Não, Me Chame Pelo Seu Nome não é uma história de amor

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Eu assisti Me Chame Pelo Seu Nome com uma grande amiga minha. Vivemos lado a lado as provocações à flor da pele do filme, conversamos depois brevemente sobre as emoções imediatas de seu final triste, com o protagonista Elio (Thimothée Chalamet) chorando ao olhar para a lareira de sua sala de jantar. Depois, fomos realizar algumas tarefas chatas e continuamos a conversar – em análise mais profunda, minha amiga achava que a relação entre Elio e o estagiário Oliver (Armie Hammer) havia sido, em muitos sentidos, abusiva. Ao ouvir alguém dizer isso, a ideia se materializou no ar, por mais que eu não quisesse que isso acontecesse.

Não queria por alguns motivos – chefe entre eles, a falta de histórias de amor LGBT puras e verdadeiras em Hollywood. Pelas 2h12 de Me Chame Pelo Seu Nome, me agarrei a uma expectativa que era minha e, não necessariamente, dos seus criadores (o diretor Luca Guadagnino, o roteirista James Ivory, o autor André Aciman, do livro original). No fundo da minha mente, detalhes óbvios da interação entre os dois amantes principais, a sua relação de poder desequilibrada, já incomodavam – mas alguém precisava tirar os óculos cor-de-rosa de quem buscava uma representatividade “mainstream” (no sentido restritivo, de fórmula, da palavra) que Hollywood ainda não está disposta a dar, mesmo no ano pós-Moonlight.

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Aqui estão Oliver e Elio: o primeiro, um homem nos meados de seus 20 anos de idade, e o segundo um adolescente de 17. A diferença de idade é o primeiro fator de uma relação desequilibrada desde o começo. O filme não deixa claro que Oliver já teve experiências homossexuais antes, mas sua atitude em relação a Elio é, desde o começo, uma de provocações e seduções que param sempre “no meio dos trilhos” para deixar o garoto ansiando por mais. Ele rejeita e atrai na mesma medida, preda nas vulnerabilidades e dúvidas do garoto sobre sua herança cultural (o judaísmo), usa seus hormônios à flor da pele para criar frustração sexual mesmo depois de já satisfazê-la pela primeira vez, em um primeiro encontro sexual entre os dois.

Fosse esse um duelo entre dois homens LGBT que se manipulam mutuamente, Me Chame Pelo Seu Nome poderia se dizer uma perturbada história de amor, e um pedaço de representatividade que mostra, de fato, um exemplo de homo afetividade com rachaduras e imperfeições similares às relações heterossexuais. Como foi concebido e realizado, no entanto, Me Chame Pelo Seu Nome não é uma história de amor de forma alguma – mas não precisa ser para se firmar como o grande filme (quiçá a obra-prima) que é.

Uma das cenas mais sensuais de Me Chame Pelo Seu Nome

A questão é que parte de mim não queria aceitar o caráter abusivo do relacionamento também porque eu já o vi dezenas de vezes. Não comigo, mas com amigos, conhecidos, pessoas cuja vida pessoal esteve espalhada pelas timelines das minhas redes sociais todos os dias na última boa parte de década – todos LGBTs. A história é sempre parecida: O processo de se assumir gay, lésbica ou bissexual passa por um amante mais “experiente”, que de alguma forma dá o “empurrãozinho” necessário para que a pessoa se desprenda de uma heterossexualidade compulsória e socializada. É natural se apaixonar por e idolatrar essa pessoa – não temos ideia do que é um amor saudável aos 15, 16, 17, 18, 19 anos, nem temos as cicatrizes para sabermos quando não pisar nos lugares errados no campo minado emocional de um relacionamento.

No fim das contas, essa pessoa não se importa conosco tanto quanto pensamos. O caso “de amor” em questão existe para ela em um campo abstrato e belo de escapismo, na melhor das alternativas, enquanto existe para nós em uma dimensão mais concreta e marcante. Frequentemente, assim como o Oliver do filme, a pessoa em questão segue em frente com outra, e eventualmente o fazemos também – com sorte, sentindo de forma mínima o impacto de uma iniciação tão desastrosa ao mundo da sexualidade e da afeição; caso contrário, repetindo um padrão tóxico inconscientemente, carregando um complexo de inferioridade e uma deficiência emocional imensas.

Michael Stuhlbarg como o pai de Elio

Por refletir essa realidade, sem cair no maniqueísmo e sem esconder suas ambiguidades, Me Chame Pelo Seu Nome é talvez mais revolucionário do que seria se retratasse um amor convencional. A busca pelo convencional, aliás, talvez fosse nociva – a realidade da comunidade LGBT não é convencional, porque o mundo não deixa que seja. Se esse padrão abusivo se repete constantemente em relacionamentos LGBTs, não é porque é da natureza dessas pessoas, mas porque a sociedade obriga que eles reprimam sua sexualidade até o momento em que alguém te obrigue ou estimule, por assim dizer, a libertá-la.

O posicionamento da relação homossexual como desvio da norma é marcante para a vida e a psique dos protagonistas de Me Chame Pelo Seu Nome, muito embora o clima do filme seja de uma permissividade enganadora. As hesitações de Oliver e Elio em se envolverem não acontecem à toa, e não são um jogo de flerte normal – Guadgnino, Aciman e Ivory sabem muito bem o que estão retratando. Quando o pai de Elio faz seu discurso no final do filme, sua aceitação é o que primeiro impacta o espectador, mas por baixo dela há um conselho mais importante: Não sublime seus desejos, não procure sempre se ater à norma, não fragmente sua felicidade para o bem dos outros.

Elio e Oliver examinam uma estátua decomposta

Em sua absoluta primazia técnica, em sua busca helênica pela perfeição estética, Me Chame Pelo Seu Nome encontra também a ânsia por ver as rachaduras, distorções e decadências dessa arte velha e suas mensagens relevantes para os dias de hoje. Dentro dessas mensagens, precisa existir a noção de que Me Chame Pelo Seu Nome não é uma história de amor – não se quisermos caminhar para uma existência mais saudável como pessoas LGBT nas restrições da sociedade ocidental.

Sobram coisas para admirar em Me Chame Pelo Seu Nome uma vez que admitimos isso. De muitas formas, o filme cresce quando o fazemos. Ele é um retrato complexo, artisticamente sublime, de uma realidade triste e recorrente. É belamente trágico, supremamente atuado, com uma das representações mais vívidas da adolescência em tela pelas mãos de Thimothée Chalamet, e uma performance cheia de luz, sombras e magnetismo pelas de Armie Hammer. É o grande filme do ano. É um filme francamente sexual, e indisposto a se desculpar por isso. É a tempestade perfeita de veneração ao padrão acadêmico e a quebra de todos os bastiões dele, ambas as coisas ao mesmo tempo.

É o vencedor moral do Oscar de Melhor Filme em 2018. Mas não é – não pode ser, não precisa ser e não é – uma história de amor.

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