Esqueça American Horror Story e A Maldição da Residência Hill: a série mais assustadora da atualidade é Chernobyl, da HBO.

A minissérie produzida por Craig Mazin consegue contar detalhes sobre uma das mais famosas tragédias históricas, trazendo o terror da radiação como realidade nua e crua. Fãs já comentam nas redes sociais: Chernobyl é uma obra de horror.

A série alcança sucesso ao fugir dos clichês sobre acidentes nucleares. Muitas vezes, séries utilizam conceitos de radioatividade de maneira completamente errônea, com mutantes, super-heróis e zumbis. Talvez essa estrategia seja utilizada para amortecer o choque do público, já que a realidade é bem mais assustadora que a ficção.


Chernobyl assusta exatamente por fazer o contrário: se ater aos fatos como eles realmente aconteceram.

Um vilão invisível

Em Chernobyl, o inimigo está por toda a parte. Pior ainda, ele não pode ser visto ou sentido. O espectador sabe o que está acontecendo, o que faz cenas de pessoas interagindo normalmente se tornarem imagens de agonia e terror.

A preocupação da equipe de maquiagem em basear o visual dos afetados pela radiação no que realmente aconteceu é apenas a ponta do iceberg narrativo que traz alguns dos maiores medos da raça humana à tona.

No terceiro episódio da série, Lyudmilla visita seu marido no hospital, um dos primeiros bombeiros a atender o chamado de socorro da usina nuclear. A cena é ao mesmo tempo tocante e aterradora. A pele de Vasily está literalmente escurecendo e se desfazendo, e suas feridas são cobertas de pus. Mesmo assim, sua esposa ainda o conforta e toca nele, em uma demonstração emocionante de amor e fidelidade.

Esquadrão Suicida

Nos momentos finais do segundo episódio de Chernobyl, um grupo de corajosos voluntários entra nos túneis contaminados pela explosão do reator para drenar a água (que se entrasse em contato com os materiais no núcleo criaria uma espécie de lava e contaminaria boa parte da água potável da Europa) e impedir que o desastre se espalhasse mais ainda.

A cinematografia da série consegue deixar o momento ainda mais agoniante e claustrofóbico, utilizando apenas luzes fracas e piscantes para iluminar o cenário. O som dos medidores de radiação, cada vez mais alto, é o toque final de uma cena realmente assustadora.

A pior realidade sobre o desastre de Chernobyl é revelada logo depois: um desastre assim nunca havia acontecido na história da humanidade, e ninguém sabia realmente como lidar com suas consequências.

Para investigar as causas do desastre e avaliar métodos de contenção, Valery Legasov e Boris Scherbina chegam à Chernobyl. Os personagens de Jared Harris e Stellan Skarsgard encaram uma difícil realidade: eles mesmos morreriam anos depois, devido à problemas causados pela exposição indireta ao material radioativo.

É arrepiante pensar que a grande maioria dos personagens que ilustra a série (boa parte deles baseados em pessoas reais), morreriam devido aos reflexos do acidente. Alguns deles, teriam mortes terríveis, o que é mostrado perfeitamente no terceiro episódio.

A Guerra da Informação

Informação era uma das armas mais poderosas na União Soviética. E a manipulação da verdade pelo governo é um dos aspectos mais interessantes da série.

Ninguém sabe realmente o que acontecia por trás de portas fechadas nas reuniões sobre o destino de Chernobyl. Porém, o diretor Johan Renck consegue pintar uma imagem bem condizente com o que se sabe sobre as técnicas do governo comunista.

A dúvida sobre os verdadeiros motivos da explosão também assombra todas as tentativas de contê-la. Aparentemente, tudo estava em ordem no reator, e seu colapso foi completamente inesperado.

É importante lembrar que a União Soviética passava por um período difícil. Sobre o comando de Mikhail Gorbachev (interpretado por David Dencik na série), a superpotência começava um lento processo de abertura. Com o interesse em manter o mundo inteiro (especificamente os Estados Unido) fora de seus assuntos internos, o governo não divulgou o que havia acontecido em Pripyat.

Pessoas estavam morrendo, a água do continente estava prestes a ser contaminada, áreas enormes ficariam desabitadas, mas para o governo, a verdadeira preocupação era manter o desastre em segredo.

A situação fica pior ainda quando é revelado que a evacuação de Pripyat só foi realidade 36 horas após o acidente. O físico Legasov descreve as partículas saindo do reator como “pequenas balas”, com o poder de assassinar todos os habitantes da cidade ucraniana.

Ninguém entra ninguém sai

Antes da evacuação, as linha telefônicas de Pripyat foram cortadas, e ninguém poderia entrar na cidade ou deixar o território. Com um enorme número de civis deixados para trás, os arredores de Chernobyl viram cenário de um verdadeiro terror de sobrevivência.

A região que mais sofreu com os efeitos da radiação, conhecida hoje como Zona de Exclusão, já apareceu até mesmo em jogos como Call of Duty, devido à sua reputação sinistra.

Um dos aspectos mais elogiados da série Chernobyl é seu departamento de efeitos especiais e maquiagem.

No terceiro episódio, a preocupação dos produtores em mostrar a realidade nua e crua fica evidente. A câmera não hesita em mostrar um homem literalmente derretendo, com toda sua pele sendo reduzida a uma massa pálida e cheia de feridas.

Outro, tem a face completamente destruída pela radiação. No entanto, em uma decisão sensível, a série decide não mostrar o rosto do bombeiro.

Sacrifício

O desastre nuclear de Chernobyl se estabeleceu com o mais infame da história. Sempre que há outro acidente em usinas, lembramos dos trágicos eventos que se transcorreram em Pripyat.

Todos sabemos como a história termina, e os espectadores da série da HBO não estão interessados em uma “conclusão” da trama. Os efeitos da radiação são sentidos até hoje, e essa história nunca deve ter fim.

O que realmente transforma Chernobyl da HBO em uma obra prima são seus personagens. A emissora conseguiu dar rosto e voz para os corajosos soviéticos que sacrificaram suas vidas para impedir que a Europa toda virasse uma cemitério radioativo.

Os sacrifícios dos protagonistas, agindo até mesmo contra os interesses do governo, realmente mostra que em uma tragédia como essa, apenas o espírito humano pode apresentar um pingo de esperança.

A tragédia de Chernobyl aconteceu de verdade. E pode acontecer novamente. A história é feita de ciclos que se repetem. Humanos cometem erros, e milhares pagam com a vida.

Por isso é tão importante refletir sobre as lições aprendidas em desastres como o de Chernobyl, e se lembrar que vidas humanas sempre são mais importantes que interesses do Estado.