Maniac | Crítica – 1ª Temporada

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Trazendo Cary Fukunaga de volta à televisão, e composta por um elenco de grandes nomes, Maniac chega ao Netflix com grandes ambições e metas a serem cumpridas por sua abordagem peculiar. Jonah Hill e Emma Stone já são conhecidos do público desde a comédia adolescente “Superbad”, anos atrás. Na última década, no entanto, ambos se tornaram figuras recorrentes do Oscar no mundo do cinema, e fazem jus às suas carreiras até aqui com dois personagens repletos de potencial para grandes performances, em uma história não tão inconvencional quanto poderia se esperar.

Hil interpreta Owen, um jovem de família rica que sofre de esquizofrenia, e tem dificuldade para distinguir o “real” da “ilusão”. Sua família o mantém afastado, com vergonha de suas condições (ou incapacidade emocional de lidar com elas), e Owen frequentemente passa por delírios onde acredita fazer parte de algum tipo de conspiração governamental. Annie (Emma Stone), por outro lado, dedica boa parte de seu tempo à não estar consciente de sua realidade, atormentada por seu passado familiar, e tenta fazer dinheiro para seus vícios aplicando alguns pequenos golpes neste “futuro próximo” que a série apresenta.

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A sociedade de Maniac é uma previsão cínica de como as gerações atuais vem se distanciando da realidade, e aderindo à segurança das relações virtuais. Empresas oferecem serviços como “Friend Proxies” (uma espécie de amigo substituto), que são pagos para se importarem com você, com o que você está falando, e fingirem ser quem você quer que eles sejam. As pessoas podem vender suas imagens para um banco de dados que as usará em propagandas como bem entenderem, sem a necessidade de suas aprovações. E doenças neurológicas se tornam muito mais comuns e difíceis de serem resolvidos pela medicina, do que qualquer aflição física. Owen e Annie acabam se envolvendo em um estudo científico que se propõe a acabar com todo e qualquer problema psicológico, através de três comprimidos alucinógenos.

Em qualquer narrativa padrão, o protagonista é apresentado em seu “mundo comum”, exibindo alguma falha de personalidade, ou “quebrado” de algum jeito. No segundo ato, o personagem passa por experiências catárticas no “mundo estranho”, e confronta suas transformações. Ao final, tal personagem escolhe entre permanecer no “mundo estranho”, ou retornar para o “mundo comum”, alterado por sua jornada, “consertado”. Em Maniac, esta estrutura é levada ao pé da letra, com os dois protagonistas apresentando sua má-funcionalidade na sociedade em que vivem, sendo levados à um experimento psicológico que irá, literalmente, fazê-los confrontar suas aflições e traumas psicológicos, para então retornarem às suas devidas realidades, curados de suas incapacidades. E do mesmo jeito que tal abordagem serve para construção de outras histórias, a série divide a catarse de seus personagens em certos estágios específicos.

Os três comprimidos, “A”, “B” e “C”, são responsáveis por expor os traumas e medos dos pacientes, encontrar os pontos cegos em suas auto-interpretações e, por fim, reestruturar seus mecanismos neurológicos de defesa para lidarem com o problema (essencialmente, “curando-os”). A maneira como a série procura retratar cada experiência representativa que os personagem passam ao longo do estudo é, evidentemente, a maior de suas ambições, e se mantém aberta à diferentes interpretações do espectador. Existem várias ligações entre estas experiências e aspectos da vida real de cada personagem, que nos ajudam a compreender como o experimento está alterando as perspectivas destes pacientes. Mas, ao mesmo tempo, muito de como a série trata estas “sequências de sonho” também acaba representando a abordagem desta narrativa em si. Primeiro, colocam os personagens em memórias e situações reconhecíveis, relevantes para suas aflições. Depois, a realidade ainda é facilmente assimilável, mas as circunstâncias são bem diferentes, e colocam os personagem em visões mais imparciais sobre si mesmos. O último comprimido, então, cria cenários mirabolantes que apresentam o escapismo como trajetória para além dos traumas.

Esta temática psicológica de Maniac costuma trazer, em outras obras, uma abordagem mais comprometida, ou muito mais abstrata do que vemos por aqui. A série prefere, no entanto, tentar equilibrar sua narrativa entre construir um retrato válido da epifania de seus protagonistas, e abraçar a ignorância de seus personagens como a mais honesta representação possível, para tal proposta. Os momentos em que mais se leva a sério, costumam ser subitamente quebrados por algum elemento cômico ou desconcertante, em diversas cenas, o que pode afastar alguns espectadores que não conseguirem acompanhar estas mudança tonais. Outros, no entanto, podem acabar se apaixonando pela série, e por seus personagens, justamente por causa deste tom emocional dispersivo, que compõe boa parte da distinção de Maniac.

Cary Fukunaga assina a direção de todos os dez episódios da série, e se dedica a criar uma atmosfera pitoresca durante o procedimento dos personagens, com cores vibrantes em determinados espaços do laboratório e composições caprichosas em quadros estáticos. Diversos diálogos são retratados com cortes extensos e uma movimentação de câmera precisa, que busca evidenciar momentos mais contidos de uma narrativa tão emocionalmente inconsistente, além do uso de alguns simbolismos pontuais. Dentro das “sequências de sonho” dos personagens, o diretor exibe um entusiasmo diferente de suas composições na “realidade”, focado nas dinâmicas de cada sequências em particular, e suas respectivas referências estilísticas. Também é importante ressaltarmos a trilha sonora de Maniac, que toma conta de diversas cenas ao longo da série, com a função de guiar a intenção de diversos momentos (ao invés de meramente complementá-los) usando faixas expressivas e, muitas vezes, contrastantes.

Justin Theroux, Sally Field e Sonoya Mizuno compõem o núcleo de personagens que se mantém do lado analítico deste experimento. Ficam com boa parte da execução cômica da série, ironicamente ocupando cargos importantes e reconhecidos, mas tão emocionalmente incompetentes e confusos quanto aqueles que buscam tratar. Tais papéis não fornecem toda a escala que Stone e HIll aproveitam como protagonistas do experimento, mas possuem seus momentos de brilho, ocasionalmente. A dupla, por outro lado, faz grandes adições aos seus respeitados portfólios, com interpretações bem diversificadas que se adequam bem ao humor volátil de cada cena, principalmente com as emoções expressivas de Stone (obs: ver Emma Stone encarnando uma elfa arqueira e uma espiã internacional em dois episódios seguidos, já deveria ser um motivo para ver a série, por si só) .

Se propondo a ilustrar uma temática tão complexa e abrangente quanto são os flagelos da mente humana, Maniac consegue produzir mais bons retratos e interpretações de suas perguntas, do que respostas propriamente gratificantes para o espectador. A jornada de seus personagens, no entanto, é concluída com otimismo dentro do que a série se dispõe a fazer com sua trama, e compõe boa parte de suas resoluções com substância e eficiência suficientes para proporcionar uma experiência extremamente válida ao público, esteja este disposto a refletir sobre elas, ou apenas a ser entretido pelas peculiaridades deste universo.

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