Ghoul – Trama Demoníaca | Crítica – 1ª Temporada

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A segunda produção original da Netflix vinda da Índia, Ghoul foi concebida originalmente como um filme, mas a plataforma preferiu liberá-lo como uma minissérie de três episódios. A divisão é pouco relevante perante a estrutura da produção, e serve apenas para confirmar a tese de que os espectadores contemporâneos preferem ter o poder de escolher como gastar o seu tempo em blocos de quarenta minutos, ao invés de se comprometerem com as duas horas de duração.

A minissérie apresenta uma distopia onde a Índia é controlada por forças militares autoritárias, sempre sob a justificativa do nacionalismo primordial. Este contexto é o grande motor da história, e procura instigar a reflexão dos espectadores perante a intolerância, e o extremismo que ela inevitavelmente acaba provocando. Sob uma visão política inclusive, a obra acaba se tornando ainda mais relevante em um país como a Índia, onde o entretenimento é majoritariamente descompromissado e pouco provocador, ou subversivo.

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Dentro deste cenário, acompanhamos a protagonista Nida Rahim (Radhika Apte), uma jovem cadete (eventualmente, tenente) do exército autoritário, que considera sua responsabilidade patriótica entregar seu próprio pai às autoridades, por conta de suas ideias subversivas e contrárias às ideologias do governo. É uma personagem interessante justamente por conta de suas falhas, uma vez que tal atitude acaba lhe gerando um dilema moral inevitável, onde deverá sempre estar de acordo com seus superiores para validar sua decisão, ou encarar o sofrimento (tanto interno, quanto externo) de suas possíveis objeções.

Ghoul também carrega o nome de Jason Blum como produtor executivo, um outro fator que pode atrair espectadores para a produção. Blum é uma figura prolífica em Hollywood, responsável por comandar a Blumhouse Productions, que esteve por trás de grandes sucessos de terror nos últimos anos, como “Get Out (Corra!)”, “A Morte te Dá Parabéns” e “Fragmentado”. Há diversos elementos na minissérie que são comuns ao filmes do gênero, facilmente reconhecíveis por já terem sido usados a esmo. Fotografia escura, movimentação de câmera afobada em cenas de tensão, uso de câmeras e áudios de segurança para limitar o espaço do espectador… fãs de terror com certeza não acharão os aspectos técnicos muito revigorantes para o gênero, mas pelo menos estes são usados com eficiência regular por aqui.

Tendo sido concebida como filme, não é nenhuma surpresa perceber que o primeiro episódio da minissérie desenvolve a trama com um ritmo compassado, preferindo construir a situação de sua personagem e estabelecer os principais coadjuvantes, antes que o lado sobrenatural da história realmente venha à tona. Se não fossem episódios, este seria o típico primeiro ato de um filme padrão.

O universo da obra vai sendo desenvolvido então, apresentando suas reflexões sobre esta sociedade que tanto se assemelha a diversas obras distópicas, tanto na tv e no cinema, quanto na literatura (a cena em que os militares queimam livros não poderia deixar de remeter à “Fahrenheit 451”). A ideia é expor como um governo autoritário, tomado pelo patriotismo paranóico, acaba adotando métodos tão abrangentes e irrestritos que seria irracional pensar que todos os inimigos capturados seriam, realmente, inimigos em potencial. Como consequência, a tortura e o descaso convertem inocentes em adversários desesperados, e geram o extremismo onde antes havia discórdia

Um torturador tem o dever de adentrar a mente de sua vítima, encontrando seus piores medos, suas maiores fraquezas, e explorando-as para o seu benefício. É justo pensar então, que seu maior temor seria ter as circunstâncias viradas contra ele, e ver o torturado ganhando uma consciência maior que a sua. Entra então, o aspecto sobrenatural na forma de um demônio árabe conhecido mitologicamente como “ghul”. Uma clara representação do desespero, uma última medida, o “ghul” só pode ser invocado com a venda da própria alma. A criatura é capaz de enxergar as piores falhas do ser humano à sua frente, e rapidamente se torna a concretização do pior temor de alguém que domina pela força: perder a capacidade de contenção através do medo.

É o terrorismo em sua mais pura forma. Aquele que tiver mais medo, perde. E quando se força o ser humano ao colapso completo, não há mais nada a perder, não há mais a temer, só resta destruir.

A história de Ghoul vai evoluindo de maneira tradicional, com as típicas perseguições sobrenaturais e ilusões assustadoras que vão deixando os personagens cada vez mais tensos. É uma progressão cadenciada, com recompensas válidas ao longo do segundo e terceiro episódio, onde o público mais aficionado por cenas aterrorizantes deve ficar moderadamente satisfeito. Há alguns poucos usos do chamado “jumpscare” (acontecimentos repentinos, auxiliados por uma trilha sonora impactante), buscando adequar ainda mais o filme ao espectador acostumado com produções americanas corriqueiras.

Ao entrarmos no terceiro e último episódio, o terrorismo já venceu, e a paranóia vai rapidamente se instaurando entre todos os personagens. Militares e prisioneiros, sem distinção,se vêem aterrorizados por não saberem em quem podem confiar. Acusações vão sendo feitas sem muito discernimento, e o caos inevitavelmente toma conta. A minissérie aproveita alguns recursos de montagem para tentar gerar o mesmo sentimento de incerteza no espectador, fazendo com que não saiba se o personagem em cena é, ou não, quem diz ser. Não é um uso muito inspirado, e acaba servindo apenas para proporcionar reviravoltas genéricas na história, ao invés de realmente incluir o espectador.

O arco da personagem principal se conclui de maneira cíclica, deixando-a na mesma posição que seu pai, julgada com a mesma falta de discernimento, e obrigando-a a apelar para os mesmos métodos extremos. Uma tragédia com intenções de conscientização, que acaba cumprindo seus objetivos de maneira eficiente, porém sem muito destaque em meio a um gênero que constantemente se reinventa para impactar seus espectadores.

Ghoul vale a pena ser assistida por diversos motivos. Sua duração é, sem dúvida, mais acessível do que outras séries da Netflix. Aqueles que a descartariam pelos seus elementos genéricos, podem se ver mais empolgados pela mudança de cenário, para longe dos americanos. E os temas socialmente relevantes, com uma abordagem palatável, também podem ser muito bem aproveitados por todos aqueles que se disporem a refletir sobre eles. É mais uma prova de que uma das maiores forças da Netflix, está na sua capacidade de distribuir conteúdo internacional de grande apelo ao público, que muitas vezes seria apenas relegado ao país de origem.

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