É de se espantar como a boneca Annabelle se tornou um ícone do cinema contemporâneo tão rápido. Introduzida no primeiro filme de Invocação do Mal, ela superou sua “nave-mãe” e ganhou um terceiro capítulo antes mesmo do Casal Warren, que retornará no ano que vem com um longa dirigido por Michael Chaves (de A Maldição da Chorona). Até lá, felizmente o estreante Gary Dauberman mantém a franquia em ótima posição com o divertido Annabelle 3: De Volta para Casa, que se revela um perfeito sessão da tarde de Halloween.

A cronologia da franquia Invocação do Mal pode ser um pouco confusa, então é importante situar onde exatamente o novo filme se encaixa. O primeiro Annabelle foi ambientado em 1970, um ano antes de os Warren encontrarem a boneca com o grupo de enfermeiros. O segundo, A Criação do Mal, foi ambientado ainda antes, mostrando sua origem com um fabricante de brinquedos e um orfanato. Já este terceiro, é ambientado logo após os Warren ouvirem o relato das enfermeiras, relatando o momento em que o casal leva Annabelle para sua residência em Connecticut. 

A história então tem um salto de um ano, ambientando-se em 1972. Temos um enfoque maior agora na filha dos Warren, a pequena Judy (Mckenna Grace, de O Mundo Sombrio de Sabrina). Assim como sua mãe, Lorraine, ela é constantemente atormentada por visões e sensações sobrenaturais, e passará a noite com sua babá Mary Ellen (Madison Iseman) e sua amiga Daniela (Katie Sarife). Porém, quando a curiosa Daniela invade o porão dos Warren e encontra a sala de artefatos do casal – onde todos os objetos que foram usados em rituais ou aprisionam demônios – e ela acaba acidentalmente libertando Annabelle. Além do poderoso demônio preso na boneca, ela influencia outros objetos sinistros da sala dos Warren, dando início a uma noite de terror.


Diversão e terror

E é aí que Annabelle 3: De Volta para Casa cumpre sua proposta mais inusitada. Durante o anúncio do filme na Scare Diego do ano passado, o produtor James Wan anunciou que sua premissa para o novo derivado seria “Uma Noite no Museu com Annabelle”. Para quem não lembra, a trilogia infanto-juvenil de Ben Stiller colocava um segurança noturno de museu descobrindo que todas os objetos e estátuas do local ganham vida durante a noite. Temos situações muito divertidas e memoráveis, e voltadas para a comédia. Em Annabelle 3, o efeito nitidamente é voltado para o terror, mas curiosamente não abre mão de um fator mais divertido.

De Volta para Casa coloca diversos espíritos e objetos demoníacos dos Warren saindo para assombrar o trio protagonista, e o resultado é eficiente. Pelas mãos de Gary Dauberman, que era da roteirista da franquia e agora estreia na direção, temos uma aventura deliciosa e que parece uma versão sombria dos Goonies – afinal, todos os persongens são mais jovens do que o habitual na franquia – e a ambientação dentro de uma única locação torna a experiência mais intimista, ao contrário do megalomaníaco A Freira, que foi um desastre sem tamanho. Pode parecer loucura, mas até serve como uma versão assustadora de Scooby Doo 2: Monstros à Solta.

Neste novo capítulo, Wan e Dauberman trazem excelentes novas adições ao universo sinistro dos Warren. Além da própria Annabelle, temos um novo espírito batizado de A Noiva, cuja história envolve um vestido assombrado que torna seus usuários mais agressivos. Ainda nessa categoria, há o decrépito Barqueiro, que adapta uma figura da mitologia grega que transporta almas para o além em troca de moedas – colocando-as em seus olhos. Mas o grande atrativo para os conhecedores dos casos do Warren fica com o Cão Negro, espírito de um lobisomem que gerou uma das histórias mais tenebrosas do casal, onde um homem teria sido possuído pelo espírito de um “cão do inferno”.

Dauberman mostra-se um ótimo diretor, principalmente por evitar os maiores clichês do gênero de terror: jump scares. Fica claro que o cineasta tem paciência e um belo senso de atmosfera, gastando tempo ao construir o suspense de forma calma e que instiga o espectador. Diversas cenas aqui, nas mãos de diretores mais óbvios, acabariam em um susto barato e irritante, mas Dauberman se mostra mais interessado em criar o medo através da antecipação e o incômodo. Uma grande adição à franquia, e eu certamente queria que ele, e não Michael Chaves, tivesse sido o escolhido para dirigir o vindouro Invocação do Mal 3.

Annabelle 3: De Volta para Casa é um dos melhores filmes da franquia Invocação, e certamente o mais aproveitável dos derivados até agora. Espero que Gary Dauberman ganhe mais destaque na série de terror de agora em diante, e também que explore seu talento notável em outras produções do gênero. Se tivermos mais filmes como esse, a franquia ainda tem muita gasolina no tanque.