A primeira temporada de Mr. Mercedes foi um fruto da atual “era de ouro” de conteúdo televisivo, tendo sido produzida como uma série original da AT&T, baseada em um livro de Stephen King. É o tipo de série que só poderia surgir, e ser feita do jeito que é, nos tempos atuais, onde grandes marcas estão investindo em todo tipo de conteúdo próprio para diversos fins. A estrutura da série tinha um ritmo lento em seu primeiro ano, com a história evidentemente sendo estruturada como um grande filme de dez horas (o que sempre acaba tendo resultados mistos na televisão). Nesta segunda temporada, a intenção parece ser a mesma, mas há algumas novidades animadoras que instigam o que a série pode vir a se tornar.

O segundo ano trouxe a típica recontextualização que começos de temporadas costumam precisar apresentar. Os personagens tiveram uma evolução substancial desde que Brady foi preso e hospitalizado, com Hodges (Brendan Gleeson) e Holly (Justine Lupe) agora trabalhando como caçadores de recompensas. É uma nova realidade que surge como consequência da experiência que os personagens compartilharam nos episódios finais da primeira temporada, e soa como um próximo passo natural para dar continuidade à dinâmica simpática que eles desenvolveram.

Além das novas circunstâncias, novos personagens também foram introduzidos em um novo núcleo que devemos acompanhar ao longo da temporada. Em parte, este novo núcleo (composto pelo médico e sua companheira) serve para justificar a volta de Brady (Harry Treadaway) dos “mortos”, uma vez que os novos personagens são convenientemente especialistas na condição em que o psicopata se encontra, e surgem com os meios necessários para reanimá-lo. Acredito (e espero) que o núcleo acabará sendo aprofundado e possuirá mais envolvimento com os personagens principais, conforme a temporada for evoluindo (Com sorte, também teremos a volta de outros personagens da primeira temporada que não deram as caras neste primeiro episódio).


Qualquer série de investigação precisa enfrentar o problema de ter uma trama limitada aos seus objetivos imediatos. No caso, o detetive já sabe quem é o assassino da história, e novas maneiras de reproduzir o suspense da primeira temporada precisarão ser encontradas para proporcionar o mesmo engajamento do espectador. Várias franquias preferem apostar em planos que o vilão tenha deixado preparados antes de sua “morte”, mas Mr. Mercedes não parece ter terminado de explorar os motivos por trás das ações de Brady. Os “ por quês” ainda parecem ser muito mais importantes para a história do que os atos em si.

Embora certos recursos de montagem bem frequentes da primeira temporada não tenham sido tão utilizados neste primeiro episódio (o maior exemplo é a sequência recorrente onde o detetive Hodges acorda em seu quarto e inicia o seu dia), é provável que este seja um aspecto exclusivo deste novo começo, e a série deve retomar suas marcações da primeira temporada eventualmente. Estes recursos eram,na verdade, um tanto incômodos para qualquer espectador que preferisse consumir a série em menos tempo do que ela foi transmitida. Na maioria das vezes, a montagem acabava apresentando estas sequências como uma forma de estabelecer uma rotina (preparando-as para que fossem quebradas, lógico), e acabavam se tornando redundantes dentro de episódios que frequentemente passavam dos cinquenta minutos. As novas circunstâncias e dinâmicas apresentam um potencial revigorante para que o tempo dos episódios possa ser aproveitado de maneira mais eficiente, sem apostar constantemente nesta quebra de repetições estabelecidas.

Mas a grande novidade desta segunda temporada de Mr. Mercedes não está na evolução da trama em si, e sim nos momentos finais do episódio, onde a série resolve utilizar simbolismos e ilusões alegóricas com ambos os personagens principais, Hodges e Brady. A sequência com Hodges no cemitério, imaginando Brady ao seu lado e adentrando o túmulo à sua frente demonstra uma disposição da série de explorar mais a fundo o psicológico de seus personagens, expondo seus pensamentos e temores com mais reflexão do que em um simples jogo de gato e rato. Se esta abordagem for abraçada, podemos ter uma temporada repleta de grandes momentos, tanto para os personagens, quanto para os atores que os interpretam, além de proporcionar uma certa liberdade para o roteiro construir os dramas internos com mais empolgação, e tornar a série mais dinâmica.

A segunda temporada de Mr. Mercedes ainda traz a mesma lentidão do primeiro ano, e parte dos mesmos sintomas de estofamento que diversos episódios apresentavam. Mas também se mostra disposta a levar seus personagens em direções interessantes. Quando se tem personagens bem construídos, qualquer série pode tornar-se interessante da noite para o dia, basta colocá-los em situações fascinantes.Um novo contexto e novos recursos de estrutura podem ser exatamente o que a série precisa para atingir todo o seu potencial.