Tungstênio | “Eu gosto de correr riscos”, afirma diretor Heitor Dhalia em entrevista exclusiva

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Tungstênio tem sido um dos filmes mais comentados recentemente no cenário independente brasileiro pelo fato de ser o estopim de uma série de adaptações de quadrinhos nacionais. Todos sabem que a adaptação de HQ’s já tem feito enorme sucesso no mercado americano e também no europeu e agora, quem sabe, pode vingar no Brasil.

Sendo assim, tivemos uma conversa exclusiva com o diretor do longa Heitor Dhalia, que contou um pouco sobre o processo de produção, sua carreira e a responsabilidade em abrir portas para a nona arte nas telonas.

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Confira a entrevista:

Observatório do Cinema: Como você vê essa nova retomada do cinema brasileiro independente conseguindo seu destaque comercialmente?

Heitor DhaliaEu acho que o que está acontecendo hoje no cinema brasileiro é fruto de uma politica pública com a criação da Ancine e de leis de incentivo, que permitiu que a indústria se formasse com uma produção constante de trabalho. Novos diretores apareceram, novas linhas de financiamento vieram e isso tem gerado uma maior diversidade do cinema. Um caso interessante é o de Pernambuco, com seus diversos cineastas ganhando destaques em festivais mundo afora. É a prova de que, quando se tem um esforço continuado, se tem resultado.

OC: Você já teve uma experiência de trabalhar fora do país [Dhalia dirigiu 12 Horas, que tem Amanda Seyfried e Sebastian Stan como protagonistas]. Qual a principal diferença de visão na produção dos Estados Unidos e aqui?

HD: É muito diferente né? Primeiro é porque eles estão no lado hegemônico da coisa. Eles tem a língua dominante, um circuito já armado, uma exibição de escala global, o que leva um domínio da indústria por 100 anos. É muito difícil competir, porque é uma competição que não tem competição. Existe também uma hegemonia européia no circuito de artes de alguns festivais e o resto das cinematografias não tem força no mercado internacional. Os Estados Unidos e um pouco a França nesse lado hegemônico. No caso do Brasil, a tentativa do cinema comercial é com as comédia, mas sendo uma briga bem inglória com o que está fora desse padrão. É bem difícil essa competição. É bem complicado mesmo. Os Estados Unidos tem uma indústria bacana, mas com coisas impossíveis de se lidar fora do local. É muito aberta e muito fechada ao mesmo tempo.

OC: Esse é o primeiro filme que você faz aqui no Brasil aonde dirige, mas não escreve. Como foi realizar isso na prática? Teve alguma diferença muito grande?

HD: É diferente. Eu achei o quadrinho, foi uma escolha minha também. Não participei do processo de roteiro. É bem mais profundo quando você escreve, a autoria é bem mais forte. Mesmo assim, é uma experiência também observar apenas o cinema no lado diretorial, fugindo um pouco desse lado da dramaturgia.

OC: Tungstênio tem seu valor de relevância para o cinema do Brasil por ser uma adaptação de HQ também nacional. Você se sente pressionado por ser um dos protagonistas dessa nova trajetória?

HD: Olha, na verdade não. Eu tenho uma ligação muito longa com o universo de quadrinhos e isso simplesmente aconteceu. Foi meio que uma coincidência sabe? Todos estarem atentando para essa fonte maravilhosa de riqueza de histórias. O quadrinho brasileiro é muito forte e tem muita força internacionalmente maravilhosa, disputando diversos prêmios. Quando eu fiz o filme não senti esse peso. Tava mais interessado naquela história. Todo filme é um desafio para o diretor, que busca trabalhar aquele universo muito bem sem se preocupar tanto com o redor.

OC: Como foram as conversas com o Marcello Quintanilha [criador da HQ] para adaptar o material dele para as telas?

HD: Foi interessante a história porque eu escrevi uma mensagem no Facebook dele, ai conversamos, dei meu telefone e ele me ligou na hora. Foi até engraçado. Eu mandei e fiquei esperando o cara não responder nunca. O Marcello sabia, me conhecia e a ideia veio logo de cara. Todo o processo foi colaborativo, rico em trocas. Ele foi pontual em algumas tentativas que a gente fez, em coisas que poderiam ser alteradas e foram tiradas do filme, mas sempre entendendo a minha responsabilidade como diretor.

OC: Tungstênio tem um olhar bem único sobre o Brasil e sobre suas diversas variedades e raizes. Como que isso foi pensado e trabalhado no filme?

HD: Eu atentei para os temas que o filme propunha, tentei entrar aquele universo com propriedade. Foi um mergulho interessante tentar se aproximar da dramaturgia, da geografia do lugar e, por último, uma tentativa de se aproximar da realidade dos quadrinhos. Foram 3 aproximações feitos no processo de realização do filme.

No primeiro, a questão que veio a tona foi a da realidade de racismo, violência, saudosismo da ditadura e etc. Na segunda, conversa com populações, trabalhos com atores, achar esse elenco, atentar para se a história fazia sentido no lugar. Por último, trabalhar com a questão de cinema relacionando com a montagem e direção para transposição daquela obra que a gente estava adaptando para as telas.

OC: Como foi trabalhar com um elenco com pouca experiência fazendo cinema? É mais difícil ou mais fácil?

HD: Olha, eu gosto de não-atores ou atores em primeiros trabalhos. Minha eleição de elenco é sempre para a proximidade dele com o personagem que irá fazer. O processo todo foi bem intenso, místico, evocamos muito a Bahia, dos orixás, foi bem interessante. Foi um trabalho de pesquisa rica, um trabalho muito gostoso de aproximação dos personagens a dramaturgia. Também foi bem interessante para essa montagem a conexão com a história, como que cada ator se apropriaria do seu personagem, o desafio que ele iria ter. Para mim, é muito prazeroso trabalhar com atores, então foi bem interessante.

OC: Desde Nina [primeiro filme de Heitor] você tem sempre se variado nos gêneros. Essa tem sido uma decisão sua ou foi algo que simplesmente aconteceu?

HD: Na verdade, é muito aleatório. Eu escolho um tema e quando vejo é muito diferente do anterior. Eu não tenho um plano, o tipo de filme ideal que eu queria fazer. Tem diretores que sempre fazem o mesmo filme. Tem diretores que variam muito o formato, eu sou desse lado. Gosto de explorar universos que nunca tive contato. Nem todas as suas inciativas tem o mesmo resultado. Algumas proliferam e outras não, mas eu gosto de correr riscos no processo criativo, e o risco implica estar em uma zona de não-conforto, eu busco essa zona o tempo inteiro.

OC: Tem existido um debate muito grande sobre arte no Brasil, com algumas propostas de censura a muitas delas (como foi até o caso de um quadrinho recentemente). Como você vê esse atual panorama político afetando na visão dos diretores para os filmes?

HD: Olha, isso é um debate muito rico, interessante e controverso, com vários ângulos diferentes. Porque existe uma censura radical da extrema direita e em alguns grupos uma tentativa de um cinema mais engajado. O debate entra muito na questão de se o autor tem que ser neutro ou não, isso vem inclusive muito da literatura. Entra muito no lado da flor da pele pelo atual momento, já que a rede social que é o novo espaço publico e sempre vai haver muita controversa, as polemicas vão sempre existir, sempre estarão presentes. A gente precisa estar preparado para elas, trazendo isso para as atuais discussões. E não ter medo, porque o mundo é feito das contradições dos conflitos. Mas esses temas são os que valem a pena ser discutidos.

Esse debate sobre a arte vai aumentar e se aperfeiçoar. É um momento rico para os realizadores, mas também é complicado pelas censuras. A riqueza vem do lado de repensar para aonde você está indo e não pode ser leviano nos temas que se aborda. Antigamente as pessoas não se preocupavam tanto com a retórica, hoje em dia não da para ser mais isso. É instigante para um criador trabalhar nesse contexto. Eu acho um momento positivo, mas complexo e longo.

OC: Para finalizar, pode comentar um pouco sobre seu próximo trabalho?

HD: Vou fazer um filme sobre funk carioca, sobre a guerra das miliciais, ascensão do movimento do funk, a jornada dele do movimento social e etc. Tem uma veia jornalística e começa a investigar o caso das miliciais, relacionando com um painel do lugar da cidade e fazer um retrato sobre a nova periferia carioca, com seus novos personagens e suas novas visões. Será um longa ficcional e nossa roteirista é um sociólogo que também trabalhou como consultor em Tropa de Elite.

O diretor ainda comentou que um filme no qual ele está sendo retratado na direção, chamado Border Country, ainda está no campo da especulações, mas novidades poderão vir em breve.

Tungstênio já está em cartaz nos cinemas.

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