A franquia The Purge surgiu no começo desta década com uma proposta que era, evidentemente, inevitável de se explorar em meio aos turbilhões políticos que não só os EUA vivem, mas o mundo inteiro também. A ideia de poder cometer crimes sem qualquer consequência é atraente para qualquer espectador que se permita contemplar este tipo de liberdade, e todos os filmes até então parecem atingir seus objetivos com o público, ainda que nem sempre obtenham o apreço da crítica. A nova série do canal americano “USA” não se desvia do modo com os filmes operam, e traz os mesmos apelos e desafios que permeiam este universo desde o primeiro “Uma noite de Crime”.

Não é necessário muito esforço para perceber que os principais aspectos de The Purge são, também, muito atraentes a um formato televisivo. Considerando que a franquia sempre esteve muito mais interessada nas circunstâncias de sua trama do que na exploração relevante de sua filosofia, o que temos na televisão é ainda mais espaço para se contextualizar todos os horrores e absurdos que a noite do expurgo proporciona. Composta por alguns diferentes núcleos de personagens, a série traz enredos que provavelmente poderiam ter sido usados como filmes separados, mas que são intercalados neste primeiro episódio sem muitos sinais de que pretendem ser interligados.

O primeiro personagem a ser apresentado é o ex-fuzileiro naval Miguel (Gabriel Chavarria), que traz o mais claro dos objetivos (encontrar sua irmã perdida) e a mais palpável obstinação para, assim, ditar o acompanhamento do espectador. Dado o seu passado militar, também é de se esperar que o personagem acabe ficando com boa parte das cenas de ação mais complexas, além de proporcionar momentos de retaliação que o público provavelmente virá a ansiar em um cenário como este. Sua irmã, Penelope (Jessica Garza), não tem muito desenvolvimento já neste primeiro episódio, e serve mais para exibir o nível de horror que a série pretende tratar com sua mentalidade deturpada.


O casal Jenna e Rick (Hannah Anderson e Colin Woodell), por outro lado, tem seus objetivos um tanto mais obscuros e adicionam uma camada de “intriga entre relacionamentos”, que costuma ser bem atraente para a audiência televisiva. Seu envolvimento com a jovem “socialite” Lila (Lili Simmons) promete trazer à tona momentos de drama pessoal que podem proporcionar respiros interessantes à série, ao mesmo tempo em que posiciona este triângulo amoroso em um dos cenários mais relevantes deste universo: a festa dos ricos que se excluem do expurgo. Com um pouco de audácia, estes são os personagens que podem ser os mais interessantes de observar suas moralidades sendo testadas.

E temos, também, a empresária Jane (Amanda Warren), que pode não ser tão obstinada quanto Miguel logo de cara, mas vai exibindo sua determinação intrigante em uma trama que deve ser desenvolvida com mais calma ao longo da temporada. Seu papel dialoga com a parte da audiência que enxerga os temas da franquia The Purge por uma ótica trabalhista, empresarial… Tal qual é retratado em uma fala no rádio durante o primeiro filme, quanto tempo demoraria até alguém resolver usar o expurgo para eliminar o próprio chefe? Este é o tipo de sentimento dormente que a franquia sempre se mostrou atraída a explorar, mas nem sempre dedicou o trabalho necessário para tornar suas reflexões, plausíveis o suficiente.

Neste primeiro episódio, acompanhamos toda a preparação para o início do expurgo, e tudo indica que esta primeira temporada irá cobrir o período desta uma noite de violência. O tempo que o formato televisivo proporciona pode ser muito explorado por aqui, revelando as diferentes perspectivas que coexistem durante o expurgo. O constante clima de tensão, por outro lado, pode acabar sofrendo com esta maior duração, uma vez que a narrativa precisará manter suas tramas em uma movimentação engajante que faça jus ao temor que este universo sempre exibiu.

Mas, ao fim, as maiores decepções da franquia ainda se mostram presentes na série de The Purge. Preocupada sempre em exibir o quão baixo pode chegar o ser humano, a franquia nunca parece tão determinada a tentar encontrar o “por quê” destes atos horrendos. A crueldade e a falta de consideração pelo outro são constantemente exibidos com extremismo, a visão sobre as diferenças de classes na sociedade americana são exibidas de maneira pouco inovadora ( colocar todos os ricos como grandes vilões sádicos traz uma simplicidade incômoda para os temas que resolvem ser abordados), e os retratos de compaixão ou epifania costumam ser superficiais demais para haver qualquer empatia genuína com o espectador.

A franquia sempre soube que sua proposta se sustentaria por si só. Em tempos de desespero político e insegurança, tantos os filmes, quanto a série, trazem representações que despertam a curiosidade mórbida do ser humano. Com o espaço que The Purge pode aproveitar na televisão, os grandes temas da franquia poderiam ser explorados e aprofundados de maneira adequada, finalmente conquistando a atenção da crítica especializada. Mas, ao que tudo indica, parece que a audiência terá os seus devidos momentos de expurgo novamente, e nada mais que isso.