Ultravioleta | Crítica – 1ª Temporada

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A nova série original da Netflix, Ultravioleta é alguma forma de composto. São variados os elementos aqui, sendo estes vertendo pelo viés do suspense policial. Em dez episódios, esta produção polonesa narra, ao todo, nove diferentes casos criminais a serem solucionados e, parte da inovação vem do fator que estes crimes serão investigados pela polícia da cidade de Lódz, na Polônia, com o auxílio quase integral de uma equipe de detetives amadores denominada Ultravioleta.

Liderados por Ola Serafin, interpretada com enorme vivacidade pela atriz Marta Nieradkiewicz, este grupo que ainda inclui: Piast, um habilidoso hacker de origem asiática; as irmãs gêmeas Dorota e Regina, celebridades da internet que fazem vídeos tutoriais de maquilagem e Tomek, um responsável pela segurança de aeroporto. Juntos da força local – que na série exerce um papel mais muscular que dedutivo – executam trabalhos usando de ciência forense e uma boa parcela de pura curiosidade mórbida.

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É fato que a Netflix está sempre antenada, entre acertos e erros, com o que acontece na atualidade, política e socialmente. Esta, onde se encontram as qualidades de Ultravioleta. São nos momentos aonde a série discorre mirando serviço público que estas virtudes ressaltam. Quando não, alguns episódios ficam engessados a vícios comuns da narrativa de gênero. Entre algumas das temáticas, temos por exemplo: no terceiro episódio, o reflexo de um mundo polarizado, com foco no reacionarismo ultranacionalista; ou no sétimo capítulo, sobre os perigos e a fragilidade da mente jovem mergulhada na depressão. Curioso que logo após a série explorar este tema complexo, na oitava parte, encontra seu pior momento, em uma mera história de vingança.

Para estabelecer sinergia entre obra e público, ainda mais em uma narrativa irregular, é necessário criar um campo de atração, geralmente canalizados sobre o protagonista. Aí entra Marta Nieradkiewicz dando vida e muita humanidade à Ola, que como heroína de um suspense policial, possui os três ‘i’s: intrépida, intrometida e inconsequente – principalmente a última. Em cima de características como estas fica mais fácil a relação com o espectador, que vê nas idiossincrasias da personagem, uma oportunidade para identificação, ou apenas um meio para entretenimento. Ajuda muito quando este foco possui um contrabalanço, no caso, Michal, interpretado por Sebastian Fabijanski.

Michal que é um detetive investigativo de face sisuda, além de gélido – como o inverno do leste europeu – faz jus a expressão força policial, pois o personagem, por toda a série, serve mais como o salvador brucutu que aparece na hora certa do que como um exemplo de sagacidade. Até o visual do personagem, despojado, sempre desfilando uma coleção de variadas cores de camisetas largas – tipo anos 90 – e usando bonés, sempre virados para trás como fazem os skatistas é reflexo deste comportamento. Surpreende, no sexto episódio, quando é revelado, um outro lado dele.

Além da protagonista, alguns dos outros personagens secundários possuem arco dramático – sendo todos ainda abertos, pensando a possibilidade de novas temporadas. No núcleo do enredo, desenvolve-se a vida pessoal de Ola. Vida esta, traumatizada por tragédias pessoais, além da instabilidade no casamento. A jornada de Ola, que se dispõe a situações de perigo intenso, visa algum tipo de superação pela redenção. Assim, nenhum de seus relacionamentos de interlocução pessoal direta flui com facilidade. A personagem sempre no fio da navalha vai de encontro ao conflito – quando com sua mãe, ganha tons mais cômicos. Diante desse ciclone emocional só a racionalidade de Michal para trazer algum equilíbrio e nuances a série.

Alguns dos outros arcos, incluem: a conciliação das aventuras como ás da computação e vida escolar de Piast; a busca por balanço no relacionamento e trabalho com Tomek, e certamente o mais catártico, que recai sobre Regina (Paulina Chapko), e a mulher atrás da máscara. No melhor capítulo de Ultravioleta foi apresentado o que se encontra no mais íntimo do porão em Regina. Empatia e compaixão alcançam seus níveis mais elevados quando adentramos a cabeça da juventude que se sente a parte de tudo, e todos. Fica transparente fazer a ligação com outra série original da Netflix, 13 Reasons Why.

Perceptível que Ultravioleta toma emprestado, de diálogos a situações, e princípios vindos do cinema. Temos de citações que remetem a O Inferno de Dante (1997) de Roger Donaldson a estereótipos próprios do gênero thriller. Infelizmente, nem sempre a série consegue escapar da repetição de certos eventos e, geralmente dentro dos mesmos blocos na linha narrativa. O mundo que se revela pelo olhar de Ola registra a desolação do mal-estar contemporâneo europeu, notável em filmes do diretor alemão mundialmente prestigiado, Michael Haneke (A Fita Branca, Happy End), ou da nova sensação russa, o cineasta Andrey Zvyagintsev (Leviatã, Sem Amor). Obviamente, a roupagem em Ultravioleta é mais pop que nestes filmes, pois além de ser um projeto da Netflix, busca-se instigar com entretenimento, os atos criminosos que explicitam nossas vulnerabilidades como humanos, destacando as camadas mais sórdidas da sociedade.

Nos quesitos técnicos, como roteiro, pode-se dizer que este consegue encapsular com clareza a atmosfera e, comportamento das pessoas nessa região da Europa. Atira em vários pontos visando apresentar o espírito dos tempos recentes. Quando consegue fugir das estruturas mais básicas torna-se mais atrativo, todavia quando segue o manual cai na repetição enfadonha. Em relação a direção dos episódios – que trabalham com dois diretores diferentes – pode-se afirmar que é segura em sua maior parte, as vezes exageradamente formatada, rígida. Vale pontuar, negativamente, todas as cenas de luta corpo a corpo que pareciam stunts feitos por integrantes da trupe da série de reality show Jackass.

É certo que Ultravioleta não está fechado. Existe abertura para seguir com esta análise sobre a condição humana e quais são os limites da moralidade que miram preservação, e quais os que descarrilham em transgressões assustadoras. Junto, arriscar-se mais no campo criativo visando melhor entretenimento universal, soltando das amarras estruturadas, pois é fato que a série sabe construir, assim, nada mais empolgante que brincar – sem deixar de instruir – desconstruindo. Ultravioleta pode ter um futuro solidificado, mas paradoxalmente, as chances deste projeto sedimentar com maior ímpeto na mentalidade do espectador devem vir através de um arrojamento despropositado.

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