Kidding | Primeiras Impressões – 1ª Temporada

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Após um tempo longe do holofotes, Jim Carrey tem retornado gradativamente à atuação, assumindo papéis em alguns filmes menores, fazendo aparições em programas de entrevistas e, agora, liderando a mais nova produção do canal americano Showtime: Kidding. A nova série traz Carrey retomando sua parceria com o diretor Michael Gendry ( o mesmo que o dirigiu no aclamado filme “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças), e procura trabalhar alguns temas difíceis de serem universalmente compreendidos.

O protagonista é Jeff Pickles, um apresentador de programas infantis amado por seu público, e o rosto de uma “marca” milionária de produtos educativos. Jeff sofre uma tragédia familiar devastadora, e pena para conciliar seu papel como pai e marido, com seu papel na TV. Evidentemente, o personagem é livremente baseado no icônico Mr. Rogers, um apresentador e marionetista que tornou-se uma reconhecível figura influente no universo midiático dos EUA. Por coincidência, assisti o documentário sobre esta figura há pouco tempo atrás, “Won´t You Be My Neighboor” (talvez, não haja tanta coincidência assim, considerando que ambas as obras foram lançadas neste ano).

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No documentário, retrata-se a filosofia de vida de Mr. Rogers, que pregava a empatia e a compaixão em todas as suas produções. Através de músicas e marionetes, seus programas tratavam de temas complexos ou profundos de maneira simples, descontraída e eficiente. Mr Rogers nunca subestimava a capacidade de uma criança de compreender emoções, deixando as incertezas e inseguranças para a mente adulta. De forma semelhante, Kidding também carrega esta mentalidade, e se propõe a colocar certos aspectos desta filosofia em destaque para serem explorados. A série também brinca com a maneira como o público sempre teve dificuldades em aceitar que alguém como Mr. Rogers poderia realmente agir daquela maneira na vida real, sempre jovial e bem-resolvido, e acaba gerando alguns dos melhores momentos para Carrey encarnar seu personagem em situações cotidianas.

É necessário levar em consideração, então, que a audiência americana, já acostumada à figura de Rogers, possui uma predisposição à encarar Jeff Pickles com esta perspectiva referencial. O grande apelo da proposta de Kidding é colocar este ícone que sempre soube o que dizer e o que fazer, para lidar com algo impossível de se consertar. Boa parte do documentário retrata que Mr Rogers lidava com seus próprios temores através de seu programa, exteriorizando seus pensamentos de forma inocente. Pickles segue pelo mesmo caminho, mas a série demonstra um interesse de humanizar o personagem muito além do que qualquer documentário faria, e capitaliza em cima de seus conflitos internos para gerar um drama engajante.

Com apenas meia hora de episódio, Kidding já tenta equilibrar temas como morte, divórcio, influência midiática, adolescência, parentalidade, perspectiva infantil, entre alguns outros breves diálogos que preenchem o texto. Em meio à todo este trabalho, fica difícil encontrar momentos cômicos que possam entreter uma audiência descompromissada. Há uma ou outra cena que pode arrancar risos, mas a série não enaltece seus elementos como sendo objetivamente engraçados, com frequência.

Boa parte deste piloto, no entanto, demonstra que há muito espaço para Carrey brilhar com um personagem tão peculiar e complexo quanto outros que atraíram sua atenção durante sua (igualmente peculiar) carreira. A adição de uma trama secundária, focada na irmã de Pickles e sua família, também pode acabar gerando alguns paralelos interessantes e atrair a empatia de diferentes tipos de espectadores. Interpretada por Catherine Keener, a irmã tenta obrigar a sua filha a comer os legumes retirando seus direitos à higiene pessoal (Uma tática absurda, logo ao lado de um mestre da comunicação infantil. A ironia não é perdida). São tais contrastes que tornam a série mais atraente, partindo do próprio protagonista, e suas diferentes facetas.

O clima de Kidding, desde sua fotografia pouco vibrante até uma trilha sonora serena, poderia deixar os espectadores exaustos de certas reflexões regadas à pensamentos depressivos, mas a atuação de Carrey, sempre leve e otimista, acaba balanceando bem estes tons divergentes e carregando a atenção do espectador, que se vê naturalmente curioso para saber como o personagem irá reagir ao próximo obstáculo.

Como diz o pai de Jeff neste episódio, “Você não coloca o Papa em uma sunga. Você não tira o recheio de dentro da bolacha. Qualquer mudança vai forçar uma conversa com a platéia que eles não querem ter.” Que venham as mudanças. Imprevisibilidade e personalidade serão os grandes trunfos por aqui. A ambição dispersante pode gerar alguns problemas, e Kidding não é uma das séries mais palatáveis para o público geral, acostumado às comédias espalhafatosas dos EUA, mas com algumas melhorias de ritmo e mantendo a consistência de seu texto, pode vir a tornar-se uma obra relevante nos tempos atuais.

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