Nem sempre as cenas de violência extrema foram bem aceitas no mundo do entretenimento. Prova disso foi a repercussão inicial não tão positiva, por exemplo, a Cães de Aluguel (1992), de Quentin Tarantino, que apresenta diversas cenas graficamente pesadas e de violência gratuita em quase todo o filme.

Mas algo dera certo em Cães de Aluguel e em diversos outros filmes, até mesmo mais antigos, que abordavam a violência com a naturalidade de quem vai às compras; algo que ultrapassava a barreira dos críticos e arrebatava cada vez mais um número maior de espectadores. Notou-se, então, uma espécie de fascínio por tudo aquilo que era grotesco, violento e sangrento, um fascínio que era difícil de negar ou de subjulgar.

De lá para cá, então, diversas produções usaram e abusaram da violência como recurso narrativo – o que, de tempos em tempos, causa certa polêmica. The Walking Dead e Game of Thrones, por exemplo, duas das maiores séries da atualidade, combinam grandes roteiros a cenas chocantes que, no lugar de afastar os espectadores, acabam os atraindo ainda mais: a 6ª temporada de Game of Thrones contabilizou uma audiência média de 7,6 milhões de pessoas só nos Estados Unidos. Já o primeiro capítulo da 7ª temporada de The Walking Dead, um dos mais pesados e infames da série, atingiu incríveis 17.3 milhões de espectadores só nos EUA.


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De onde, então, vem tal curiosidade pelo mórbido, pela violência?  O que nos faz querer mais daquilo que nos choca?

Existem diversas explicações para tal fenômeno, e a mais óbvia delas talvez seja o acesso a tudo aquilo que é proibido.

A qualidade e a experiência do socialmente proibido

Antes de tudo, devemos considerar que, anterior à violência, Game of Thrones e The Walking Dead são séries de sucesso e de qualidade indiscutível. Retirada a violência, ainda teríamos grandes histórias sobre como o ser humano pode se comportar em situações extremas – seja pela ganância e sede de poder ou na busca desesperada pela sobrevivência em meio ao apocalipse.

A própria ambientação de Game of Thrones, por exemplo, já é um trunfo. A trama é toda inspirada na Idade Média (inclusive, diversas personalidades históricas foram inspiração para personagens da trama), um dos períodos históricos que, ainda que marcado pela estagnação tecnológica, é fonte de fascínio para várias pessoas por sua facilidade no processo de “romantização”. É fácil aprender a amar e se admirar com um cavaleiro que precisa enfrentar batalhas heroicamente para salvar o reino, da mesma forma que é prazeroso criar juízo de valor sobre como os sobreviventes de The Walking Dead devem agir para prolongar ao máximo a existência humana.

Dessa forma, ambas as séries nos banqueteiam com as duas coisas que o homem mais gosta, ainda que não confessemos: o julgamento alheio e atitudes socialmente proibidas.  E é aí que entra a violência – e o fascínio por ela.

Robb e seu lobo gigante são assassinados em Game of Thrones.
Robb e seu lobo gigante são assassinados em Game of Thrones.

Quanto mais regras a sociedade impõe, mais a curiosidade pelo proibido aumenta – e a violência e o mórbido são duas dessas coisas. Não assistimos a filmes e séries violentas nas salas de aula, e muitas vezes os jovens são proibidos pelos pais. Não conversamos abertamente sem nenhum tipo de receio sobre a morte. Não podemos matar ou torturar semelhantes. E, a cada “não”, é uma gota a mais que transborda nossa cota de curiosidade.

É aí que essas séries nos ganham. Além de histórias que cativam, também não possuem puderes em tratar daquilo que ninguém mais trata no mundo real. E aí entram mais palavrões do que podemos contar, membros decepados indo pelos ares, sangue em fartura e cadáveres – vários cadáveres.

Sentimo-nos como se encontrássemos nessas atrocidades um esconderijo de todas as imposições e proibições sociais – quase como o ditado que diz que “o escondido é mais gostoso”, há certo prazer levemente desconfortável em assistir tudo o que não podemos fazer.

Necessitamos, enquanto seres humanos, presenciar cenas violentas para que, ainda que inconscientemente, possamos realizar um juízo de valor, condenando tais atitudes a fim de reafirmar nossas frágeis qualidades a nós mesmos. Algo como “sou melhor que esse personagem, porque eu não mato meus inimigos”.

Quem mata mais: Game of Thrones ou The Walking Dead?

O medo instintivo

Afastando-nos um pouco do social e adentrando mais ainda do ponto de vista biológico, há não somente o prazer em compactuar com aquilo que é vetado pela sociedade, mas também existe uma necessidade biológica do homem presenciar a violência para que possa sentir empatia.

De fato, nosso cérebro é programado para se importar com os outros, e ser exposto à violência nos faz exercitar essa capacidade – ou você nunca sentiu uma leve tristeza quando seus três personagens favoritos morreram em Game of Thrones, até aprender que não deve se apegar a ninguém para não sofrer a mesma dor novamente?

Cena de The Walking Dead
Cena de The Walking Dead

Quando Negan matou Glenn brutalmente, provavelmente sua amígdala, localizada no cérebro profundo, te inundou de ansiedade e stress – como Glenn pode morrer assim? Então, seu córtex pré-frontal entrou em ação, tranquilizando todo o stress e te lembrando de que aquilo é uma ficção. Só então seu mesencéfalo foi ativado, e você pode sentir empatia por Glenn. Sentir a sua morte quase como alguém conhecido, próximo, e sentir a dor dos personagens que assistiram a tal brutalidade.

Pode soar tolo, mas é a empatia que torna o ser humano o ser humano, é uma necessidade ancestral que vem através da violência e da dor. A alegria, por si só, basta. Ao assistirmos um casal feliz, partilhamos de sua felicidade. Mas a felicidade é fácil. Não demanda preocupação. O que não acontece com o grotesco e com a violência. Há estudos que dizem que, ao assistir o sofrimento do próximo, ficcional ou não, são ativadas as mesmas regiões do cérebro que também são ativadas quando nós mesmos estamos em sofrimento.

Então, ainda que soe contraditório e pesado, assistir a séries violentas acaba ajudando as pessoas a exercerem sua humanidade. E Game of Thrones e The Walking Dead contribuem diretamente nisso.

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Exagero

Ainda que seja muito bonita a ideia da empatia, tudo tem um limite. A exposição prolongada de violência acaba causando certa acomodação. Isso significa que perdemos gradualmente a capacidade de nos sentirmos tocados quando alguém é decepado em Game of Thrones, por exemplo, já que tal fenômeno se tornou, de certa forma, banal. Nesse caso, seria necessário algo novo para nos tocar, ou seja, uma violência mais explícita.

Talvez o exagero de violência na 7ª temporada de The Walking Dead tenha sido justamente a busca por uma abordagem nova para não acostumar os fãs com aquilo já tinham visto. Há quem defenda o aumento da violência na série e há quem condene. Independente de julgamentos, os produtores já anunciaram que estão revendo o que irá ao ar. Game of Thrones segue implacável e impiedoso: ao que tudo indica, sofreremos muito na próxima temporada, colocando todos os fãs em alerta.

Assim, antes de nos chocarmos ou de condenar o uso da violência nas séries e no cinema, vale a pena lembrar que a própria violência nos ajuda a exercer tudo aquilo que nos faz humanos, tanto biologicamente quanto socialmente. Mas, claro, sem tantos exageros: assistir a The Walking Dead e a Game of Thrones e não sentir absolutamente nada quando aquele personagem querido se vai deve ser algo realmente desanimador.

Game of Thrones
Game of Thrones