Fala Série! #4 | Game of Thrones é mais fascinante que suas estratégias de choque

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Game of Thrones é a maior série da atualidade. Game of Thrones é maior do que The Walking Dead, e deixará para trás um legado muito maior que o de The Walking Dead. É latente de acordo com os números de audiência e a massa de fãs de cada série que o que eu estou dizendo é no mínimo duvidoso, visto que a série dos zumbis bate a de Westeros matematicamente sem nenhum problema. Arte não é matemática, no entanto, e Game of Thrones é a maior série da atualidade porque é a série pela qual os anos 2010 serão lembrados, e é a série pela qual reações mais apaixonadas e contestações ideológicas são levantadas.

Nós passamos mais tempo pensando em Game of Thrones, e esse “nós” é especialmente para nós da imprensa e consumidores de entretenimento, do que passamos pensando na maioria dos outros produtos da cultura pop combinados. E isso é porque a série que um dia foi baseada nos livros de George R.R. Martin nos convida sem descanso a pensar nela – e muito foi dito durante as 10 semanas dessa temporada sobre como o jogo mais perigoso de Game of Thrones é aquele que os escritores da série jogam contra eles mesmos, uma “crítica” que faz sentido.

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Uma narrativa que prioriza chocar e surpreender cada vez mais ao invés de um senso de direção e coerência da história e dos temas que trabalha não é uma boa narrativa. E se a intenção do choque é duvidosa, os seus métodos e estratégias são ainda mais – a recorrência exagerada de Game of Thrones em histórias envolvendo abusos sexuais de suas personagens femininas, a inclemente atmosfera de opressão e sufoco, a insistência em expandir cada vez mais seu escopo sem oferecer caminhos claros pelos quais a história de cada personagem deve seguir e o seu papel no quadro maior. Às vezes parece que Game of Thrones choca e impressiona pelo simples valor do choque e da impressão, para prender o público e manter a fama.

É importante que esse tipo de reflexão seja feita. É importante que questionemos e pensemos naquilo que assistimos, que busquemos ver a cultura pop por seus significados, por suas falhas e por suas interpretações mais profundas e complexas. É importante relacionar o que acontece em tela com o que acontece no mundo real, porque se não o fizéssemos estaríamos declarando defunta a dimensão artística da nossa cultura pop. No tempo tão complicado em que vivemos, ver a nossa ficção de forma simplista pode ser tentador, mas não é nada saudável.

O que não podemos fazer, no entanto, é subestimar nossos criadores. Game of Thrones pode parecer incitar a ansiedade do espectador superativo que não aguenta um episódio de 50 e tantos minutos sem pelo menos uma morte “chocante” sobre a qual falar no dia seguinte, mas no fundo a série de David Benioff e D.B. Weiss pede mesmo é por paciência, e só é de fato excelente porque faz isso. Na sua sexta temporada, anunciada como provavelmente a antepenúltima (e as próximas duas serão encurtadas), Game of Thrones nos mostrou o começo de sua jogada final – e é impossível olhar para o legado desse sexto ano, poucos dias depois do final de “The Winds of Winter” (6×10), e não dizer que se trata de um xeque-mate.

Teorias de fãs confirmadas, mortes e coroações no final da temporada

Game of Thrones é sobre tempo

Os seis anos que se passaram na trama de Game of Thrones (ou mais, ou menos, dependendo exatamente de como você vê a cronologia da série em relação à saída dos episódios) viram uma miríade de mudanças alvejarem seus personagens, e é impossível pensar nessas mudanças sem refletir sobre os temas maiores da série. Se nessa sexta temporada vimos Bran Stark olhando para o passado para encontrar seu jovem pai Ned, muito antes de perder a cabeça lá no final da primeira temporada, foi para mostrar as experiências que moldam a formação de uma pessoa (ou personagem) e que a tornam uma peça específica em um jogo político e social.

Ned, o guerreiro de nobreza incontestável, o único herói imaculado que Game of Thrones já ousou ter, matou um homem trespassando-o com uma espada pelas costas, uma face medonha da guerra e da violência na qual a série se concentrou muito esse ano. A desilusão de Bran (e do espectador) com a perfeição de Ned, e com a possibilidade de qualquer espécie de honra pura no campo de batalha, é uma parte importante de um processo de amadurecimento e destruição de ideais que é essencial em Game of Thrones, e especialmente na jornada de todas as crianças Stark.

O processo se reflete na forma como Sansa age por trás do irmão, Jon Snow, em um movimento bélico que acaba ganhando a Batalha dos Bastardos para os Stark, e depois se vê temerosa de perder seu poder e segurança quando Jon é que acaba aclamado como o “Rei do Norte” (tudo enquanto Mindinho, o principal agente dessa nova e endurecida Sansa, observa de longe); também se reflete forma como Arya desfaz sua noção de se desprender de sua identidade, e retorna para Westeros com a habilidade de matar ainda mais aguçada, e nenhuma intenção de seguir um código de honra e um julgamento de culpa que não seja o seu.

Enquanto isso, Jon encara uma vida após a morte trazida por um deus no qual ele não acredita, e que o leva a se desligar das noções de honra e dever que tinha antes para procurar a paz, e em seguida descobrir que essa não é uma opção para ele. A paz nunca é uma opção, como poderia lhe dizer o retornado Cão de Caça, cuja própria ilusão é destroçada em uma rápida reaparição no meio da temporada. É também o que diriam Tyrion e Daenerys, e suas tentativas falhas de negociar com os mestres de escravos de Mereen. O mundo adulto (o de Westeros mais que o nosso, mas não tanto) exige que continuemos lutando contra ele, contra quem ele nos diz que somos, contra o que ele diz que podemos e não podemos.

No comecinho da temporada, vimos o rosto real de Melisandre, despida das mágicas e da construção própria de sua identidade, e sua patética auto-piedade transpassou o rosto da excepcional Carice van Houten por toda a temporada, nos trazendo uma visão nova, refrescante e tremendamente apropriada para o arco da personagem. Carice sempre interpretou Melisandre como uma cínica vendedora de superfícies e artifícios, e é quase cruel perceber que ela era tão boa em fazer homens tolos comprarem mentiras que acabou, ela mesma, acreditando.

Começando com uma quebra de ilusão clara, visual e chocante, Game of Thrones seguiu para construir uma temporada baseada na queda das concepções mais profundas e irreais de seus personagens. É uma história de amadurecimento, de envelhecimento, de mudança e de circunstância. É uma história sobre tempo.

Game of Thrones é sobre opressão

Tal e qual o nosso mundo, Westeros é mais dura para alguns do que para outros. Durante seis temporadas, Game of Thrones fez chover fogo sobre suas mulheres, e não é como se essas provações tenham as tornado as forças da natureza que são hoje – com a exceção de Sansa e Arya, cujos processos de amadurecimento seguem os dos personagens masculinos jovens da trama, as outras mulheres da série só precisaram encontrar os meios para realizar o que sua força de espírito e sua marcante identidade já eram perfeitamente capazes de fazer.

Em seu sexto ano, Game of Thrones foi sobre o momento em que os oprimidos disseram “chega”. Foi sobre isso quando mostrou Ellaria Sand e suas filhas tomando a coroa de Dorne para si após a fraqueza de Doran em buscar vingança contra a morte de Oberyn – a muito criticada e zombada história passada no reino da família Martell se mostrou um dos pontos de virada importantes da trama quando vimos Ellaria fazendo uma aliança com Varys e Lady Olenna Tyrell para apoiar Daenerys, se juntando a um poderoso exército que pode lhe garantir os seus desejos de retribuição.

Foi sobre isso quando a Rainha Cersei Lannister, coroada nos momentos finais do episódio, escolheu a violência e tomou de volta o poder que um dia foi seu, escapando de uma vida levada sob o jugo de um marido que a desprezava e mesmo assim mantinha-a sob sua propriedade, como um troféu; de um irmão-amante obsessivo; de um povo que nunca seria capaz de amá-la ou vê-la como nada além de uma mulher impura, cuja Caminhada da Penitência não a absolveu de nada aos olhos famintos de humilhação daqueles para os quais a vergonha da rainha é um divertimento; de um mundo que lhe dava a ilusão de poder mas a colocava sob as amarras mais cruéis e invisíveis. Agora seu poder é muito real (em todos os sentidos), e no rosto de Lena Headey se reflete um amargo deleite vindicado.

Os 20 momentos mais chocantes da sexta temporada

Foi sobre isso quando Daenerys botou fogo na tenda dos chefes Dothraki, tomando a lealdade dos cavaleiros sanguinários para si após ser tratada novamente com uma mulher cujo casamento com um homem morto definiria sua vida inteira. Voltando à Mereen, ela queimou os barcos dos Mestres de escravos, e sua ordem de “Dracarys” para seus enormes répteis voadores poderia muito bem ser lida em outra palavra: “basta”. Game of Thrones foi sobre isso até quando mostrou Sam escolhendo fugir com Gilly da propriedade de sua família após mais uma vez ser diminuído por um pai tacanho, limitado e preconceituoso.

No sexto ano de Game of Thrones, de forma mais clara do que em muito tempo (uma claridade sem dúvida despertada pelo prazo de final mais à vista dos escritores), cada personagem e cada história serviu a um propósito não só prático como também, e muito mais importantemente, temático. Game of Thrones é uma história de vingança, de um senso primitivo de justiça que vem de um sofrimento não só longo como longamente escondido e enraizado nas entranhas da sociedade. É uma história sobre opressão.

Game of Thrones é sobre crença

A fé dos sete deuses de Westeros foi a responsável pela humilhação de Cersei e, portanto, pela vendeta da rainha, que movimentou o começo do último episódio da temporada. A fé no Senhor da Luz foi o que movimentou Melisandre a ressuscitar Jon Snow, e é o que segue a movimentando a segui-lo em direção à Batalha dos Bastardos. A fé à qual Tommen se converte, sua crença na conversão de Margeary, sua crença na proteção e na bondade da mãe, são as coisas que o levam ao caminho que termina naquela sacada de onde o personagem, um dos poucos verdadeiramente doces (ainda que equivocados) de Game of Thrones, encontrou o seu fim.

Em um dos diálogos de “The Winds of Winter”, Tyrion diz que durante sua vida inteira lhe pediram para acreditar. No rei, nos deuses, em si mesmo, na lei, na justiça – e sempre foram propostas tentadoras, até que ele observou e descobriu para onde a crença levava aqueles a sua volta. É curioso que um dos mais terrivelmente espertos e cínicos personagens de Game of Thrones tenha encontrado em Daenerys a razão de sua crença, e não é nem um pouco improvável que Tyrion encontre destino tão desafortunado quanto aqueles a quem observava no passado. Em certa medida, Game of Thrones é sobre como a confiança (a crença) cega em algo ou alguém só pode nos levar a ruína.

Como a crença de Ramsay na eficiência de seu exército e na vantagem numérica dele, e mais tarde a crença vacilante do mesmo Ramsay na lealdade de seus cachorros bestiais. Como a crença de Mindinho em sua própria habilidade de sair vivo dos jogos em que se mete, e da ambição a qual se propõe. Como a crença do Alto Pardal na força de seus discursos, interpretados com tanto cinismo quanto paixão pelo maravilhoso Jonathan Pryce – discursos e crenças que não o impediram de ser derrubado pelo puro poder e pura violência do plano de Cersei.

Não é só a crença religiosa, portanto, mas também aquela envolvida em acreditarmos em um ideal de quem somos e pelo que lutamos, que Game of Thrones aborda. Vendo seus filhos caírem um por um, Cersei se desprende da crença de que sua missão e sua identidade está vinculada a seu amor por eles; retornando dos mortos sem ter visto nada do outro lado, Jon Snow se desprende da crença em uma instituição que só lhe trouxe violência e morte; fugindo das garras de Ramsay, Sansa se desprende da crença de que pode estar segura sob a tutela de alguém, ao invés de com o poder firmemente em suas próprias mãos. Esses personagens não deixaram de acreditar em tudo, porque ninguém deixa – só passaram a acreditar em outra coisa.

Em Game of Thrones, a crença nas regras, nas leis, nos deuses ou em qualquer outra coisa é o que leva nossos personagens a se impulsionarem para onde estão, ou para onde efetivamente foram empurrados. Quando deixam de acreditar em um sistema que os oprime, se libertam violentamente; quando deixam de acreditar em um mundo utópico que viam na infância ou em tempos passados (tempos de verão, afinal), mudam.

Game of Thrones não é sobre dragões, sobre tronos de ferro, sobre Caminhantes Brancos, sobre imensas batalhas. É sobre o que vive na alma desses elementos, e o que neles dá à luz ao mundo que vemos dez domingos por ano desde 2011 – é uma narrativa cuidadosa, artesanal, que clama por paciência e compreensão, e que se apossa de suas falhas com a confiança de quem sabe para onde está indo. É sobre aquilo que está no cerne de cada fibra do nosso mundo tanto quanto está no cerne do deles: é uma história sobre crença.

Os rumos da sétima temporada e o fim próximo da série

O Fala Série! retorna ao seu dia normal na sexta-feira, 15 de julho.

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