Por Élcio Pinheiro

A novela Apocalipse chegou ao fim nesta segunda-feira (25) na Record, com um saldo mais de erros que de acertos. A fraca repercussão da trama no Ibope foi justo o reflexo da falta de esmero da emissora em levar ao ar um produto de qualidade e acabamento dignos.

Investimentos em tecnologia, gravações no exterior e bons efeitos especiais – um ponto caprichado, não há como negar – não foram o suficiente para garantir o sucesso de uma obra que carecia, acima de tudo, de texto e direção. A tendência ao proselitismo religioso, já revelada em títulos anteriores do filão de novelas bíblicas, encontrou em Apocalipse seu apogeu, numa retratação rasa e simplória da fé cristã, repleta de frases feitas e com ares de jograu de igreja, que até o público evangélico deve ter considerado constrangedor.


A falta de estrutura da Casablanca, produtora terceirizada responsável pela dramaturgia da Record, também teve sua responsabilidade, decisiva, nesse resultado. Desde o início da novela, era visível o constrangimento em cena de atores como Luíza Tomé, Sidney Sampaio, Daniela Escobar e Flávia Monteiro (não por acaso, todos do núcleo evangélico), privados de um processo de preparação que os familiarizasse com o dia a dia de seus personagens ou ao menos de uma direção firme e segura que lhes oferecesse algum respaldo.

Parte dessa sensação de inadequação no elenco, é bem verdade, dissipou-se a partir do episódio do “arrebatamento”, quando todos os personagens fiés ao cristianismo saíram de cena. A partir daí, intérpretes como Emílio Orciollo Netto e Samara Felippo tiveram a chance de pontuar a “transição espiritual” vivenciada por seus personagens, o que resultou em uma abordagem mais digna do tema religioso nesta etapa da novela.

Nem todo o elenco, porém, acompanhou essa evolução – e aí cabe uma crítica à própria protagonista, Juliana Knust. Se ela já se mostrava apática e pouco desenvolta na fase “mundana” da jornalista Zoe, a partir da conversão ela imprimiu um ar horrivelmente blasé à personagem que se perpetuaria até o desfecho da trama. Todo o contrário de sua contraparte romântica, Igor Rickli, bastante em dia com todas as fases do cientista Benjamin. Flávio Galvão foi outro grande destaque positivo, irrepreensível do começo ao fim na pele do sacerdote maligno Stéfano.

Ninguém, porém, conseguiu sair-se pior do que Sérgio Marone. O anticristo Ricardo Montagna entra certamente para o hall das piores performances do jovem ator (não que as anteriores tenham sido muito melhores). A caracterização escolhida para o personagem, com seus cabelos mal-platinados, só fizeram acentuar o tom patético e caricato desse vilão, que por vezes soou mais ridículo que assustador ou ameaçador. Coisa em que, pensando bem, fazia jus à novela como um todo.