ATENÇÃO PARA SPOILERS DA SÉRIE A SEGUIR!

Dizer que Westworld quer saber o que significa ser humano é simplista. De fato, muito do que já sabíamos ou ouvimos falar de Westworld antes de sua estreia neste domingo (02) é muito simplista. A série de Jonathan & Lisa Joy Nolan (e não de J.J. Abrams, francamente) é muito mais, quer dizer muito mais, e pensa em muito mais do que a demos crédito.

“Algumas pessoas escolhem ver a feiúra do mundo”, diz a androide Dolores (Evan Rachel Wood, em atuação espetacular, diga-se) no começo e no final do episódio piloto, escrito pelo casal Nolan. Outras, como Dolores, escolhem ver a beleza – e em muitos e muitos níveis, Westworld é exatamente sobre essa escolha.


Como autor, Jonathan Nolan é fascinado pelas intrincadas desculpas de uma sociedade que esconde um grande segredo – esse é o homem que fez Person of Interest, com a qual Westworld tem muito mais a ver do que com Game of Thrones, diga-se de passagem. Na nova série de HBO, Jonathan e a esposa revertem o ponto de vista e retratam diferentes níveis de consciência sobre esse segredo.

Aqueles que não sabem como um mundo povoado por androides em um parque temático futurista pode se conectar com o nosso só podem ser neófitos da ficção científica, porque isso é justamente o que o gênero faz de melhor: explorar os extremos de uma possibilidade e traçar paralelos com o presente. Perguntar o quê aconteceria se chegássemos lá é frequentemente o caminho para entender o que está acontecendo agora que chegamos aqui.

Desmontando o cavalo de Tróia

No piloto, acompanhamos Dolores enquanto ela se encontra com Teddy (James Marsden), e descobrimos que ambos são androides controlados pelos donos do parque Westworld, onde humanos pagam par ater uma experiência de Velho Oeste. A mais recente atualização dos robôs, no entanto, parece estar criando problemas, de decisões imprevisíveis a uma perigosa mistura das vidas passadas de cada androide específico.

Como a ficção distópica nos ensinou, uma realidade falsa inevitavelmente tem suas rachaduras, e em Westworld não é diferente. O que interessa os roteiristas, no entanto, é a forma como os androides reagem a essas rachaduras, seja de forma automática, mantendo a fachada de ignorância (como faz Dolores até a cena final, quando vemos que ela pode não ser tão dócil quanto parece) ou “falhando” sua programação, tendo problemas para se confrontar com sua realidade.

Ao mesmo tempo, Westworld retrata a disputa de egos falidos, interesses financeiros e irritações pessoais nos bastidores do parque, que tem um criador cheio de demônios pessoais (Anthony Hopkins, excelente como de costume), uma executiva exigente (Sidse Babett Knusden, uma força surpreendente), e uma pletora de empregados problemáticos ou ambiciosos demais para seu próprio bem.

Esse espetáculo do egocentrismo humano e do estado mental daqueles que brincam de Deus é traduzido, na espertíssima linguagem do também diretor Jonathan Nolan, em cortes para a tela preta a cada vez que “mudamos de mundo”, e em tomadas repetidas que dão ao piloto de Westworld uma fluidez quase poética. Nolan dirigiu apenas um episódio de Person of Interest antes desse, mas se mostra tão bom cineasta quanto é roteirista.

Promessas, promessas…

Com um elenco afinadíssimo, incluindo o nosso Rodrigo Santoro, que aos poucos é capaz de mostrar suas nuances, mesmo em um tempo confinado, e com alguns mistérios que, esses sim, cheiram a J.J. Abrams de longe (os objetivos misteriosos da corporação por trás de Westworld, as palavras trocadas entre o programador de Jeffrey Wright e o androide que é “aposentado” no final do episódio), Westworld é cheio de promessas, personagens envolventes e uma história que promete ser um desastre em câmera lenta, no melhor dos sentidos.

Os próximos nove episódios devem ser empolgantes – ou só se você olhar para eles da forma certa, como diria Dolores.

Anthony Hopkins em Westworld
Anthony Hopkins em Westworld