A primeira temporada de Stranger Things causou um furor enorme, conquistando uma legião de fãs imediatamente. O sucesso foi tão grande e tão chamativo que tornou uma série, com qualidades, mas também com problemas, num exemplar do exagero do ame ou odeie, algo que nem mesmo condiz com as pretensões iniciais da obra. Aquela primeira temporada foi responsável por condensar todo um imaginário com desejo de ser resgatado: as aventuras infanto-juvenis com um toque de terror dos anos 1980, utilizando-se completamente de imagens símbolos dessa década cinematográfica, formando uma vitrine nostálgica e facilmente reconhecível dos clássicos oitentistas.

Com personagens interessantes e uma trama bastante amarrada, a primeira temporada funcionava, além de possuir uma divulgação tremenda que a impulsionou para o sucesso. Assim, é fácil notar que a segunda temporada dificilmente provocaria as mesmas reações que a primeira, tratando-se obviamente da relação direta entre espectador e obra, uma vez que a divulgação e o sucesso de Stranger Things estão sendo ainda mais difundidos. Isso ocorre, pois a linha narrativa principal da primeira temporada se encerra após aqueles oito episódios, evidentemente que ficaram pontos e brechas para essa nova narrativa, que é um tanto quanto desconectada dos conciso roteiro dos episódios de 2016.

Os criadores parecem entender completamente essa questão, e não tentam reproduzir o mesmo sentimento nessa segunda temporada, há claramente um desejo por expandir o universo que parecia assombrar apenas a pequena cidade de Hawkins. Nesse sentido, a segunda temporada parece trazer mais elementos, como também decide focar ainda mais no interior daqueles protagonistas. Algo que altera a lógica de Stranger Things tendo consequências boas e ruins.


Obviamente, com todo sucesso já alcançado, essa segunda temporada não deseja se distanciar muito daquilo que já foi visto. A série ainda trabalha com a questão extrema de um visual referencial marcante, que faz com que a narrativa gire em torno de algumas homenagens, utilizando essas imagens para alimentar o espectador nostálgico. Dessa vez duas figuras são muito claras, a figura dos garotos como Os Caça-Fantasmas, fantasiando seus personagens com as vestes daquele filme, como também a relação com Os Gremlins, quando Dustin decide cuidar de uma criatura vinda do Mundo Invertido. Se antes as referências eram ainda mais evidentes, tornando-se muitas vezes um caça-imagens oitentistas, aqui isso fica um pouco mais contido, com os irmãos Duffers buscando uma expressão mais peculiar. O curioso é que quanto mais afastado das referências Stranger Things parece menos interessante em suas ideias viuaia, como se a inventividade dos criadores não conseguisse fazer frente às imagens que evoca.

Fato é que essa despreocupação com sua herança oitentista faz com que a série se importe mais com a substância de suas figuras humanas. A segunda temporada investe em novos personagens, como a peculiar garota Max (ou Mad Max), que logo chama atenção de Lucas e Dustin; assim como o irmão da garota uma figura perversa que chega para colocar um pouco de violência adolescente na cidade. Dois personagens muito interessantes que enriquecem a trama. Todavia, não é só de personagens novos que vive a segunda temporada de Stranger Things, mas da solução de problemas internos de figuras já conhecidas. Como a aceitação de Nancy de sua própria personalidade, algo que começa a causar problemas com Steve, que nessa temporada torna-se muito mais humano, livrando-se do estereótipo do garoto mais popular da escola. Como também o amadurecimento de Dustin e Lucas, que representam a entrada dos garotos num sentimento muito mais adolescente que infantil.

Stranger Things 2, até por inserir novos elementos e se aprofundar nos mais diversos personagens, faz com que sua narrativa não seja tão bem amarrada, tão concisa. Se antes o desaparecimento de Will e todo o mistério do Mundo Invertido era colocado logo de cara, aqui as coisas vão se desenrolando aos poucos, uma situação problema que demora a surgir e ainda assim disputa espaço com uma série de outros conflitos. Talvez, por acreditar já na fidelidade de seu público, essa segunda temporada tem a liberdade de não ficar tão presa a sua narrativa, mas também não consegue prender o espectador com a mesma facilidade.

Essa segunda parte da série sofre com problemas de ritmo até aproximadamente seu quinto episódio, quando algo muito claro acontece, surge com força o protagonismo de Eleven. Com ela a série concilia todas as suas pretensões em sua nova temporada, além de conseguir remeter a grandes características da primeira temporada. Eleven parte para uma jornada de autoconhecimento (o aprofundamento da personagem), encontra suas raízes, vai atrás de respostas, até mesmo parte para a cidade grande (a expansão do universo), encontrando seres semelhantes a si, seja nas características quanto nos sentimentos. Ali, há todo um jogo de refazer o a representação urbana dos anos 1980, as paredes exageradamente pichadas, os neóns, os punks e suas jaquetas de couro pela cidade. Mais uma vez um jogo de imagens reconhecíveis que sustenta a série, divertindo público e realizadores.

Após esse percurso de Eleven, a série ganha outros contornos e quando o grupo finalmente se reúne a sensação é de que a narrativa está completa. A partir daí, tudo gira em torno de um só problemas, a tensão sobressai a qualquer outro drama, os elementos cômicos conversam com o desespero da situação. A série engata e reserva seus melhores momentos para o final. Talvez, na segunda temporada, Stranger Things demonstre ainda mais suas irregularidades, momentos muito bons, com outros bastante complicados, como já dito aqui. Ainda há uma certa dificuldade em crer na atuação de Winona Ryder, que parece apenas querer reproduzir o que foi visto na primeira temporada. Assim como a utilização de algumas muletas narrativas, por exemplo, um repórter investigativo que soluciona coisas que não estariam nas mãos dos personagens principais, como também impulsiona resoluções na vida de Jonathan e Nancy, um suporte narrativo tremendo e mal explicado.

A segunda temporada de Stranger Things tem seus problemas, como também tem muitos méritos, principalmente por fornecer tanta informação sobre seus personagens, o que torna espectador mais próximo daqueles seres e suas tramas, sendo facilmente entretido pela jornada dos garotos. Por essa preocupação, a segunda temporada já acaba valendo a pena, mas demonstra também o seu desejo por acreditar nesse seu grande sucesso, ampliando seu universo e esperando o mesmo clamor que sua primeira parte, para assim possibilitar mais um encontro com aqueles garotos de Hawkins.