Castlevania | Crítica – 1ª Temporada

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Com uma extensa carreira nos vídeo games, Castlevania chega à Netflix para sua primeira adaptação audiovisual, numa primeira parte divida em apenas quatro episódios, cada um com aproximadamente 25 minutos. A série chega para ser assistida em uma única tacada e acabar com qualquer suspeita de que outra adaptação de um game poderia dar errado novamente.

Essa é uma preocupação bastante consciente durante toda a produção, há certo cuidado com tudo que gira em torno da trama: as suas representações, as ações vistas em cenas, os personagens e tudo mais. Castlevania joga em cima de si uma grande responsabilidade e isso é sentido ao longo do projeto. E se tal característica poderia atribuir à obra uma certa precaução excessiva, ou até mesma uma exagerada tentativa de cooptar o público a todo instante, não é isso que ocorre. Felizmente essa responsabilidade gera um trabalho eficaz, competente e preciso, nesses quatro primeiros episódios da saga de Castlevania o que se vê é um trabalho bastante maduro.

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Nos 100 minutos iniciais de série há uma enorme e acertada preocupação narrativa e com a construção de um arco interessante e envolvente. A concisão toma conta dessa primeira temporada e o desafio é bem completado pelo roteirista Warren Ellis, conhecido por seu trabalho como quadrinista. Em Castlevania, o escritor consegue fazer um excelente trabalho de adaptação, chegando à medida ideal entre o resumo e a apresentação de diversas informações com uma construção narrativa cuidadosa que parece não ter pressa, fortalecendo o pacto entre espectadores, personagens e os mais diversos enigmas que vão surgindo durante os quatro episódios.

Evidente que nesse processo de realização de uma narrativa enxuta, a obra, por muitas vezes, rende-se a uma verborragia. Em certos momentos, principalmente no primeiro episódio, é colocada uma série de informações narrativas, ou seja, para se entender a história de Castlevania, em diálogos entre os personagens. Um artifício válido e até importante, mas bastante empobrecedor, deixando algumas cenas como simples explicitações verbais daquela história audiovisual.

Se esse é um ponto incômodo em Castlevania é justo afirmar que a animação conta com interessantes arranjos narrativos, um dos mais instigantes é a utilização de seu primeiro episódio como uma espécie de prólogo, o protagonista – Trevor Belmont – se quer aprece nos primeiros 25 minutos inaugurais de Castlevania. Aqui é como se fosse colocada uma pedra fundamental não só para esses quatro episódios, mas para a série como um todo. O piloto, mesmo mostrando uma história antecedente àquilo que será visto na jornada de Belmont, contém as codificações daquele mundo, além de conter figuras essenciais para o futuro da saga, como o próprio Conde Drácula e já apresenta seu mundo medieval marcado pelo medo e pela fantasia.

A série então foca nas decorrências daquele primeiro episódio, a maldição de Drácula sob um país todo após a morte de sua esposa durante a “Santa Inquisição”. Castlevania acompanha Trevor Belmont, último nome de uma família caçadora de monstros que deve assumir a tradição familiar nesse momento crucial. Se a série desenvolve bem seus conflitos maiores também é muito inteligente ao construir esses enigmas e problemas de ordem mais particulares, como essa relação entre Belmont e sua missão familiar, mas também no caso do grupo dos Oradores, homens perseguidos por cultivarem conhecimentos antigos na Idade Média. Com essas relações sendo desenvolvidas aos poucos, a série solidifica muito bem suas figuras, mostrando um trabalho muito consciente de sua narrativa.

Não é só no roteiro que Castlevania chama atenção, mas também em seu ótimo trabalho visual. A animação, com seu traço que lembra as séries animadas americanas dos anos 1990, cria uma série de situações em que os desenhos e a concepção das cenas acentuam aquilo proposto pela narrativa. Como as unhas de um arcebispo representadas da mesma forma que as de Drácula, unindo visualmente essas duas figuras que deveriam ser antagônicas. Ou a cena da invasão do exército de demônios de Drácula numa igreja, em que o sol se pondo faz com que todo o local ganhe uma luz avermelhada e aquele ambiente sagrado torna-se imediatamente profano.

As boas ideias seguem durante todos os episódios, na mesma cena citada anteriormente, durante o confronto entre o bispo e um soldado de Drácula, apenas escuta-se os ruídos daquele massacre, e o que se vê são os rostos e expressões de santos nos vitrais daquela igreja. É como se a série fizesse um comentário sobre a condiçaõ do espectador naquela cena. Os rostos perplexos retratados no vidro são os mesmos daqueles que assistem a série pela televisão.

Essa consciência audiovisual presente em seu roteiro e na concepção visual provoca outra importante constatação acerca de Castlevania, esse amadurecimento vai muito além da habilidade com os procedimentos audiovisuais e muito menos por conter uma classificação indicativa relativamente alta. Sim, a série tem seus momentos de violência e diálogos que não se preocupam nenhum pouco com um bom comportamento, e se isso deixa o universo da obra crível, é a forma adulta que aborda seus temas que faz da animação uma adaptação bastante madura. O que chama mais atenção nesses quatro episódios iniciais é essa batalha entre anjos e demônios, mas trazendo um questionamento a respeito dos homens de bem daquela época, deixando claro que os demônios por muitas vezes podem usar uma batina.

Nesse contexto muito bem explorado, Castlevania faz uma série bastante inteligente, solidificando nessa primeira temporada um universo em que suas figuras nunca deixam claro de que lado estão, nas sombras ou na luz, se é que existem apenas dois lados. A adaptação promete bons frutos para as próximas temporadas, e se esses primeiros momentos eram necessários para provar seu valor junto ao público, Castlevania mostra ser uma série já bastante madura.

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