Publicidade

OMG! #2 | Como personagens gays foram representados nas séries de TV este ano

Publicado por Caio Coletti

27/05/2016 13:05

Bem-vindos de volta ao OMG!, a coluna quinzenal do Observatório do Cinema sobre assuntos LGBT na cultura pop. Visto as notícias que demos e acompanhamos essa semana, o assunto já adiantado pelo nosso título talvez não seja o mais óbvio que poderíamos abordar hoje – com as campanhas #GiveElsaAGirlfriend (veja aqui) e #GiveCaptainAmericaABoyfriend (veja aqui) explodindo no Twitter nos últimos dias e ganhando até reconhecimento de Idina Menzel, que dubla a rainha de gelo da Disney na franquia de animação, seria mais fácil pra gente repetir um discurso cansado sobre esse assunto.

Em suma, é claro que representatividade importa. Na nossa coluna anterior (leia aqui), falamos da importância de ter um super-herói LGBT no cinema, como já temos nos quadrinhos há algum tempo, e do impacto que isso pode trazer para a forma como jovens LGBT se percebem, e a forma como a sociedade lida com eles. A polêmica aqui é outra apenas no sentido de que puristas de personagens de quadrinhos e afins clamam que dar uma namorada a Elsa ou um namorado a Steve Rogers é deturpar as histórias já estabelecidas dos personagens que os colocam, segundo esses fãs, como heterossexuais.

O problema, portanto, se chama heterossexualidade compulsória, ou seja, a ideia de que uma pessoa é heterossexual até que se prove o contrário. Elsa não demonstrou atração por ninguém durante a trama do primeiro Frozen – não há nenhuma evidência, portanto, que a personagem seja heterossexual. Steve, por sua vez, demonstrou interesse por duas mulheres em Capitão América: O Primeiro Vingador (Peggy Carter) e Capitão América: Guerra Civil (Sharon Carter). O personagem nunca declarou gostar exclusivamente de mulheres. Ignorar a possibilidade de que Steve pode, sim, se sentir atraído pelos dois sexos, não é só heterossexualidade compulsória como também apagamento da bissexualidade.

Steve ter um namorado, ou Elsa ter uma namorada, não mudaria em nada o que os personagens significam no contexto maior da trama e dos temas dos universos em que eles estão inseridos. O que faria, aliás, seria introduzir mais diversidade e uma atitude mais aberta em relação à sexualidade, refletindo bem melhor a realidade que o público alvo dos filmes (os jovens) vive. Opositores de ideias como essa bradam que “é só a gente falar que é contra que somos chamados de homofóbicos” – bom, quando não há mais motivo nenhum para se opor à representatividade LGBT e você continua se opondo, é exatamente esse o rótulo que cabe a você.

Agora que já falamos sobre o elefante branco no canto da sala, vamos nos voltar para um assunto mais suculento que nos vai permitir algumas análises mais interessantes. Com o final da temporada de televisão americana e a maioria das séries fechando seus arcos até Setembro, Outubro ou Novembro, que tipos de histórias os personagens LGBT protagonizaram esse ano? Representatividade importa, mas representatividade com qualidade e respeito importa mais.

Alycia Debnam-Carey como Lexa em The 100; Marisa Tomei como Mimi em Empire
Alycia Debnam-Carey como Lexa em The 100; Marisa Tomei como Mimi em Empire

“Bury your gays”

A polêmica da temporada não poderia ser outra: após a morte “acidental” de Lexa, a guerreira lésbica que carregava um romance com a protagonista Clarke em The 100 (CW), discussões em volume alto começaram por toda a internet sobre uma velha mania das series de TV – matar seus personagens gays. Como nós detalhamos em um extenso artigo sobre o assunto (leia aqui), a ideia não é que personagens LGBT não possam morrer nas tramas de televisão, mas sim que eles precisam ser tratados com a mesma consideração que se dispensa aos personagens héteros.

A história de Lexa é particularmente simbólica por uma miríade de motivos, especialmente a dedicação dos fãs de The 100, que acabaram atraídos pela série da CW graças à forma como a emissora a vendeu como um porto-seguro para a diversidade na TV americana. A queda de audiência de The 100 testemunha uma legião de fãs muito mais vocal e atenta do que a maioria dos showrunners de outrora estão acostumados a lidar. Matar personagens gays logo depois de consumarem a relação coloca um subtexto terrível de “punição cármica” e um estigma ainda maior no relacionamento homossexual – em suma, no mundo de baixa representatividade, fazer isso atrapalha mais do que ajuda.

Infelizmente, outras séries seguiram o exemplo ao invés de se distanciar dele, com The Walking Dead (AMC) notavelmente matando metade de um casal lésbico com o mesmo nível de consideração pelo arco de história da personagem (e pelo luto de sua parceira) que dispensa a um dos zumbis mortos pelos protagonistas no decorrer da trama. Tanto Lexa em The 100 quanto a Dra. Denise em The Walking Dead mereciam melhor do que uma “morte acidental” por tiros que não eram nem mesmo dirigidos a elas. Personagens LGBT precisam ser mais do que “efeito colateral” – mas se forem ser, ao menos precisam respirar e tomar vida completa antes de morrerem.

Falar de mortes de personagens LGBT na TV esse ano, no entanto, é falar também de Empire (Fox), o novelão hip-hop mais delicioso da temporada americana. Que a série da Fox é problemática em muitos sentidos ninguém duvida, mas a história dedicada à executiva lésbica Mimi Whiteman e sua esposa Camilla Marks, feitas por Marisa Tomei e Naomi Campbell, respectivamente, passou dos limites ao mostrar um casal lésbico vilanesco que, no final das contas, mal era um casal. A revelação que Camilla na verdade se casou com a doente Mimi apenas para conseguir tomar conta da gravadora Empire e continuar seu caso amoroso com Hakeem Lyon foi seguida do assassinato (fora de cena) de Mimi e do suicídio de Camilla.

De fato, a morte fora de cena de Mimi provavelmente se deve à pouca disponibilidade de Tomei, envolvida em vários projetos cinematográficos, mas haviam formas mais delicadas e interessantes de desamarrar essa trama, se Empire exercesse algo que nunca exerce: paciência. Em uma entrevista sobre a terceira temporada, uma das produtoras prometeu que, no futuro, Empire vai deixar de correr por tramas mal desenvolvidas e dar tempo para situações e personagens respirarem um pouco – uma correção de curso necessária que poderia ter beneficiado a trama de Mimi e Camilla caso tivesse chegado um pouco mais cedo.

De sua própria forma, Empire é também interessante de analisar pela diferença com a qual trata suas personagens lésbicas e seus personagens gays. Os condutores da série são o casal Lee Daniels e Danny Strong, que fizeram um ponto forte de introduzir personagens como Jamal, que desafiam a homofobia ainda muito presente no mundo do hip-hop. E enquanto o herdeiro da Empire passou por vários romances e até explorou uma trama que desafia a forma limitada com a qual vemos sexualidade hoje em dia (e a discriminação que existe, dentro da própria comunidade gay, contra bissexuais), a trama introduzida sobre a cantora Tiana preferir a companhia de moças foi deixada de lado para coloca-la como “acessório” das aventuras românticas de Hakeem.

Mimi representava a alternativa de representação lésbica na série, e sabemos que isso não acabou bem. A moral da história após duas temporadas de Empire é que aquela história de que mulheres lésbicas são “mais aceitas” que homens gays não é só uma completa bobagem como a representatividade lésbica atualmente está em uma situação bem mais feia que a representatividade gay, que já não é ideal. Quando dois conceitos como homofobia e misoginia se cruzam, o resultado nunca é bonito.


Modern Family: Eric Stonestreet como Cam; Jesse Tyler Ferguson como Mitch
Modern Family: Eric Stonestreet como Cam; Jesse Tyler Ferguson como Mitch

TV (mente) aberta

Talvez uma das grandes lições que tiramos da pesquisa geral que tivemos que fazer para montar essa pequena análise da representatividade LGBT na TV esse ano tenha sido que o prestígio crítico das emissoras em que as séries estão incluídas não tem nada a ver com a qualidade da representação de personagens não-heterossexuais. As faltas apontadas acima vem tanto de canais a cabo (AMC) quanto de canais abertos (Fox) americanos, e algumas das representações mais interessantes de personagens LGBT esse ano vem de locais improváveis – nesse sentido, a boa-vontade e inteligência dos criadores/roteiristas tem mais a ver com o resultado final do que a permissividade dos canais.

Basta olhar para Modern Family (ABC), Brooklyn Nine-Nine (Fox) e Person of Interest (CBS) para entender do que estamos falando. Três séries das maiores emissoras abertas americanas que conseguem incluir representatividade e contar histórias sobre seus personagens LGBT sem se esforçar muito. Mitch e Cam, que formam o casal gay de Modern Family, não são sempre definidos por sua sexualidade, mas a série não faz questão de escondê-la nem tem medo de abordá-la para criar histórias.

Num episódio recente de Modern Family, os dois tiveram que lidar com inquilinos em sua casa que faziam parte de uma banda de rock cristão, e com o integrante de tal banda que, na leitura deles, estava tentando se assumir. A situação é engraçada, brinca com a perpetuação de estereótipos, com a complexidade da aplicação deles na vida real, e com a tensão entre organizações religiosas e pessoas LGBT. Em uma temporada que não foi tão ruim quanto alguns críticos estão dizendo, Modern Family encontrou, no seu sétimo ano, uma forma inteligente de lidar com personagens que eram pioneiros lá em 2009, quando a série estreou.

Enquanto isso, Brooklyn Nine-Nine segue sendo uma das séries mais espetacularmente diversas da programação americana sem fazer grandes anúncios acerca disso. A história do casamento do Capitão Holt com o marido Kevin é endereçada em vários dos episódios da temporada, ninguém na delegacia parece ter problemas com isso, e os problemas pelos quais os dois passam são tão normais quanto os de Amy e Jake, o casal principal (ostensivamente) da trama. Já Person of Interest atendeu ao clamor dos fãs e fez Root e Shaw, o casal mais estranhamente perfeito da TV americana, finalmente consumar a relação em um episódio mais que especial.


Masters of Sex: Annaleigh Ashford como Betty e Sarah Silverman como Helen
Masters of Sex: Annaleigh Ashford como Betty e Sarah Silverman como Helen

Luzes no fim do túnel

É inegável que os grandes destaques da representatividade vieram da TV fechada americana, no entanto, em séries que aspiram não só a um realismo maior mostrando pedaços diferentes da sexualidade e da humanidade, como também a uma ambição dramática mais elevada que traz histórias dignas à vida para os personagens LGBT. Aconteceu em Masters of Sex (Showtime), na história de Barton Scully, o médico homossexual lidando com a dificuldade de sair do armário após a velhice e com os efeitos atrasados do longo relacionamento que manteve com uma esposa que só amou platonicamente.

A receita do sucesso de Masters é estender seu tema e sua compreensão da relação entre os gêneros na época retratada para assuntos que toquem na comunidade LGBT. Através da história de Barton e da ex-esposa Margaret, coloca a questão do homem sofrer pelos estereótipos e preconceitos colocados sobre a homossexualidade enquanto a mulher se vê presa em estereótipos diferentes que produzem um efeito ainda mais limitante. Através da história de Betty e Helen, um casal de lésbicas que trabalha para o protagonista Dr. Masters, teoricamente um médico progressista em seu tratamento de questões relacionadas ao sexo, a série mostra como a invisibilidade dos problemas femininos é implacável no mundo machista e adiciona bagagem ao fardo carregado por mulheres lésbicas.

Enquanto isso, em Girls (HBO), o personagem recorrente-transformado-em-regular Elijah finalmente ganhou uma trama que tocasse em sua homossexualidade sem apelar para momentos sexuais isolados e usados como piadas. O romance do moço com um famoso âncora de telejornal não só deu espaço para o excelente Andrew Rannells brilhar como trouxe uma discussão de maturidade e um conflito que se encaixou perfeitamente no decorrer da temporada – envolvente, complicado e belo, o romance de Elijah não deu certo no final, mas tudo bem, porque teve a oportunidade de seguir seu curso e desenrolar sua história sem aquela aura de concessão de outros romances gays por aí.

Para exemplos do tipo de romance colocado na trama só para “ganhar bônus com o público”, basta dar uma olhada em Teen Wolf (MTV), que tem um bom histórico com o público LGBT, mas, ao mesmo tempo, nunca colocou uma história com seus personagens gays no centro da trama. Nesse ano, o romance entre o humano Mason e o “quimera” Corey ficou mal desenvolvido, mas ambos os personagens estão confirmados para a sexta temporada. American Horror Story: Hotel (FX) seguiu pelo mesmo caminho, introduzindo personagens de sexualidades diversas (o que é bom), mas raramente endereçando essas sexualidades e as fazendo parte de suas histórias como seriam parte das vidas desses personagens caso fossem reais. Will Drake, a Condessa e Ramona dificilmente carregam a tradição de uma série que já contou uma história importante como a de Lana Winters em Asylum (2ª temporada).

No outro extremo do espectro, é impossível falar de diversidade na TV em 2015/16 sem falar de Sense8, que chegou em junho do ano passado (logo no comecinho da temporada) desafiadoramente sendo tudo aquilo que tantas séries prometem ser e nunca entregam. Se você está realmente procurando por um exemplo de diversidade, Sense8 é sua série – duas criadoras transexuais, uma personagem trans lésbica envolvida em um relacionamento lindo, a história tragicômica de um galã de cinema obrigado a se manter no armário para não perder oportunidades na carreira, e uma ambiguidade sexual tão comprometida que levou as criadoras a definirem seus personagens (sim, todos eles) como pansexuais – ou seja, que se atraem por pessoas, e não por gêneros/sexos.

Nós gostaríamos de chamar Sense8 de “terrivelmente moderna”, mas nem podemos: já faz mais de meio século que estudiosos do mundo inteiro nos dizem que a diversidade sexual é muito maior do que presumimos, que sexualidade é um assunto muito mais fluído do que admitimos, e que o número de pessoas que se encaixam no espectro LGBT é muito maior do que o nosso mundo preconceituoso permite demonstrar em pesquisas e censos. As Wachowski, e o Netflix, abraçaram isso – e está na hora do resto da TV abraçar também.

nomi-marks-also-we3

OMG! volta dia 11 de junho.

Publicidade