Todos sabíamos que Vingadores: Ultimato seria grande, mas acho que nem o mais otimista poderia prever o quão gigantesco seria. O filme da Marvel Studios foi lançado mundialmente no final do mês passado, e rapidamente já marcou seu lugar na história do cinema. Claro, o filme não é uma obra-prima, mas quebrou tabus e estabeleceu novos padrões na indústria que serão replicados e copiados por muito tempo.

Tudo começou com aquilo antes de Vingadores: Ultimato, e não me refiro inteiramente a Guerra Infinita. Nunca antes um filme dessa escala havia tido uma campanha de marketing tão sigilosa e sem grandes detalhes revelados: era um mistério completo. O título do filme foi segurado por muito tempo, gerando teorias e apostas sobre que revelação ele seria capaz de trazer, algo que os fãs queriam imediatamente após o final desolador de Guerra Infinita, que trazia o vilão Thanos triunfando em seu plano de dizimar metade da vida no Universo – essa própria brincadeira de revelar título do filme em trailer foi abraçada por outro esperado lançamento da Disney em 2019, com Star Wars: A Ascensão Skywalker se revelando ao mundo da mesma forma.

Pelo próprio final do filme anterior ser um spoiler, tudo era um segredo com Vingadores: Ultimato. O primeiro teaser trailer mal mostrava cenas empolgantes, focando apenas em reações dos personagens e o estabelecimento de uma atmosfera mais pesada e dramática – mas sem qualquer detalhe da trama, que foi trancafiada a sete chaves. Nenhum dos outros trailers ao menos trazia money shots, explosões ou grandes cenas de ação; nem ao menos o vilão Thanos ganhou uma participação expressiva no marketing, o que também servia para ocultar revelações da trama. Os trailers não mostraram nada, e isso foi o bastante para deixar o mundo inteiro ansioso.


Narrativa seriada

Quando falamos sobre narrativa, o que Vingadores: Ultimato faz aqui é algo que nenhuma outra franquia poderia fazer. Como é a continuação de outros 21 filmes, Anthony e Joe Russo têm a liberdade para brincar com diversas áreas dessa cronologia e linha do tempo, usando filmes antecessores como dispositivos de narrativa e colocando personagens famosos sem ter que explicá-los, tendo consciência de que o público geral assistiu à toda aquela década de filmes antes de chegar no grande evento que é Ultimato.

O modelo do Universo Compartilhado é algo no qual a Marvel Studios ainda é invicta. Claro, a Universal brincava com crossovers entre seus monstros clássicos na década de 30 e 40 de forma constante, mas era apenas um ensaio de pensamento do que Kevin Feige e sua máquina levaram adiante tantos anos depois. É um modelo que os próprios irmãos Russo afirmam que desafia a narrativa tradicional de 2 horas, e que se aproxima do formato seriado da televisão, com cada filme sendo um grande episódio – e Vingadores: Ultimato se apresenta claramente como um grande season finale, preparando a nova fase dos filmes da Marvel Studios para o futuro.

Quando Vingadores: Ultimato chega ao bombástico clímax que conta com a participação de praticamente todos os personagens, o efeito é contagiante pelo investimento. Se esse fosse o primeiro ou segundo filme de uma franquia, o impacto não seria o mesmo. É pelo espectador estar investido em uma narrativa de 11 anos que torna tão especia ver Pepper Potts de armadura, ou o Capitão América enfim proclamando o famoso bordão de “Avante, Vingadores!”, e que representa a culminação de uma saga.

Não só pelo épico de vermos todos os heróis juntos, mas também pela coragem e necessidade narrativa de matar o grande protagonista da franquia: o Homem de Ferro de Robert Downey Jr, garantindo uma recompensa emocional que – assim como a grande money shot – também só poderia ter sido alcançada com anos de investimento nas costas.

Um investimento que compensou não apenas no valor emocional, mas especialmente no financeiro. Vingadores: Ultimato se tornou a maior abertura de bilheteria de todos os tempos, quebrando a marca de US$300 milhões nos EUA e trazendo um total de US$1.2 bilhões em seu primeiro final de semana, um número insano que nenhum outro filme havia feito em tão pouco tempo. Enquanto este artigo é escrito, o filme da Marvel está a pouco mais de US$100 milhões de bater os US$2.748 bilhões de Avatar, a maior bilheteria de todos os tempos.

A mudança que Vingadores: Ultimato traz para o cinema americano é certamente comercial. É uma aula sobre como se fazer um marketing agressivo e misterioso, apostando na política anti-spoiler dos espectadores, e também favorecendo-se pelos outros 21 filmes que construíram seu universo por anos. É um filme diferente de qualquer outro que já foi feito, e ainda que imperfeito, é definitivamente um marco na indústria hollywoodiana.