Futurama encontra Game of Thrones, com pitadas muito bem-vindas de Monty Python & O Cálice Sagrado. Essa é a receita de Matt Groening para trazer sua comédia característica ao cenário medieval. (Des)Encanto traz os típicos elementos que os fãs de Groening tanto prezam em suas outras séries, mas nem sempre produz o mesmo charme inovador que consolidou a fama de Futurama, ou as situações inventivas que mantiveram Os Simpsons relevantes.

A trama de (Des)Encanto acompanha a jornada da despojada princesa, Bean (Abbi Jacobson), do fiel elfo, Elfo (Nat Faxon) (o nome funciona melhor em inglês, obviamente), e do malicioso pequeno demônio, Luci (Eric André). De início, os personagens são introduzidos com uma dinâmica que remete à clássica representação de dilemas morais, onde o elfo e o demônio fazem os papéis de anjinho e diabinho nos ombros de Bean. Com o tempo, a dinâmica parece ir sendo abandonada em função do crescimento individual de cada personagem. Os coadjuvantes da série trazem as características satíricas ou referenciais do trabalho de Groening (uma fada prostituta, uma corte que remete à família real de Game of Thrones, elfos conformistas…), e preenchem bem a trama, ainda que nem todos sejam capazes de produzir momentos muito memoráveis.

Escritores vindos da televisão aberta parecem se deparar com algumas decisões difíceis quando escrevem para a Netflix. Embora a série tenha um formato bem adequado para qualquer um dos lados, essencialmente, os episódios são bem contidos em si, com o típico arco de temporada abrangendo as pequenas situações. A narrativa da série, no entanto, acaba sofrendo um pouco com uma estrutura um tanto dispersa, deixando que a história se desenvolva lentamente até os episódios finais, onde a trama resolve engatar com mais força.


(Des)Encanto é uma série que funciona muito melhor quando está concentrada em sua irreverência e em seus elementos fantasiosos, ao invés das relações entre seus personagens e suas tramas maquiavélicas. Ao abraçar a leviandade de suas regras, a série acaba podendo brincar com diversos elementos mais afastados de sua proposta principal, como uma releitura irônica de “João e Maria”, que acaba rendendo um dos melhores episódios até então. Quando prefere focar na evolução da trama, no entanto, pode tornar-se um tanto enfadonha, por vezes repetitiva, e forçar o engajamento com seus personagens sem muito sucesso. Como é comum em diversas comédias, o charme e o desleixo cômico de seus protagonistas são muito mais envolventes do que qualquer vislumbre de drama pessoal que a série tenta construir entre eles.

O universo da série, com todas as suas referências ao enorme gênero de fantasias medievais, apresenta um certo potencial, ainda que não seja propriamente explorado durante esta primeira temporada (ou primeira parte, como está sendo chamada na Netflix). A vila dos elfos, escondida do resto da civilização, é um bom exemplo do que a série tem a sua disposição para aprofundar. Outros povos e cenários vão sendo introduzidos ao longo da história, mas sem trazer a mesma inspiração.

Aqueles que procuram a série pela sua irreverência, em um mundo que temos tantas animações que testam os limites da comédia, podem acabar se decepcionando um pouco. São piadas pontuais que melhor exibem o sarcasmo e a sátira de (Des)Encanto, com um ou outro momento de choque visual bem posicionados entre si, potencializando seus efeitos. Quando a série resolve abordar assuntos mais sérios e abraçar os pensamentos progressistas comuns às séries Netflix, acaba sendo um tanto superficial e pouco inventiva em suas piadas, com um resultado regular.

Talvez seu maior atrativo fique por conta dos aspectos técnicos da animação, tanto na dublagem, quanto na atualização dos traços já conhecidos pelo público de Groening. A caracterização dos personagens é carismática e integra bem os aspectos medievais com o estilo da série. A mesclagem entre o 2D com o 3D, inclusive, chega a ser deslumbrante em alguns longos planos pelos principais cenários da história. Há uma louvável atenção ao detalhe em certas composições, como a Terra dos Sonhos vista de longe, ou o interior do palácio real, compondo cenas que realmente (ao menos, visualmente) conseguem aproveitar o potencial da proposta da série. O avanço da tecnologia pode ser percebido nitidamente nas luzes e sombras de cada cena, onde é possível notar como há um degradê muito mais detalhado nos personagens quando estão pertos de alguma vela ou janela (ao invés de uma típica sombra desenhada), por exemplo.

No que diz respeito à dublagem, e ao texto dos personagens em si, não há muito do que reclamar. Embora não tragam a mesma sagacidade que consagrou outras obras de Groening, os diálogos são bem orquestrados e bem interpretados por um time de dubladores composto, inclusive, por ex-membros da série Futurama. Quanto mais descompromissadas são as falas por aqui, melhor o seu impacto.

Nos episódios finais, (Des)Encanto resolve elevar um pouco suas pretensões, e explorar mais a fundo sua trama, com resultados mistos. Embora seja ótimo ver os sistemas mágicos e a diversidade da série sendo aprofundada, estes terminam sendo compostos por elementos pouco substanciais, colocados em posição para serem (possivelmente) explorados em temporadas futuras. O último episódio termina em um enorme gancho para a temporada seguinte, deixando diversas tramas (se não, todas) sem uma conclusão aparentemente, ou uma evolução significativa na maneira como os personagens principais se comportam. Um exemplo mais inquietante: antagonistas foram apresentados sem muita cerimônia, deixando claro que estavam por trás de alguma conspiração envolvendo a protagonista, e manipulando as circunstâncias através de Luci (que, ao final, já não se mostra tão mal assim). Mas estes, também, acabam sendo deixados de lado pela série, aparecendo esporadicamente, e sem muita indicação de para onde levarão a trama… Tal qual a temporada como um todo, a empolgação do espectador é conquistada muito mais graças ao que a série pode vir a ser um dia, ao invés do que ela realmente apresenta neste começo.

(Des)Encanto funciona bem como um entretenimento casual. Menos ambiciosa do que tinha direito de ser, a série prepara um campo de opções exploráveis pelos roteiristas à todo momento, mas raramente os aproveita com o vigor que seu público esperaria. Pode ser consumida em uma só maratona, ou em episódios separados, conforme for a vontade do espectador, sem muitos problemas. Torcemos então, para que a série se disponha a ser mais transgressora e sagaz com todo o seu universo, como pontualmente consegue ser nesta primeira temporada.