Crítica | Desventuras em Série – 1ª temporada

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ATENÇÃO PARA POSSÍVEIS SPOILERS A SEGUIR!!!

Quando um livro é adaptado para o cinema ou para a TV, precisamos ter em nossas mentes que cada meio (livro, TV e cinema) possui sua própria linguagem: uma determinada passagem literária pode não ter o mesmo efeito se reproduzida fielmente na telona, por exemplo. Daí as inevitáveis alterações que tanto irritam os leitores assíduos. Entretanto, de tempos em tempos surgem exceções à regra, unindo o melhor de dois mundos. Desventuras em Série é essa exceção.

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Criada por Mark Hudis, com o roteiro por conta de Jack Kenny, Desventuras em Série estreou nesta sexta e se baseia nos livros de Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler), que contam os infortúnios e desventuras dos irmãos Violet, Klaus e Sunny Baudelaire ao perdem os pais precocemente em um incêndio doméstico. A primeira temporada tem oito capítulos, e conta a história dos quatro primeiros livros (ou seja, dois episódios por livro).

Os três primeiros livros (de uma série de 13) já foram adaptados para o cinema em um filme de 2004, estrelado por Jim Carrey. Dos US$ 140 milhões da produção, foram faturados apenas US$ 209 milhões mundialmente, impossibilitando uma continuação – fato esse que tornou as expectativas para a série da Netflix bem altas. E, de fato, ela não decepciona.

Das dedicatórias à Beatrice ao humor negro que permeia os livros, o que Hudis e Kenny nos entregam é uma história o mais próxima possível da trama original – inclusive em recursos narrativos (“Ele se pegou lendo o mesmo parágrafo de novo e de novo. Ele se pegou lendo o mesmo parágrafo de novo e de novo. Ele se pegou lendo o mesmo parágrafo de novo e de novo.”). As pequenas adaptações que foram feitas (alguns personagens misteriosos vão aparecer logo nos primeiros episódios) acabam por nos trazer um alívio, ainda que não cômico, das situações tenebrosas em que os Baudelaire se metem.

E por falar em Baudelaire, que escolhas! Violet (Malina Weissman), Klaus (Louis Hynes) e até mesmo Sunny (a ainda bebê Presley Smith) são exatamente aquilo que é idealizado quando se lê a descrição de Handler. A atuação dos garotos não deixa a desejar: apesar dos inúmeros avisos de Snicket (vivido por Patrick Warburton) de que a série não será agradável, basta apenas alguns poucos minutos para que nos apeguemos aos três órfãos.

Os irmãos Baudelaire em Desventuras em Série

Mas é só Neil Patrick Harris entrar em cena como Conde Olaf, que os holofotes são roubados. O personagem, que precisa ser engraçado, maquiavélico, temível e carismático, tudo ao mesmo tempo, necessitava de um ator maleável, e a facilidade de Harris com a comédia caiu como uma luva para que ele pudesse dar vida a um vilão tão versátil – tanto em personalidade quanto em seus disfarces absurdos.

Ainda que Violet, Klaus e Sunny sejam o trio protagonista que sofre as desventuras, é Olaf que joga as cartas e dita o tom da série. Ele é capaz de ameaçar crianças com facões e agressões, de assassinar os adultos que ficam em seu caminho, e de não ter um pingo de escrúpulos (Sunny em uma bandeja na mesa de jantar foi, no mínimo, mórbido), deixando alguns capítulos extremamente sombrios e pesados; tudo isso para, na cena seguinte, nos fazer rir com suas trapalhadas, sua alma de charlatão e seu ego. Harris, que também terá números musicais como Olaf, encontrou o ponto ideal do contraste entre a crueldade e o cômico, nos dando um vilão que vamos amar odiar.

Ajudando a aliviar a tensão quando Olaf exibe sua natureza malévola, temos a pequena Sunny que, mesmo que sua pequena intérprete não saiba ainda, protagoniza tiradas cômicas hilariantes com um timing perfeito – tudo feito, claro, a partir das “traduções” dos seus gruídos de bebê.

O figurino e o cenário nos dão aquela sensação gostosa e nostálgica de Família Adams, principalmente nos primeiros capítulos, ambientados em grande parte na mansão decrépita de Olaf. A cereja do bolo é, sem dúvida, a trilha sonora, assinada pelo talentoso James Newton Howard (franquia Jogos Vorazes, Malévola, Animais Fantásticos e Onde Habitam) – ela afina o tom tragicômico da história, sempre enérgica e se contrapondo às situações ruins que a trama pode envolver.

Por fim, é preciso dizer que por mais que o tema de abertura (cantado pelo próprio Neil Patrick Harris) nos peça insistentemente para não assistirmos à série, o único infortúnio seria, de fato, não assistir. Desventuras em Série estreou numa sexta feita 13, dia do azar, e mesmo assim já corrigiu os erros homéricos do filme de 2004. E por mais que os brasileiros tiveram que passar pela desventura de esperar até às 6h da manhã para que a Netfix liberasse os episódios, prece que todos nós vamos ter que enfrentar mais um infortúnio: esperar a segunda temporada.

Neil Patrick Harris, o Conde Olaf de Desventuras em Série
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