Em 2 de julho de 2004, chegava aos cinemas Homem-Aranha 2. O filme de Sam Raimi era a aguardada continuação do extremamente bem sucedido longa com Tobey Maguire, que solidificou a Marvel como uma marca a ser levada a sério em Hollywood, e também que histórias de super-heróis poderiam almejar a temas mais fortes no cinema. E, sendo bem sincero, nos 15 anos desde que Homem-Aranha 2 foi lançado, a Marvel – seja Studios, Sony ou Fox – nunca superou essa obra-prima monumental.

O que torna Homem-Aranha 2 superior a 95% de todos os filmes de super-herói é seu perfeito equilíbrio, como diria Thanos em Vingadores: Ultimato. Traz a ação, humor, romance e drama que o tornam uma obra especial. O grande diferencial, porém, fica com esse segundo elemento – e que a maioria dos filmes da Marvel praticamente se acovarda e evita trabalhar. Homem-Aranha 2 é, mais do que tudo, um grande filme de drama e estudo de personagem, que analisa a dificuldade de um homem em manter sua vida dupla como super-herói, enfrentando uma série de consequências do mundo real. É um filme sobre a maior das perguntas na dramaturgia: quem sou eu?

Em algo que talvez não seja exatamente fiel aos quadrinhos (e isso sinceramente não importa), o roteiro de Alvin Sargent imagina Peter Parker perdendo os poderes devido a uma crise de depressão. A melancolia é tão grande no herói que afeta não apenas seu emocional, mas suas habilidades aracnídeas – e sinceramente isso não soa inverossímil, pois estamos lidando com seu DNA.


É a oportunidade perfeita para que Sargent olhe para o Homem-Aranha como um grande objeto de estudo, e que analisa o peso da responsabilidade e das escolhas como nenhum outro longa da Marvel. Não pretendo ficar comparando este filme com outros do herói, mas é assustador como a versão de Tom Holland nem se preocupa em abordar esse lado mais trágico do Homem-Aranha; que em De Volta ao Lar e Longe de Casa não vai além de um arco de atender às expectativas de outro super-herói – no caso, o Homem de Ferro.

Um pacote completo

Não que Homem-Aranha 2 seja um filme mórbido e depressivo. É, na verdade, um dos mais divertidos do gênero. Felizmente, Sargent e a direção de Sam Raimi têm um timing cômico apertadíssimo e que nunca parece forçado (como acontece em 90% dos filmes do MCU). Por exemplo, as piadas sempre entram como extensão de alguma ação, vide a cena em que Peter precisa se balançar por Nova York para entregar pizzas (evidenciando como sua vida de herói constantemente se mistura com seus esforços profissionais) ou a maravilhosa cena em que o Homem-Aranha precisa usar o elevador após usar seus poderes – onde o humor está no mundano, e na “torta de climão” criada entre o herói e um morador do prédio.

E, finalmente, Homem-Aranha 2 é um grande espetáculo de ação. Sam Raimi já havia experimentado diversas técnicas interessantes para tornar o herói realidade no filme de 2002, mas o salto de qualidade aqui é assustador. E falando em terror, como não ajoelhar e beijar o televisor na cena em que os tentáculos do Doutor Octopus atacam os cirurgiões que tentam cortá-los no hospital? É o tipo de cena que quase ninguém tem coragem de fazer hoje em dia, e que demonstra qualidades de um autor dentro de um filme Blockbuster – respeitando também as origens de Raimi no terror trash de A Morte do Demônio, com Bruce Campbell. É um dos raros momentos de ousadia visual no gênero.

Quando chegamos à ação, Raimi abraça o espírito cartunesco para trazer o melhor dos confrontos entre o Homem-Aranha e Doutor Octopus. Graças a soluções visuais inspiradas, os tentáculos do vilão soam como uma ameaça real, e Alfred Molina é capaz de transmitir carisma e perigo através de uma perfomance com nuances. O grande confronto entre os dois, que se ocorre em um trem elevado em movimento, garante uma ação que nunca soa preguiçosa ou automática, explorando todas as possibilidades de seus cenários. O CGI certamente envelheceu um pouco, mas é tudo em serviço de uma cinematografia impecável.

Além do mais, a pancadaria entre os dois personagens no trem é sensacional, mas o grande trunfo vem depois. Quando Octopus quebra os freios, ele coloca o veículo em uma rota incontrolável para uma linha incompleta, garantindo um fim trágico. É quando o Homem-Aranha usa todo sopro de vida em seu corpo para parar o trem. Ele pode morrer e ser partido no meio, mas acreditamos na força de vontade e altruísmo de Parker – que abandona o luxo da identidade secreta e faz isso sem sua máscara. É uma cena belíssima, principalmente pela reação agradecida e emocionada do público, que percebe que foram salvas por alguém bem mais jovem do que o esperado. 

Já fazem 15 anos, e Homem-Aranha 2 parece ser imbatível. A Marvel Studios certamente faz coisas muito legais e impressionantes na franquia Vingadores, mas não importa quantos heróis e efeitos visuais sejam colocados em uma tomada. O que realmente importa é quão bem trabalhado seus personagens são, e o filme de Sam Raimi acerta em cheio em todas as áreas.

Um dos melhores filmes de super-heróis já feitos.