Crítica | Mr. Robot – 3ª temporada

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ATENÇÃO: SPOILERS A SEGUIR

O episódio final da 3ª temporada de Mr. Robot, intitulado “eps3.9_shutdown-r” (3×10), começa com uma série de tomadas trabalhadas em zoom in (aproximando-se de um objeto ou detalhe) e zoom out (afastando-se para mostrar toda a cena) do diretor Sam Esmail e do fotógrafo Tod Campbell – esse tema visual recorre em vários momentos do capítulo, embora não seja um dos recursos rotineiros de Mr. Robot, que sempre foi mais adepto a takes longos e estáticos, ou tracking shots, que seguem os personagens de perto enquanto eles correm contra o tempo ou de qualquer operativo mal intencionado do Dark Army que está tentando caçá-los dessa vez.

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Por causa dessa escolha visual de Esmail e Campbell, o finale dessa terceira temporada deixa uma sensação incômoda no espectador acostumado com a elaboração usual de Mr. Robot, mais rígida e metódica do que qualquer outra na TV americana atualmente. Não é a toa – “eps3.9_shutdown-r” é um final atípico para uma temporada que só pode ser descrita como uma montanha-russa emocional, que mergulhou mais fundo do que nunca (zoom in) nas estruturas de poder que compõem o seu universo, a fim de nos deixar com uma visão mais clara do cenário (zoom out) em que Elliot e companhia realizaram sua revolução.

Revolução cujas consequências, como Mr. Robot demonstrou lá na criticada segunda temporada, a série está mais do que disposta a levar muito a sério. Seguindo por uma deturpada jornada do herói de autoconhecimento e reconhecimento do mundo em que vive, Elliot passa a terceira temporada em busca de uma conciliação entre suas duas “metades”, uma viagem que muitos psicólogos reconheceriam como típica de pacientes com múltiplas personalidades. Para Mr. Robot, no entanto, a metáfora vai além da doença mental – na série de Sam Esmail, essas duas personalidades de Elliot são a revolta juvenil que existe dentro de nós, enraizada para muitos em traumas e injustiças percebidas na infância e adolescência, e a maturidade sóbria de entender que as coisas não são tão simples assim, e os vilões não são quem achávamos que fossem.

Em “eps3.9_shutdown-r”, essa conciliação de Elliot e Mr. Robot é inteligentemente relacionada a uma descoberta sobre um evento chave de sua infância – ao invés de seu pai, que viria a se tornar a manifestação de sua segunda personalidade, tê-lo empurrado pela janela enraivecido, Elliot pulou. Em muitos sentidos, a terceira temporada foi sobre o protagonista assumindo a responsabilidade pelos seus atos e focando sua revolta, seu ressentimento, em uma direção mais estreita, quase pontual.

Nesse monumental zoom in emocional em Elliot, Rami Malek brilha mais do que nunca. Se seus trejeitos explosivos dominaram as duas primeiras temporadas de Mr. Robot, aqui ele revela ilimitada capacidade para emoção crível e sutil, assim como sua companheira mais frequente de cena, a excepcional Carly Chaikin. Isso porque, enquanto Elliot mergulha em uma história de auto descobrimento, Darlene é a personagem da ação na temporada, e a atriz segura esse momento à flor da pele para ela com a força de manobra de uma grande intérprete, que merece ter tanto reconhecimento quanto seu colega de série.

O elenco de Mr. Robot, é bem verdade, performou espetacularmente sob os holofotes dessa terceira temporada: B.D. Wong (Whiterose) explorou novas e maquiavélicas tintas de sua personagem perenemente fascinante; Michael Cristofer (Price) aprofundou um personagem pintado com cores tão fortes e enfáticas que ameaçava se tornar simplista; o inimitável Bobby Cannavale (Irving) criou um retrato instantaneamente icônico da banalidade do mal; e Grace Gummer (Dom) desenhou um crescendo emocional para sua personagem de dar orgulho à mãe, Meryl Streep.

Enquanto a trilha de Mac Quayle encontrava novas e inusitadas formas de dar tom e cor a essa história (a instrumentação jazz irônica da cena em que vemos o assistente de Whiterose chegar com seu carro nesse “eps3.9_shutdown-r” é impagável e deveria valer um Emmy por si só), Mr. Robot construiu uma temporada que continuou desafiando a noção do que uma série de TV é capaz de fazer no século XXI. Poucas vezes uma história em três atos foi construída de maneira tão costurada e inteligente na televisão americana, e poucas vezes uma série falou com tanta pertinência ao momento da sociedade em que ela está sendo produzida.

Com sua reflexão sobre a artificialidade do nosso tempo, sobre a confiança humana nas ficções científicas que inventamos (sejam elas produzidas por Hollywood ou por nossas próprias mentes), sobre a hipocrisia intrínseca tanto do conceito de uma corporação quanto da revolta contra ele, Mr. Robot é a peça mais urgente, complexa e fascinante de televisão que tivemos em 2017 – um desafio que merece ser aceito, um mergulho que merece ser dado a fundo, sem reservas ou barreiras emocionais. Arte pela qual vale a pena deixar o cinismo nos segundos antes de apertar o play.

Mr. Robot, “eps3.9_shutdown-r” (3×10)
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