The Crown | Crítica – 2ª Temporada

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The Crown chegou à Netflix com bastante pompa, uma das séries mais caras da plataforma, que prometia entrar nos meandros da atual família real da Inglaterra, Elizabeth, desde seus primeiros anos, como focava a primeira temporada. Agora, a série mantém essas pretensões, chamando a atenção para o brilhantismo técnico da reconstituição de época, que agora vai até o início dos anos 1960, e o grande objetivo é traçar esse painel da família real, de suas raízes até seus frutos, num misto de exaltação e alguma sinceridade, algo que parece tornar a produção até questionáveis em alguns aspectos.

Essa segunda parte narrativa começa exatamente após os últimos acontecimentos da primeira temporada, mostrando as reações inglesas à revolta no Egito com Nasser, o conturbado relacionamento entre a princesa Margaret e Peter Townsend, as inúmeras de tentativas de Phillip conseguir se adequar na família real e principalmente a Rainha Elizabeth II adequando-se a seu poder. The Crown, assim, funciona como uma espécie de folhetim dessa família real, algo que desde sempre aguçou muito a curiosidade do público, de entender como aquele palácio funcionava e principalmente de ter artigos que traziam o rei ou a rainha como um estandarte. Talvez The Crown seja este estandarte real para a nova geração, uma forma de manter viva uma grande aura em torno dos monarcas mais famosos do mundo.

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Essa é uma característica que se confirma na segunda temporada, numa relação extremamente estranha entre uma intimidade programada com aqueles seres, mas também uma cautela excessiva com esses mesmos retratados, como se houvesse um limite bem claro que a série nem ao menos deseja passar. A segunda temporada é marcada por uma proteção de seus personagens e numa tentativa de torna-los humanos e mais próximos mesmo com essa capa impermeável que existe em todos os episódios. Algo que era mais bem explorado, ou menos visível na primeira parte da série.

Esse segundo bloco narrativo pode ser considerado muito mais político que o primeiro, mostrando o relacionamento da Inglaterra, consequentemente da Família Real, com outros países em eventos chaves, como a já citada tensão com o Egito de Nasser e o controle do canal de Suez, a quase conversão de Gana em uma República Socialista, a descoberta de um informante nazista dentro da alta corte inglesa durante a Segunda Guerra e a visita do casal Kennedy. Fatos relevantes e muito interessantes de estarem numa série popular, mas que aqui surgem de forma um pouco truncada, como se a série não pudesse dar a devida atenção e a perspectiva inglesa é tão forte que tira qualquer isenção dos fatos, não sendo sincero em relação àquilo que retrata.

Muito disso é visto no episódio com os egípcios, onde Nasser sempre foi tratado como um rebelde afrontoso, e mesmo que digam como a investida no Oriente foi mal planejada e até ilegal, mas a mensagem passada é que uma honra inglesa esteve mantida, pelo modo como a Rainha agiu diante de seu primeiro ministro, como impediram que as coisas ficassem ainda mais graves. Há quase um medo existente ali em julgar aquilo que se vê, em buscar as verdadeiras consequências ou como aquilo açoitava de alguma maneira o íntimo da família real. Assim, esse contexto político pode até ser relevante, mas faz com que se distancie desse lado humano buscado pela série, deixando The Crown um tanto quanto engessado.

Essa segunda temporada passa a ser marcada por uma irregularidade ao alternar esses episódios focados numa dimensão política e outros sobre a intimidade da Rainha, deixando aquém um sentimento necessário de unidade em relação a um roteiro seriado. O político se choca com o privado e estes parecem não se misturarem tão bem em The Crown, evitando que haja tanto um desenvolvimento da primeira quanto da segunda esfera. Assim, até as intrigas dentro da corte parecem perder força por essa falta de concisão, pois a cada episódio esse foco é trocado. Essa segunda temporada fica muito próximo de um guia de curiosidades dentro dos palácios, algo que agrada facilmente o público, mas que analisado friamente demonstra suas irregularidades.

Além do roteiro pouco fechado, há também uma grande questão com a protagonista da série, a Rainha Elizabeth II, interpretada novamente por Claire Foy, que materializa esse engessamento de um sentimento humano. Nessa temporada, a Rainha parece muito mais infalível, se antes a desconfiança e insegurança aproximavam-na do público, agora parece que todas as decisões tomadas por ela sejam a correta. A Rainha pode até estar em uma situação adversa como quando cede as pressões do marido após um escândalo na frota real, ou em sua improvável viagem à Gana, ou quando sente inveja de Jackie Onassis, mas ainda assim mostra-se certa, mesmo que o sentimento seja equivocado naquele momento, evidencia-se que ele tem um propósito, uma razão que será revelada a seguir. Há uma preocupação excessiva em proteger os sentimentos da Rainha e quando ela não está certa, também não estará errada, assumindo um papel neutro em muitos episódios.

Com essa condição superior ainda mais evidente da protagonista, não é surpresa que mais uma vez os episódios mais interessantes sejam aqueles que foquem exclusivamente em um único personagem secundário. Como o capítulo em que Margaret se apaixona pelo fotógrafo Antony, onde a narrativa inteira é construída a partir da diferença entre o trabalho de Antony com os do fotógrafo oficial da corte, algo que faz o espectador entender o que a Princesa encontrou naquele homem, ali se escreve a interação mais interessante da segunda temporada. Outro episódio marcante é um focado apenas em Phillip, que exige a matrícula de seu filho numa escola para meninos, um capítulo que coloca lado a lado a educação desses dois homens reais, mostrando em flashback como foi a infância dele. Não é à toa que esses dois episódios foquem nos atores destaques dessa temporada, Matt Smith e Vanessa Kirby.

São eles e esses episódios solos que fazem The Crown um pouco mais humano, mas na maioria das vezes a série extremamente luxuosa em seu desenho de produção e em sua fotografia, eficiente em captar o público com suas curiosidades reais, mas que tem como objetivo apenas construir mais um estandarte em nome da rainha. The Crown afasta-se assim da humanidade que propunha, tornando-se uma série um tanto quanto fria.

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