Crítica | Os Defensores – 1ª Temporada

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Finalmente a Marvel realiza na série televisiva aquilo que fez com êxito nos cinemas, Os Defensores é a reunião tão aguardada de Jessica Jones, Demolidor, Luke Cage e Punho de Ferro. Heróis que ganharam sua séries numa aposta de trazer ao público geral nomes não tão conhecidos dos quadrinhos, ainda que possuam uma legião de fãs (não me entendam mal). As séries individuais chamaram atenção por sua particularidade e seu grande interesse em construir e definir quem eram aquelas personagens.

Assim, Os Defensores é fruto dessa construção de quatro específicos personagens, o grande desafio passa a ser combinar todo o universo construído em torno deles em apenas uma série. Aqui não só falando das características dessas figuras em si, mas como cada um possui um elemento cinematográfico específico. Por exemplo, Luke Cage e toda sua relação com a música negra americana e o cinema blaxplotation, ou Punho de Ferro e sua conexão com os famosos filmes de Kung-Fu dos anos 1970/1980. Fatores que não podem ser apenas deixados para trás num crossover, mas muito bem orquestrado para que cada protagonista mantenham suas peculiaridades para além do desenho de personagem.

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Nos três primeiros episódios, o que se vê é uma preparação final para aquele encontro, protagonistas separados, provavelmente investigando um mesmo caso, mas ainda mantendo seus mundos em isolamento. Nesse momento, as transições de uma cena para outra são necessárias para estabelecer essa divisão que ainda existe entre os quatro, às vezes parece realmente haver a continuação de quatro séries em uma só. Com o passar dos episódios essa fronteira vai sendo borrada, o rap invade as cenas de kong-fu coreografada, os neons avermelhados do mundo de Demolidor combinam com as cores escuras de Jessica Jones. Nesse mundo de combinações, Os Defensores passa a todo o momento ficar em decisões e combinações que parecem ser contraditórias, em propor misturas que ao longe poderiam ser heterogêneas.

A primeira dessas contradições criativas é uma evidente preocupação em abandonar esse aspecto psicológico dos personagens. Óbvio que os questionamentos pessoais daqueles heróis continuam – como a recusa de Jessica assumir esse papel heroico –, mas a obra como crossover foca, majoritariamente, nos desafios externos que aquela cidade passa. No caso, os maléficos planos da organização Tentáculo, que resultaria na ruína literal de Nova Iorque. Assim, aqueles são heróis que devem deixar seus dramas pessoais de lado, mesmo que isso seja ponto fundamental na construção desse mundo, para se ater a um mal que deve ser detido. Se isso poderia gerar um descompasso, e até abandonar uma característica interessante das séries da Marvel, o resultado é uma condição daqueles quatro como heróis, uma impossibilidade de abandonar algo tão perigoso por suas relações pessoais, como se todos eles fossem predestinado a essa condição de defensores.

Com isso chega a ser curioso que a personagem melhor desenvolvida ao longo dos oito episódios seja Elektra, aqui reencarnada como Céu Negro, tentando resolver todas as suas questões do passado. Evidente que Matt, Luke, Danny e Jessica possuem suas respostas e perguntas pessoais, mas, como já dito, o mais importante é como eles deixam seus problemas internos para resolver aquela ameaça, fazendo de Os Defensores uma série focada numa luta constante, em momentos sempre urgentes e repletos de ação.

É isso que define as demais contradições, como a série concebe esses seus momentos de tensão e de ação. Os Defensores é marcado por uma combinação entre seu realismo e a constante fantasia de seu universo. Ainda que a fotografia granulada, a iluminação escura e a filmagem em locação reforcem esse poder do real, em que tudo parece justificado, a série também abraça seu braço mais lúdico, provindo, principalmente, do núcleo de Punho de Ferro. Se séries como Luke Cage e Demolidor pareciam ser um filme sobre vigilantes do crime comum, aqui esse tom continua, porém com a presença de elementos fantásticos, com seres que ressurgem da morte, seres com poderes totalmente surreais e até situações nada realistas, como uma caverna escondida no meio de Nova Iorque. O que às vezes surge de forma estranha, na maioria das vezes, a série faz de sua fantasia algo totalmente real, com consequências que afetam um mundo próximo ao espectador.

Essa condição implica numa construção indefinível sobre a violência presente na série. Os Defensores contém um grafismo que beira o exagero, comprovando o pé da série nos clássicos kung-fus e no explotations, uma obra que não se assusta ao fazer membros rolarem por suas diversas cenas de ação, assumindo esse tom ficcional do gênero de ação, colocando seus heróis em lutas que resultam numa violência não vista no cinema da Marvel. Todavia, a série parece estar sempre se desculpando sobre a violência presente, como se houvesse culpa em optar por essa radicalização da açã., Há alguns discursos ao longo da série dizendo como essa guerra está afetando todos na cidade, que essa violência reverbera em cidadãos comuns. Algo que talvez reflita uma espécie de consciência daquele produto, heróis são defensores e por isso tomam medidas exageradas, mas nunca podem se esquecer de suas responsabilidades. Os Defensores tenta aliar um moralismo do mocinho, com a ambiguidade dos anti-heróis.

A obra faz mais uma dessas suas misturas, e se há violência gráfica, se há um discurso de conscientização, se há realismo e se há fantasia; Os Defensores também propõe uma série que dialoga muito com as produções atuais, mas também parece estar totalmente relacionado a uma narrativa presente na televisão em outro tempo. Existe na série a proposta de um arco dramático grandioso, uma exploração da ambiguidade de seus protagonistas, uma conexão com um mundo real, uma ambição cinematográfica, fatores presentes nessa nova safra da televisão. Porém, é extremamente presente em Os Defensores uma simplicidade que ditava os seriados dos anos 1980, em que o fundamental era resolver apenas uma aventura, e mesmo que aqui dure oito episódios, é em torno de apenas uma ameaça que a série é construída, sem preocupar-se com ganchos e tentativas de uma estrutura maior. O motor da narrativa é somente esse único desafio, muito mais importante que as motivações pessoais. Nesse clima, a série possui situações construídas apenas para realizar uma sequência de ação empolgante, que mostre o grupo em prática, em que capangas surgem aos montes sem explicação para a luta ficar ainda mais interessante, sem pretensão e recuperando um clima divertido sem que a seriedade seja perdida.

Se a simplicidade faz com que a série realize alguns atalhos narrativos, como algumas conveniências no roteiro, uma pista que soluciona todo problema descoberta por Matt ocasionalmente. Ou a vilã da série, interpretada no piloto automático por Sigourney Weave, apenas repetindo os maiores clichês dos antagonistas do filme de ação, como a passividade cruel e o plano diabólico de dominar o mundo. O mais interessante de Os Defensores é sua combinação de elementos tão diferentes, resultado da junção de quatro personagens e seus respectivos universos bem construídos, uma série empolgante e consciente, leve sem deixar de ser séria e simples sem deixar de ser madura. Mais do que se importar com o futuro desses personagens, o mais importante agora é aproveitar Os Defensores.

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