Shadowhunters estreou dia 12 de Janeiro. Foi uma das primeiras séries novas a aportar em 2016, e veio com o selo de aprovação do Netflix, em parceria com a Freeform, canal que anteriormente era conhecido como ABC Family. Veio também, é claro, com o pedigree da série de livros escritos por Cassandra Clare, uma série complexa de histórias sobre um grupo de combatentes místicos chamados Caçadores de Sombras.

Meio humanos e meio anjos, essas criaturas batalham ou se aliam a demônios, vampiros e lobisomens – a protagonista, Clary, é uma garota que descobre ter sangue de Caçadores de Sombras quando sua mãe é atacada violentamente, posta em um coma e raptada por Valentim, um maligno membro desse clã de criaturas que retornou depois de muito tempo na obscuridade.

A história pode parecer genérica das novelas de young adult, mas Clare é um talento genuíno: a forma como ela escreve nos seis livros de Os Instrumentos Mortais (complementados por uma trilogia que se passa em tempos antigos e outra, ainda a ser lançada, que cronologicamente se localiza no futuro) é que torna os personagens especiais para o leitor e a trama genuinamente empolgante.


Depois de uma tentativa de adaptação para o cinema que afundou em péssima bilheteria, Instrumentos Mortais chegou à TV pelas mãos de Ed Decter (Quem Vai Ficar com Mary?) e com o envolvimento de Clare ativamente na produção. A ideia era ficar cautelosamente otimista – e apesar do sucesso que garantiu a Shadowhunters uma segunda temporada, o resultado foi uma decepção.

Como fãs do material original e dos personagens, nós adoraríamos que a série melhorasse com o tempo, então aqui vão algumas das nossas sugestões e críticas:

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7) Em relação a outras séries de fantasia atuais, Shadowhunters sai perdendo (e muito)

The Shannara Chronicles estreou na MTV antes mesmo de Shadowhunters, dia 5 de janeiro, e o resultado é tão comparativamente melhor que chega a ser vergonhoso. O mesmo vale para The Magicians, produção da Syfy que fez sua estreia ainda no finalzinho de 2015. Ambos os títulos tem suas falhas e problemas, mas os valores de produção e o cuidado para criar uma narrativa coerente e interessante estão anos-luz à frente do que Shadowhunters fez até agora.

Sem contar, é claro, que também vivemos na época de Outlander, a elogiadíssima aventura de ficção científica da Starz que levou três merecidíssimas indicações ao Globo de Ouro desse ano (e uma ao Emmy do ano passado). Os exemplos não param por aí, e embora existam, sim, séries de fantasia que miram mais no público adolescente do que no adulto, elas seguem a dica de produções como Teen Wolf, por exemplo, que não subestima o seu público e coloca recursos narrativos complexos e interessantes para funcionar.

Se o que o jovem espectador médio desfrutando de uma série de fantasia quer ver é o que Shadowhunters oferece, então de fato estamos bem longe da Era de Ouro da televisão.

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6) Alan Van Sprang não é um bom Valentim

O filme de 2013 dirigido por Harald Zwart (Karate Kid) adaptando o primeiro livro da série errava em muita coisa, mas se tinha um elemento certo ali, sem dúvida era Jonathan Rhys Meyers, emprestando o charme barato e a intensidade que o vilão Valentim precisava para funcionar. Meyers, com seus 39 anos (36 à época do filme), pode ser considerado um pouco jovem para ser pai de uma garota pós-adolescente como Clary, mas o ator ultrapassou essa barreira ao entregar um vilão odiável e deliciosamente divertido ao mesmo tempo.

Com 44 anos (e aparentando um pouco mais), o canadense Alan Van Sprang até mostrava certa habilidade para o apelo vilanesco quando interpretava o desregulado rei Henrique II em Reign, da CW. Sua interpretação do vilão Valentim, no entanto, não é só inadequada como repagina o personagem de uma forma que não funciona dentro do contexto da história – Sprang não tem a imponência física e o carisma para encarnar um vilão que um dia liderou todo um grupo de Caçadores de Sombras a trair seus próprios princípios e quase os levou a concordar com uma espécie de equivalente ao genocídio desse mundo de fantasia.

A essa altura do campeonato, com a primeira temporada finalizada, seria impossível trocar o ator que faz Valentim, e seguir a história sem ele não parece uma opção válida se a produção não quer se distanciar muito dos livros de Clare.

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5) A série não sabe se divertir

Um pouco mais aí em cima, falamos dos valores de produção e vontade de contar uma história coerente e interessante com seus personagens não serem os primeiros valores de Shadowhunters. E embora tudo isso seja verdade, o problema não está exatamente em priorizar outras coisas acima dessas ferramentas básicas para qualquer narrativa – o problema é que a série se leva terrivelmente a sério mesmo quando obviamente não tem interesse nenhum em criar uma história significativa.

Em vez de mirar no kitsch e encontrar um território confortável para transitar, Shadowhunters constantemente tenta nos convencer que suas tentativas pífias de trama e desenvolvimento de personagem são profundamente sérias e importantes, que talvez devêssemos ficar emocionados com elas. Fugindo de uma conversa honesta com o seu espectador, os 13 episódios da primeira temporada da série suas novelinhas mal-escritas como uma tentativa sincera de drama. E talvez elas sejam! De uma forma ou de outra, seria melhor que não fossem.

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4) Shadowhunters liga de menos para a mitologia, e de mais para o romance

Não me leve a mal: assim como em qualquer série de fantasia para o público jovem, o romance é uma parte importante de Os Instrumentos Mortais, e há até um triângulo amoroso no centro da história. Clare faz com que essa parte de sua história fuja frequentemente dos clichês e torna a dinâmica desse triângulo amoroso perpetuamente interessante para o leitor, mas ao redor de tudo isso existe uma mitologia rica e interessante que começa a ser desvendada desde o início do primeiro livro, Cidade dos Ossos.

Anjos, demônios, runas, maldições, feiticeiras, vampiros, fadas, lobisomens. As particularidades de cada uma dessas criaturas são desvendadas e Clare se mostra uma geniosa “reimaginadora” de mitologias. As habilidades de Clary vão aparecendo gradualmente, as intrincadas hierarquias da Clave, o órgão que regula a atuação dos Caçadores de Sombras, são parte importante da história, e a forma de organização social dos vampiros, lobisomens e outras espécies vão entrando organicamente no contexto.

Em Shadowhunters, o romance está ali, mesmo que erigido de uma maneira bem menos sutil e interessante – as relações fundamentais e as personalidades desses personagens são as mesas, então há algo de envolvente ali que não pode ser destruído por maus roteiros. A mitologia, por outro lado, é embaralhada e não assume contornos nem metade tão interessantes ou tão fundamentais quando nos livros de Clare. “Todas as lendas são reais”, declama o pôster da série – mas Shadowhunters não parece muito interessada nelas.

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3) A dinâmica entre os personagens e entre os casais é atrapalhada pelo roteiro

Oito roteiristas contribuíram, ao todo, para a primeira temporada de Shadowhunters. E sim, nós sabemos que existe um limite para o que um roteirista pode fazer por uma série mal-concebida e mal-conduzida. No final das contas, quem manda no pedaço é o developer, no caso o já citado Ed Decter, mas é rara a série em que a entrada de algum roteirista mais talentoso não faz a diferença no caminho tomado por um personagem, nos diálogos, na elaboração de cada episódio.

Só podemos concluir que nenhum dos oito reunidos sob a equipe de Shadowhunters seja um desses roteiristas talentosos. A lista inclui gente que trabalhou em Haven, The Client List, Brothers & Sisters, Unforgettable e Chasing Life, entre outras, e mesmo assim o resultado é a cada episódios o mesmo pastiche de péssimas ideias, tramas sem um clímax à vista, erros nos tons dos diálogos e dos personagens. Talvez seja a hora de trocar de equipe.

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2) Os diálogos são simplesmente ridículos

Essa é a reclamação maior da maioria dos fãs. Muitas das pessoas que ainda assistem à série a defendem admitem que os diálogos às vezes são simplesmente vergonhosos – os roteiristas não parecem tem a mínima ideia de como duas pessoas normais conversam, e nos momentos mais cruciais para as definições dos personagens e da trama que isso fica mais exposto. Em uma cena particularmente marcante, Jace ensina Clary a manejar uma lâmina serafim, arma dos Caçadores de Sombras, pela primeira vez.

A troca de brincadeirinhas entre os dois e o clima de tensão sexual/romance se dissolve na abordagem do roteirista da vez. Shippers radicais do casal podem ter gostado da cena pelo que ela representa para os personagens, mas é difícil imaginar que o ideal de alguém de um diálogo bem escrito é o que ouvimos em 90% do tempo enquanto assistimos Shadowhunters. Na maioria do tempo, são os diálogos que entram na frente da série no sentido de nos ajudar a entender e apreciar os personagens e os relacionamentos construídos entre eles.

A irmandade entre Jace, Alec e Isabelle, os arrependimentos de Hodge, a amizade profunda entre Clary e Simon, tudo isso se perde no meio do caminho quando as interações entre eles não estão feitas do jeito certo.

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1) A escalação parece ter sido feita por critério de beleza, e não por adequação ao papel

Chegamos ao número 1 da nossa lista, e essa é realmente mais do que a cereja no bolo dos defeitos de Shadowhunters – é uma amarga adição à uma receita que já não era muito boa. Vejam bem, existem dois problemas aqui que, separados, não seriam obstáculos absurdos: o primeiro é a beleza de super-modelo de absolutamente todo mundo que está incluído na série; e o segundo é o quanto os atores escolhidos são incompatíveis com o papel que lhes foi atribuído, com raras exceções.

Não há nada de (muito) errado em querer que seu elenco seja composto por atores que vão causar desmaios histéricos de fãs adolescentes. A CW escala suas séries dessa forma há tanto tempo que já nem é mais uma surpresa. E não há nada de errado em trazer atores que mudem, de certa forma, o paradigma de personagens que foram criados nos livros. Onde a Freeform e o Netflix erraram, na verdade, foi em não querer comprometer a fidelidade ao livro de Clare, e mesmo assim procurar as pessoas mais fantasticamente estonteantes (de acordo com o padrão de beleza, diga-se de passagem) para o elenco.

Clary Fray é uma adolescente artística e meio nerd, com um melhor amigo que tem uma banda independente e que a leva para leituras de poesia e outros programas nem um pouco cool. De certa forma, Clary tem uma Síndrome de Patinho Feio, de Vira-Lata, que a torna uma heroína mais interessante conforme os livros de Clare vão a dando mais poder e mais dominância de si mesma e da trama. Shadowhunters largamente não muda esse paradigma – busca, de sua maneira torta, contar o arco da personagem exatamente dessa forma. Mesmo assim, a atriz escolhida para o papel foi Katherine McNamara, que não poderia estar mais longe de uma adolescente com síndrome de Patinho Feito nem se quisesse.

O mesmo vale para Dominic Sherwood, o lindíssimo ator britânico escolhido para viver o Caçador de Sombras Jace. Embora seja descrito como bonito no livro de Clare, Jace tem muito mais um estilo rockstar, um charme desconjuntado e perigoso que se combina com a sua atitude rebelde. Alguém que um amigo ciumento poderia chamar de “esse cara parecido com o Mick Jagger”, exatamente como Simon faz em um dos capítulos de Shadowhunters. E Dominic Sherwood está muito, muito longe de ser “bonito” ao estilo charme selvagem à la Mick Jagger quando jovem. Sherwood e McNamara podem se provar bons atores, mas não são as escolhas certas para esses papeis, e nunca foram – escalar uma série assim só prova as intenções rasas e cínicas da Freeform ao adaptar uma história que poderia divertir e empolgar bem mais nas mãos certas.