Há quem diga que não faz sentido os mutantes serem uma raça perseguida e ameaçada pelos humanos no universo Marvel. Embora esse elemento esteja presente em virtualmente todas as histórias concentradas nos X-Men da editora, muitos teóricos dos quadrinhos apontam como uma falha de lógica o fato de que raramente outros indivíduos com poderes semelhantes são tratados com esse tipo de perseguição.

Faz sentido o preconceito e a perseguição para cima dos mutantes não se estender para outros heróis que conseguiram seus poderes de formas diferentes? De um ponto de vista puramente lógico, talvez não. Ann Nocenti, editora dos quadrinhos dos X-Men entre 1988 e 1990, no entanto, deu uma resposta interessante sobre o assunto:

“Não há diferença nenhuma entre o Colossus e o Tocha Humana. Se um cara entra no meu escritório e se incendeia ou se um cara entra no meu escritório e se transforma em aço, eu teria exatamente a mesma reação. Não importa as origens deles, de fato, mas como uma série, os X-Men sempre representaram algo diferente – os poderes chegam durante a puberdade, as mudanças pelas quais eles passam são análogas à adolescência. Talvez eles te façam especial, ou estejam fora do controle, ou te façam um excluído – há um tema que é o da identidade do mal ajustado”.


A questão da lógica da perseguição contra os mutantes dialoga com a nossa própria experiência de preconceito do mundo real – em certo sentido, é uma distinção sem grandes consequências ou relevâncias que fazem dos excluídos, dos rejeitados e dos oprimidos o que eles são. O negro, o homossexual, a mulher, as minorias religiosas e étnicas. A sociedade estabelece um padrão “superior” e um “inferior” de forma arbitrária, e quem não se encaixa naquele primeiro sofre por isso – os X-Men, em sua rica história nos quadrinhos de 1963 para cá, refletiram tantos aspectos disso que não é errôneo, de forma alguma, declará-los a história em quadrinhos mais social e politicamente relevante da Marvel.

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Diversidade mutante

Não é a toa que artigos e especialistas por aí apontem a franquia dos X-Men como a potencial pioneira para trazer diversidade (racial, sexual, de gênero, religiosa e étnica) para o cinema de super-heróis. No decorrer de 53 anos de histórias, o grupo de mutantes foi casa da equipe mais absolutamente diversificada de heróis, anti-heróis e vilões – cada barreira que a Marvel ultrapassava em algum marco civil de diversidade era ultrapassada antes pelos X-Men, muito porque a Casa das Ideias sempre viu os mutantes como eles são: uma história sobre os rejeitados e oprimidos, e a forma como eles podem lutar e se unir.

O grupo dos X-Men tem personagens judeus (Magneto, Lince Negra), islâmicos (M, Pó), católicos devotos (Noturno) e hinduístas (uma das versões do Pássaro Trovejante); personagens asiáticos (Jubileu), franceses (Gambit), indígenas (Apache) e africanos (Tempestade); personagens LGBT (Karma, Mística, Psylocke, Estrela Polar); e até personagens que brincam com a percepção de gênero por seus poderes de mudança de forma – o que, apesar de não representar a mesma coisa que um personagem de fato transgênero, é ao menos uma aproximação do tema.

Embora os filmes ainda tenham deixado um pouco a desejar no sentido de replicar essa diversidade em tela, é interessante observar como essa diversidade moldou a narrativa dos X-Men e a forma como a Marvel concedeu poder a esse grupo de pessoas tão diferentes e tão unidas em sua diferença, e ao mesmo tempo mostrou as frustrações de suas jornadas para serem aceitos e até, quem sabe, amados, pela sociedade que protegem. Não é por acaso que a editora Ann Nocenti, na citação que colocamos alguns parágrafos acima, compara a história dos X-Men com o desconforto social e os problemas da adolescência – a raiz da narrativa é essa, e as ramificações são progressivamente mais interessantes.

Arcos de histórias como a que apresenta uma “cura mutante”, adaptada sem muita inspiração em X-Men: O Confronto Final (2006), refletem aspectos como a mania de certos setores da sociedade de nos apresentar com uma “solução” para o que quer que nos faça diferente daqueles que nos cercam. Não é como se não tivéssemos ouvido falar de “cura gay” no mundo real, também. Entre 1993 e 2001, um elemento comum na história dos mutantes era o devastador Vírus Legado, que muitos acreditavam ser exclusivo de infecção mutante – uma metáfora escancarada para a relação entre a AIDS e a comunidade gay.

Já a história envolvendo a ilha de Genosha, que foi feita de campo de concentração para os mutantes em alguns arcos dos quadrinhos, reflete questões do apartheid da África do Sul tanto quanto se conecta ao passado de Magneto e os campos de concentração de judeus na Segunda Guerra Mundial. De uma forma ou de outra, a história dos X-Men sempre se conectou com a história de movimentos sociais e de preconceitos e injustiças cometidas contra determinados setores que não se encaixam na sociedade privilegiada.

Em X2 (2003), um dos momentos mais comentados é quando Bobby, o Homem de Gelo (que recentemente revelou ser gay nos quadrinhos) precisa contar para seus pais que é mutante. Durante a conversa de Bobby com os pais, algumas frases-chave fazem imediatamente a conexão com outro tipo de “conversa” que muitos meninos e meninas LGBT precisaram ter com seus próprios pais. “Você já tentou não ser mutante?”, pergunta a mãe do menino em certo momento, enquanto o pai se pergunta o que fez de errado. Embora seja encenada quase como uma cena cômica, é aquele tipo de piada profundamente pessoal que, no fundo, está querendo é falar muito sério.

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“Magneto estava certo”

Em um trecho recém-lançado do novo filme, X-Men: Apocalipse, Raven/Mística (Jennifer Lawrence) confronta o Professor Xavier (James McAvoy), seu irmão de criação, com uma noção que desafia a utopia de paz criada por ele em sua mansão refugiada do mundo, a Escola Xavier para Jovens Superdotados, onde a ilusão de uma convivência pacífica entre mutantes e humanos é mantida para os jovens alunos. “Não é porque não está havendo uma guerra que temos paz. Eles vão ter que viver aqui nessa mansão para sempre”, diz Raven.

O trecho, exibido recentemente no programa de entrevistas britânico The Graham Norton Show, mostra não só que a discussão e os paralelos sociais continuam fortes em X-Men: Apocalipse, como levanta uma questão interessante que dialoga muito com o estado de determinados movimentos sociais na atualidade, e mantém uma ambiguidade salutar que permeia as aventuras dos X-Men mais recentemente nos quadrinhos, e também nos filmes. Para muitos fãs, de fato, “Magneto estava certo” – e, para os filmes e quadrinhos modernos, a questão é no mínimo discutível.

Muitos teóricos leem a construção dos personagens Magneto e Charles Xavier como paralelos de Malcolm X e Martin Luther King Jr. Os dois militantes do movimento dos direitos civis dos negros famosamente tinham estâncias bem diferentes – King, que ficou conhecido pelo discurso “eu tenho um sonho”, militava pela resistência não-violenta, e negociava com diplomatas e presidentes; Malcolm X, por sua vez, marcou a frase “por qualquer meio necessário” para definir a forma como seu movimento buscaria conquistar a igualdade entre brancos e negros.

Essas são histórias em quadrinhos, no entanto, e por muito tempo Magneto foi muito mais vilanizado do que Malcolm X jamais deveria ser. A ala do movimento liderada pelo militante é uma parte tão essencial da história do movimento dos direitos civis da população negra que referências, filmes, músicas e protestos ainda são feitos em nome do que X defendia. King Jr. entrou mais para a história porque a história prefere lembrar do militante mais disposto a fazer acordos e concessões, e a história poderosa desses dois líderes de um movimento essencial do século XX e XXI nunca é completa se não for contada em conjunção.

O aumento de um sentimento de luta contínua e de uma visão mais clara da própria história do movimento dos direitos civis incentivou um aumento na relativização das posições de uma dupla reflexiva desse pedaço da história como Xavier e Magneto. Sobrevivente do Holocausto, Magneto compara, com uma visão até certo ponto muito clara, a forma como os mutantes são perseguidos no presente dos quadrinhos com a forma como os judeus foram perseguidos no passado – a intolerância religiosa, social, política e a perseguição violenta que os mutantes sofrem nos quadrinhos abre espaço para uma reflexão sobre o tipo de reação que temos ou podemos ter a esse tipo de preconceito.

Embora o tema permeie todos os filmes do supergrupo de mutantes, em X2 (2003) ele se manifesta de forma mais espetacular em um diálogo específico entre Tempestade (Halle Berry) e Noturno (Alan Cumming). Contando sobre suas tatuagens e as péssimas experiências que teve trabalhando para um circo, Noturno diz que não sentia ódio, mas sim pena, de quem o encarava com medo ou escárnio. “Bom, eu desisti de ter pena muito tempo atrás”, diz Tempestade. “Alguém tão belo não deveria sentir tanta raiva”, responde Noturno. “Às vezes a raiva pode te ajudar a sobreviver”. “A fé também”.

Magneto estava certo? De muitas formas, com certeza. A paz entre humanos e mutantes no universo fantasioso da Marvel parece um sonho impossível para Xavier não só porque, se fosse alcançável, não haveria porque continuar a escrever revistas dos X-Men. Parece impossível também porque faz parte da natureza humana temer e, em certos casos, odiar o diferente – é uma parte terrível de quem somos, mas é uma parte mesmo assim. Magneto estava certo também em dizer que não haver guerra não significa que há paz, apenas que as pessoas oprimidas estão sendo oprimidas de formas mais “sutis” ou estruturais, tão incutidas na nossa sociedade que frequentemente não nos damos conta.

Os planos constantes do mutante capaz de controlar metal para destruir a humanidade ou mesmo transformar todos em mutantes são um levantar de voz que diz: “igualdade hoje e agora, por qualquer meio necessário”. É como o plano de Soshanna em Bastardos Inglórios, o final triunfante de Django Livre, a história contada por Major Warren no meio de Os Oito Odiados – uma fantasia de vingança que não parece injusta. Por outro lado, a proposta de Xavier é frustrante porque advoga pela busca de algo inatingível, por tomar o caminho menos convencional e trabalhar aos poucos para chegar numa sombra do que realmente se quer, mas chegar lá com as mãos limpas.

O fato que os filmes e quadrinhos dos X-Men nos deixam pesar e decidir por nós mesmos qual caminho tomaríamos no lugar dos personagens, ou que caminhos escolheremos tomar na nossa vida, caso precisemos, é um testamento do quão complexas e interessantes são as aventuras dos mutantes – e do quanto de potencial elas ainda tem para explorar.

A Olhar Geek retorna na próxima quarta-feira (25/05).