Atypical | Crítica – 2ª Temporada

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“Dramédias” costumam carregar algumas dificuldades extras em seu desenvolvimento. É necessário atingir um equilíbrio complexo entre a descontração e o peso dramático que cada personagem deve apresentar em sua trajetória. “Tom” é o grande aspecto que costuma ser discutido em análises de “dramédias”, e (geralmente) é referente ao “clima” que a série apresenta regularmente, qual sentimento ela se propõe a passar, e qual o humor que estará em evidência. Atypical, que entrou em sua segunda temporada na Netflix, continua a exibir um ótimo exercício de equilíbrio tonal.

A série é focada em Sam Gardner (Keir Gilchirst), um personagem diagnosticado com um grau funcional de autismo, e acompanha suas perspectivas sobre as relações humanas ao seu redor. O grande trunfo da série sempre foi expandir seu foco para além do protagonista, retratando estas relações que, frequentemente, parecem ser tão complicadas para Sam, de maneira honesta e consciente, demonstrando que suas complexidades atingem cada personagem de acordo com a suas próprias capacidades e circunstâncias. Atypical continua fiel à sua proposta de que todos temos obstáculos pessoais, que dificilmente serão compreendidos por qualquer outro além de nós mesmos.

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Sendo assim, esta segunda temporada se mostrou consistente em relação à primeira, posicionando seus personagens em novos cenários e novas situações que pudessem aprofundar suas personalidades, sempre traçando paralelos sutis entre cada um deles. A irmã de Sam, Casey (Brigette Lundy-Paine), conquistava a empatia do espectador durante o primeiro ano, justamente por carregar uma personalidade empática, porém verossímil ao mesmo tempo. Defendia seu irmão, mesmo que ainda brigassem entre si. Sempre teve uma moral inquestionável, ainda que apresentasse todos as típicas características de um adolescente. E agiu com base em seus sentimentos de forma coerente (ainda que repreensível) quando descobriu a traição de sua mãe, a pessoa que ela mais desprezava, justamente por não compreender a complexidade de suas decisões e de suas falhas. Com a nova temporada, a série colocou a personagem em posições muito semelhantes às que a personagem de Jennifer Jason Leigh se encontrou na temporada passada, e (sem forçar estas realizações) proporcionou comparações interessantes entre estas reações, sob perspectivas muito diferentes.

Mais do que trabalhar estas diferentes perspectivas, a série também procura construir seus personagens sem idealizações superficiais. É uma abordagem que se inicia com a maneira como o autismo de Sam é retratado ao longo de Atypical, ressaltando seu dia-a-dia com organicidade e descontração. Mas também se aplica ao jeito como todos estes personagens agem, e como eles enxergam as dificuldades pelas quais passam. Suas falhas não são meros complementos de suas descrições no roteiro, mas sim atitudes equivocadas, que possuem justificativas e consequências palpáveis dentro da trama. Em uma determinada cena, a mãe pergunta ao namorado da filha se ele acha que ela e o marido são “péssimo pais”. Ele responde, em um impulso honesto, que eles são meramente “pais”. Com todos os problemas e dificuldades, a personagem perdeu a noção de que não está vivendo sozinha no mundo. Precisou ser relembrada de que estes empecilhos fazem parte da vida como um todo, e constituem a nossa personalidade.

“Típico”, conforme a série demonstra, é um termo usado para uma idealização. O nome da série, se referindo ao protagonista como alguém fora dos padrões, também acaba englobando todos os outros personagens, nos fazendo refletir sobre o que é, realmente, ser “atípico”. O que é ser fora dos padrões, e como estamos constantemente tentando nos ajustar a padrões que nem sempre ajudam a nos sustentarmos e, na verdade, apenas nos impedem de atingirmos todo o nosso potencial como indivíduos. Esta é uma mentalidade que percorre diversas produções da Netflix, algumas com bem menos sutileza do que outras, e pode ser questionada de várias formas. Mas quando é bem trabalhada, de maneira orgânica e prática, é capaz de gerar histórias incrivelmente fáceis de se simpatizar, e de provocar reflexões relevantes na geração atual.

Atypical apresenta seus elementos dramáticos com eficiência, e nos encoraja a ligar para estes personagens, justamente pela complexidade de suas ações. Nos força a manter uma relação honesta com eles, aceitando seus temores e dúvidas, ao mesmo tempo em que compartilhamos os momentos de alegria e realização. Este é (ou deveria ser) o objetivo máximo de qualquer narrativa. Ao mesmo tempo, estamos lidando com uma série de 30 minutos cujo o apelo para muitos vem pela comédia, e os escritores não deixam este apelo ser desperdiçado. O roteiro trata diversos momentos de conflito com a relevância necessária, porém sem julgamentos explícitos, e acaba gerando uma naturalidade palatável para o público encarar estas situações sem a (típica) pressão social. Sam é responsável por diversos momentos cômicos durante a série, mas nunca sob um olhar de deboche. Suas peculiaridades causam estranheza nos espectadores, tanto quanto nos outros personagens, e é aí que o roteiro aplica suas ironias e seu descompromisso ( A maneira como Sam lê o discurso de Paige no último episódio é um ótima representação desta linguagem da série como um todo).

O espectador é fisgado pela peculiaridade da trama, mas permanece engajado pelo drama relacionável que se mantém interessante, e revigorante, ao longo dos episódios. Todos possuem falhas em seus personagens e, ao mesmo tempo, todos precisam de ajuda em algum momento. Mais do que revelar o quão normal é ser “anormal”, a série procura responder seus embates com a compaixão que existe onde menos poderia se esperar, e a tamanha diferença que ela faz.

Não poderia encerrar esta análise sem me juntar ao coro de elogios ao ator que interpreta Sam, Keir Gilchrist. Até mesmo em momentos mais clichês quando se trata de condições psicológicas, a interpretação é sempre carismática e eficiente, tornando fácil, a compreensão de um texto não tão fácil assim de se expressar com a delicadeza necessária. Atypical é uma série bem feita, pois seus personagens são bem feitos. É um ótimo exemplo da relevância que diversas estratégias da Netflix podem alcançar quando são empregadas corretamente. Esta segunda temporada trouxe diversos desenvolvimentos que nunca soam forçados ou convenientes demais, e instiga o espectador a rever conceitos, sem pesar a mão nestes discursos ou tornando-se redundante. Ao final, estabelecem-se os ganchos para que estes personagens prossigam com seus próprios caminhos, com novos desafios e com suas perspectivas sendo revistas. Se trouxer a mesma humildade e o mesmo equilíbrio em suas temporadas futuras, estarei mais do que disposto a rever estes personagens e observar, atentamente, suas evoluções.

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