Ozark | Crítica – 2ª Temporada

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A comparação entre Ozark e Breaking Bad é praticamente inevitável, considerando a premissa de ambas as séries – duas famílias de classe média que acabam entrando na vida do crime, se envolvendo, de alguma forma, com cartéis de drogas mexicanos. Enquanto que a série original da Netflix poderia facilmente seguir pelo caminho da muito bem sucedida obra da AMC, ela sabe se distanciar logo cedo e já na segunda temporada – apesar dos pontos em comum – temos dois seriados essencialmente diferentes um do outro, especialmente no que diz respeito à atmosfera de cada uma delas. Isso, claro, não é a receita de sucesso para Ozark, mas permite que ela caminhe com suas próprias pernas.

Seguindo de onde fomos deixados ao término da primeira temporada, esse segundo ano da série já traz Marty (Jason Bateman) e Wendy (Laura Linney) Byrde mergulhados na instável relação entre o Cartel de Navarro e os Snell. O surpreendente desfecho da temporada anterior colocou tudo isso em xeque e desde já, o showrunner, Chris Mundy, faz uso da impactante morte do season finale para estabelecer aquela tensão inicial, tão necessária para que sejamos capturados por essa narrativa. Além disso, fica claro o foco da temporada, o macguffin, por assim dizer: a construção do cassino , que geraria lucro para as três partes envolvidas: os Byrdes, Navarro e os Snell.

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Essa tensão inicial, no entanto, logo é desarmada e logo Ozark retorna ao que faz de melhor: inserir novos problemas – praticamente a cada capítulo – que Marty ou Wendy precisam resolver. Dessa forma, sentimos a constante renovação da narrativa, como em uma busca eterna para não se deixar cair na mesmice, ou até mesmo na lentidão.

Por outro lado, sentimos que alguns pontos poderiam ter sido trabalhados com mais calma, desenvolvidos de tal forma a extrair mais de tais fontes de ameaça para os Byrde – mais de uma vez, uma perigosa situação acaba regredindo à normalidade, antes mesmo de ser capaz de criar aquela particular angústia que sentimos muitas vezes no primeiro ano da série. É uma estranha pressa, que acaba gerando alguns anticlímaces.

O mesmo vale para alguns núcleos, que, ou demoram demais a se provar relevantes para o quadro geral do seriado (mais de 7 episódios, em uma temporada com 10), ou simplesmente não levam a nada. Muitas vezes somos distraídos por Charlotte (Sofia Hublitz), ou Jonah (Skylar Gaertner), que, na maioria das vezes, servem meramente como dispositivos do roteiro, com fins específicos. Enquanto que a relação entre eles e seus pais mereça ser explorada, não é o suficiente para sustentar arcos pessoais, especialmente quando já há muito acontecendo paralelamente.

Além disso, os outros núcleos todos giram em torno de Marty e Wendy, sempre podendo trazer consequências catastróficas para ambos, o que é algo que não sentimos quando se trata de seus filhos – embora, ocasionalmente, suas ações afetem mais diretamente os seus pais.

Enquanto que a narrativa acaba se distanciando do que importa quando se trata de alguns focos em específico, outros conseguem ser tão engajantes – e algumas vezes até mais – que o principal. Refiro-me especialmente ao de Ruth Langmore (Julia Garner), cujo desenvolvimento tanto nessa temporada, quanto na anterior, nunca deixa de ser fascinante. Tendo de lidar com suas responsabilidades em relação a Wyatt (Charlie Tahan), a gerência do stripclub, suas tarefas adicionais para Marty, e a ameaça constante proporcionada por seu pai, a subtrama envolvendo Ruth parece que está prestes a gerar uma tragédia a qualquer momento e, enquanto isso tudo acontece, só conseguimos sentir simpatia pela personagem.

Fruto disso, claro, é a sublime interpretação de Julia Garner, que entrega uma personagem desbocada, com real personalidade – alguém que parece, de fato, estar viva, ser uma pessoa de verdade e não apenas uma peça que serve ao roteiro quando convém. É através da, algumas vezes sutil, outras explosiva atuação de Garner que a personagem ganha muito de sua profundidade, a tal ponto que conseguimos entender o que ela sente, simplesmente de olhar para ela – marca de uma boa personagem, que sempre nos deixa querendo ver mais de suas cenas.

Não podemos, claro, desconsiderar os esforços de todo o restante do elenco de Ozark. Jason Bateman continua nos proporcionando um ótimo protagonista, que, através de pequenos nuances de seu comportamento, nos permite enxergar toda a pressão que se acumula sobre ele. Infelizmente, o roteiro acaba tendendo demais para a reação do personagem e não tanto na ação propriamente dita – algo que chega a ser tratado em um dos episódios – o que acaba o relegando, em certos capítulos, a segundo plano. Basta, contudo, um pouco de Bateman em tela para que sejamos lembrados de qual é o foco da história.

Laura Linney, como uma das expoentes da série, é, ao lado de Garner, a que evoca a maior pluralidade de sensações. Sua interpretação de Wendy Byrde é profunda e precisa e, como Garner, nos faz enxergá-la como uma pessoa, de fato – não meramente uma criminosa e exímia estrategista, quando se trata de política, mas como alguém que luta contra as consequências mais éticas e morais do que eles fazem, algo que também ganha a devida atenção nessa temporada, que tem como um dos aspectos centrais a colheita dos frutos plantados lá no ano anterior e até mesmo nesses novos episódios.

Tais frutos, claro, apresentam-se através de novos personagens, novas nuances de personalidade, novas ações. Perfeito exemplo disso é a advogada do Cartel, Helen Pierce, vivida pela sempre excelente Janet McTeer, que transmite um ar de total incerteza sempre que aparece – não por ser explosiva, como é o caso dos Snell (especialmente Darlene), mas pela sua persona impassível, que quase nunca entrega o que pensa, mas, quando o faz, traz aquele vislumbre da mulher por trás dessa figura ameaçadora, um olhar sobre o ser humano que existe naquela manifestação física do Cartel.

Não muito diferente do empresário por trás da política do Missouri, Charles Wilkes (Darren Goldstein), uma bela adição a essa temporada, que coloca a família Byrde em território ainda mais instável. Aqui vemos o capitalismo e a criminalidade se misturando ainda mais, inserindo um viés político mais forte, que faz muito bem acinzentar mais ainda as coisas – algo que também ocorre com o agente Roy Petty (Jason Butler Harner), que ajuda a desmistificar a figura incorruptível do FBI, através de métodos para lá de escusos, de tal forma que passamos a enxergar todos – sejam polícia ou ladrão – como sendo farinha do mesmo saco, apenas de lados opostos da moeda.

Digo tudo isso, dedicando trechos a cada personagem, para mostrar que essa segunda temporada de Ozark é, acima de tudo, uma narrativa movimentada pelos personagens, onde o foco se encontra. Mais que a história, o que importa, de fato, é o desenvolvimento de cada um desses indivíduos. Sim, alguns núcleos poderiam ter sido melhor trabalhados, enquanto que outros poderiam simplesmente não existir, o que gera certa perda de imersão em determinados momentos – para não dizer tédio. Felizmente, nada que afete, de maneira geral, nossa percepção da temporada como um todo.

No fim, Ozark continua sendo uma das melhores séries originais da Netflix. Uma grata surpresa, que soube se diferenciar de Breaking Bad e encontrar seu próprio caminho.

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