Quando falamos sobre os diretores que passaram pelo universo cinematográfico da Marvel Studios, dois dos nomes mais importantes são os de Anthony e Joe Russo. A dupla dirigiu alguns dos filmes mais importantes da franquia, com Capitão América 2: O Soldado Invernal, Capitão América: Guerra Civil, Vingadores: Guerra Infinita e o gigantesco Vingadores: Ultimato, com todos estes trazendo ramificações importantes para o restante do universo da editora nos cinemas.

Porém, a dupla merece uma análise mais aprofundada. São bons diretores, mas trazem vícios estilísticos que se provaram nocivos para outros filmes da Marvel, e também para o cinema de ação no geral. 

Primeiramente, é importante lembrar como os Russos foram parar na Marvel. A dupla começou trabalhando com direção na TV, comandando episódios marcantes de comédias como Arrested Development e Community. Fãs de quadrinhos desde crianças, os dois contaram com a ajuda do cineasta Steven Soderbergh para entrar no radar da Marvel Studios e o presidente Kevin Feige, que acabou contratando a dupla para um projeto que na época era considerado “menor”: Capitão América 2: O Soldado Invernal, primeiro filme solo do herói de Chris Evans após o sucesso arrasador de Os Vingadores em 2012.


E o resultado foi chamativo na época. A direção dos Russos trouxe uma abordagem mais realista e violenta para o estilo de lutas, fortemente inspirado pela franquia de Jason Bourne. Isso ajudou a tornar o Capitão América uma figura mais “badass” e destemida, aproximando o cinema da Marvel a algo até mais próximo com O Cavaleiro das Trevas em termos de combate e fotografia – mas elevado com uma equipe de dublês e coreógrafos mais impressionantes. Dado o enfoque dos irmãos em séries de TV, o filme também gasta um bom tempo construindo e desenvolvendo relações entre seus personagens, o que funciona perfeitamente – assim como o equilíbrio entre humor e temas mais sóbrios. 

Visual e estética

Uma grande mudança também, e essa podemos sentir com mais peso nos outros filmes levando à Vingadores: Ultimato, é a fotografia. Os Russos e o diretor de fotografia Trent Opaloch disseram infinitas vezes que O Soldado Invernal seria um thriller político inspirado pelo cinema de espionagem dos anos 70. Uma comparação exagerada, mas que levou a equipe a trazer uma fotografia mais fria, dessaturada e que praticamente se livrou de todas as cores.

Os fãs podem reclamar da escuridão em alguns filmes da DC (uma crítica um tanto equivocada), mas O Soldado Invernal é um dos filmes de paleta mais chapada que o cinema de quadrinhos já viu – e essa técnica se estendeu para a maioria das cenas diurnas de Homem-Formiga e a Vespa, Thor: Ragnarok e principalmente Homem-Aranha: De Volta ao Lar, um dos filmes com visual mais sem graça do MCU. É quase como se os filmes não passassem pelo processo básico de correção de cor, algo que foi exacerbado após a passagem dos Russos pelo estúdio, com o segundo Guardiões da Galáxia de James Gunn sendo a exceção.

Do ponto de vista de direção, a dupla é ótima quando o assunto é combate corpo a corpo, justificando o motivo de sempre terem se dado melhor com o Capitão América – ou o ótimo plano sequência envolvendo Ronin em Vingadores: Ultimato, talvez a melhor cena de ação que já tenham dirigido. Porém, falta à dupla algo mais caprichado para o espetáculo. Sim, é incrível ver todos os heróis reunidos no clímax de Vingadores: Ultimato, mas acredito que isso só se dá pelo fato de que estão TODOS ali, e até mesmo uma selfie no Instagram garantiria o mesmo efeito. Não há grandes movimentos de câmera ou enquadramentos mais criativos para registar o momento, que surge bem pragmático do ponto de vista estético. Um bom exemplo recente de se organizar o épico com a estética está no Aquaman de James Wan; independente da opinião sobre o filme, não há como negar que é de uma maestria técnica impecável.

Cabeças flutuantes

Eis que chegamos a um dos grandes problemas que os Russos enfrentam: efeitos visuais. E não me refiro aos trabalhos impressionantes com o Thanos de Vingadores: Guerra Infinita ou o Professor Hulk de Vingadores: Ultimato, mas sim a alguns fatores que acabam ficando mais desleixados. As armaduras digitais são o grande pecado da dupla. Tanto o Homem de Ferro quanto o Aranha de Ferro contam com trajes digitais (e em Capitão América: Guerra Civil, até mesmo o Pantera Negra e Peter Parker), e o resultado é simplesmente artificial, rendendo o vergonhoso efeito onde a cabeça dos atores parece flutuar – é um problema mais grave nos filmes anteriores a Vingadores: Ultimato, onde parece que os Russos dedicaram um pouco mais de atenção, mas Guerra Infinita também peca pelas cenas em que Bruce Banner usa a Hulkbuster.

Os cenários digitais são outros problema, já que se tornam muito evidentes na maioria das cenas. Como a fotografia de Trent Opaloch também se dedica a luzes mais duras e sem muita variação de contraste, isso garante um visual “pobre” à maioria das cenas, vide o cinza chapado da batalha do aeroporto em Guerra Civil, a mediocridade de Wakanda em Guerra Infinita ou a péssima renderização digital da sequência do Gavião Arqueiro e Viúva Negra em Vormir em Vingadores: Ultimato.

A verdade é que os irmãos Russo são bons funcionários. É bem sabido que Kevin Feige não procura cineastas com marcas autorais fortes, geralmente optando por diretores saídos do mercado independente. Isso resulta em obras de pouco impacto visual, e os Russos se encaixam nessa categoria – mas certamente são competentes em entregar exatamente o que Feige e a grande parte do público quer ver.