Crítica | American Horror Story: Cult – Temporada completa

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É engraçado que American Horror Story tenha escolhido sua sétima temporada, Cult, para incluir um flashback de Andy Warhol, o papa da arte pop. Engraçado porque, para mim, American Horror Story sempre teve ambições de ser uma obra pop, brincando com convenções do gênero do horror e com medos e demônios culturais a fim de costurar uma narrativa iconoclástica que desnudava o mundo real até os seus básicos e o reconstruía de forma a refletir quem somos e a sociedade em que vivemos de volta para a gente.

Engraçado também porque, de todas as temporadas de American Horror Story, Cult é claramente a que guarda mais ambições desse tipo. Em peças de época, como Freak Show e Asylum, por exemplo, a vontade de se alimentar do pop e fornecer alimento de volta para ele estava lá, mas disfarçada entre figurinos suntuosos ou temas e elementos naturalmente pitorescos, seja a maquiagem dos artistas de circo ou a mitologia por trás dos hábitos das freiras.

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Cult, por outro lado, é tão desesperadamente atual, e busca com tanta vontade refletir esse atual, que é impossível não notar o quanto ela deixa expostas as partes mais frágeis de Ryan Murphy e companhia como roteiristas. Ao se dirigir mais diretamente para o nosso mundo, a sétima temporada de American Horror Story demonstra como, ao contrário das de Warhol, suas “simplificações da realidade” tendem a ser grosseiras e apressadas, tanto que mal se parecem com personagens de verdade.

Vale dizer que, por todas as suas semelhanças, Cult não retrata Warhol, ou na realidade qualquer personagem masculino, de forma muito positiva (com exceção, talvez, do Dr. Vincent, um participador insuspeito de um esquema maior que ele). Aqui, o criador da pop art é mais um em uma corrente de homens autoritários que criaram um culto de personalidade ao seu redor, reflexos tanto de Kai (Evan Peters, que não por acaso interpreta todos os outros “líderes de culto” vistos nos flashbacks) quanto de Donald Trump, presidente dos EUA e “alvo primário” da sátira sombria da temporada.

Peters, aliás, carrega a temporada com habilidades até então não demonstradas em sua (ainda curta, admita-se) carreira. Ele não tem medo de retratar esses homens como estupidamente patéticos, e ao mesmo tempo nos faz entender o que há de tão fascinante neles, e o poder que eles exercem sobre terceiros. A teia de aranha que Peters tece aqui é uma de fúria, frustração, carisma e desinibição, que merecia um arco de personagem mais complexo para se apoiar – de uma forma ou de outra, é um trabalho excepcional.

Enfrentando-o em tela, Sarah Paulson ganha uma narrativa tão fragmentada quanto – é flagrante o quanto faz falta para a história de sua Ally cenas em que acompanhamos seu suplício no manicômio e os motivos que fizeram-na retornar tão mudada, com um plano pronto para colocar em ação. Ao invés de nos mostrar o que a levou até esse lugar emocional em que se sente hábil a enfrentar seus medos e as figuras opressivas ao seu redor, Cult prefere fazê-la dizer em um discurso vazio que quase (quase) estraga a morte mais satisfatória da temporada.

Ally só é uma mulher completa, ou um símbolo completo (como Kai a chama nas carregadas cenas finais), porque Paulson é uma das melhores atrizes de sua geração, capaz de convencer tanto na vulnerabilidade dos primeiros episódios quanto na impermeabilidade dos últimos, e também na mistura das duas coisas que demonstra perto do final de “Great Again” (7×11), que fecha a temporada. Ela já provou com sua Lana Winters (de Asylum, 2ª temporada) que é capaz de maturar personagens até o ponto em que seu rosto se torna uma fachada de todos os segredos, arrependimentos e propósitos que existem atrás deles – aqui, ela completa um truque de mágica muito parecido, e igualmente impressionante.

Por não superar o problema de foco e diligência de roteiro que é comum na equipe da série desde seu primeiro ano, Cult não entra no panteão das melhores temporadas de American Horror Story, ainda que certos momentos (o episódio contando a história de Valerie Solanas, e também aquele em que ocorre um tiroteio em massa, vem à mente) mostrem o que a série pode fazer quando está no topo de seu jogo.

Assim como o trabalho de Warhol, American Horror Story tem o potencial de se tornar um espelho indispensável e singularmente compreendido dos nossos tempos – ao contrário dele, no entanto, a série frequentemente erra o alvo.

American Horror Story: Cult
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