​A história de Raquel Pacheco, uma garota de classe média alta que larga tudo para tornar-se garota de programa, já virou livro mais vendido do país, filme com grande bilheteria e agora chega em forma de série no canal Fox+ Premium. Nem pior, nem melhor do que as outras obras baseados na história verídica, Me Chama de Bruna, em seu episódio piloto, busca uma nova abordagem dessa personagem que parece atrair um grande interesse.

​A série que possui direção geral de Marcia Faria faz um recorte bastante claro da história de Raquel, começando justamente na chegada da garota, ainda menor de idade, na casa de prostituição de Stella. Aqui, o espectador não vê o mundo anterior daquela personagem, há apenas Raquel sozinha num novo e amedrontador, como se a série começasse quando aquela garota virasse Bruna Surfistinha, dando a impressão que será um estudo psicológico daquela nova mulher nesse ambiente hostil.

​Assim, o piloto faz uma abordagem bastante sóbria e crua de sua história. A dramatização de Márcia Faria não está ali para fazer um romance em torno de Bruna Surfistinha e tenta justamente se aprofundar na mente daquela garota. Me Chama de Bruna é uma série com certa consciência a respeito do universo que aborda, como se o que a câmera enquadrasse nunca fosse gratuito, mas necessário para a compreensão de Bruna. Com isso, a série tem uma espécie de prólogo bastante interessante.


No que parece um curta universitário, e aqui no melhor dos sentidos da expressão, a obra começa com a protagonista filmando seu próprio corpo seminu, diante dele, a menina afirma e reafirma que suas pernas, barriga, seios, boca e olhos pertencem somente a ela. É um trecho que tem sentido alheio ao restante do episódio e que demonstra um sentimento urgente e latente do que a série quer passar. No despojamento estético dessa pequena sequência, surge o ponto nevrálgico da obra, como se escancarasse o que a série pretende passar, quase um libelo feminista.

O episódio inicial segue ao longo de seus 45 minutos numa atmosfera distante de qualquer romantização ou idealização. Aquela casa em que Raquel se transforma em Bruna Surfistinha não é uma realização de liberdade sexual ou algo assim, mas também bastante cru. Há uma exploração naquele meio que a garota não está preparada, há uma rivalidade entre as próprias mulheres dos locais e uma forma de viver que beira a precariedade emocional e financeira.

​Isso se reflete bastante na atuação da estreante Maria Bopp, com um ar muito mais inocente, também distante da femme quase fatale feita por Deborah Secco nos cinemas. Bopp dá um tom de descoberta, seguindo nessa crueza que a série prega, passando sempre um senso de melancolia bastante presente naquela garota, que tenta encontrar algo diferente naquela casa de prostituição. Me Chama de Bruna parece não entregar uma personagem completa em seu primeiro episódio, mas uma menina em transformação por suas escolhas.

Essa crueza que a série tenta explorar é passado na construção imagética e técnica. No entanto, a forma como todos os momentos são decupados não passam esse despojamento como linguagem, mas apenas despindo um grande aparato técnico, o que faz com que Me Chame de Bruna não tenha tantas ideias visuais interessantes.
Se Me Chama de Bruna tem seus equívocos no primeiro episódio, demonstra que há uma interessante forma de abordagem numa história bastante conhecida. Resta saber se a série segurará suas ideias e concepções ao longo de seus próximos sete episódios.

Me Chama de Bruna começa a ser exibida neste sábado, 8 de outubro, às 22h.