desses homens poderosos, o de não esconder nem redimir suas ações, e o de mesmo assim se esforçar para humanizar esses vilões, trazê-los para uma realidade que nos faça pensar no fato de que não estamos encarando um monstro, mas um indivíduo, parte de uma condição humana que é capaz de tudo o que ele fez e ainda fará.

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Milhões de fatores entram na construção de uma história, e no que ela significa dentro do contexto social em que foi produzida. A história do endurecimento das mulheres de Game of Thrones em nenhum momento as colocou como dependentes de outros homens “bonzinhos” para guarda-las dos tiranos, sempre as deu o poder de fazer suas escolhas e buscar seus caminhos. Sansa, sabendo da natureza de seu futuro marido, seguiu com o casamento para completar o seu plano de tomar de volta o que um dia foi da sua família, e conquistar alguma paz. Cersei, para proteger os filhos e sua própria posição, passou pela humilhação de uma cidade inteira e chegou ao seu destino com a mente fixa na possibilidade de vingança. Não são histórias de derrota e de descaso, mas de sobrevivência.

Trazer atos vis, violentos e desprezíveis para a tela é pecado quando se vulgariza, banaliza, glamouriza ou, pior, se celebra esses atos. Pedir que a arte não retrate o feio da condição humana e da sociedade é pedir que ela seja um espelho incompleto de nós mesmos, e dizer que Game of Thrones foi “longe demais” é impor um limite rígido onde o limite que realmente existe é mais do que maleável pelas condições e detalhes da história sendo contada.

Game of Thrones retorna neste domingo, 24 de abril, às 22h na HBO com a estreia da sexta temporada. O primeiro episódio é intitulado “The Red Woman” (“A Dama Vermelha”, em tradução livre).

Os novos personagens da sexta temporada

As transformações dos personagens ao longo das temporadas

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