Contém spoilers de Stranger Things.

Um dos grandes motivos por trás do sucesso de Stranger Things certamente são as crianças no centro da narrativa. Infelizmente, esse é um fator que, invariavelmente, acabaria tendo de sofrer mudanças com o tempo.

Como bem apontou a Variety em seu artigo, não foi a Winona Ryder, primeira a ser creditada na série, que ganhou a atenção dos fãs e sim os atores mirins, que deram aquele toque de Conta Comigo e Os Goonies à série. Não podemos, claro, esquecer da química existente entre esses atores, incluindo a silenciosa Eleven.


Mas crianças crescem e deixam de ser crianças e isso poderia ser uma grande pedra no sapato de Stranger Things. A série poderia facilmente tentar repetir os acertos do passado, mas sem esse aspecto da infância, o que poderia fazer tudo cair por terra. Esse problema foi amplificado logo cedo, já que as temporadas de Stranger Things não são lançadas exatamente com um espaçamento de um ano entre elas.

Felizmente, Stranger Things soube dar a volta por cima.

Mudanças

Essa nova temporada não é mais a mesma série que estreou em 2016 e isso é algo bom, muito bom, aliás. O crescimento dos personagens centrais trouxe mudanças na sensibilidade e nas estruturas de Stranger Things, a renovando, ao passo que novas mensagens são passadas, mantendo a relevância da série.

A primeira e mais óbvia das mudanças feitas nessa temporada é a divisão do grupo principal. Dustin é separado de seus amigos de forma bastante orgânica. Ele vai para um acampamento de ciências e quando retorna, seus amigos demonstram estar mais preocupados com outras coisas. Ele acaba se juntando a Steve e Robin em uma missão para desvendar os segredos de uma transmissão secreta russa.

Por sinal, o retorno dessa ‘equipe’ rende algumas das melhores cenas da temporada e mostra claramente não só para Dustin, como para a audiência, que aqueles dias de infância acabaram.

Essa é uma temática que abrange todas as ‘ex-crianças’, agora adolescentes da série, o que fica bem claro com Mike e Eleven como casal, com os dois tendo dificuldade com o relacionamento, além da estranheza gerada pelos beijos dos dois (afinal, todos vimos ambos bem mais jovens).

Deixando o passado para trás

Will, no entanto, é quem deixa esse amadurecimento das crianças mais claro, visto que ele busca reviver aqueles dias de Dungeons and Dragons no porão de Mike. Desesperadamente ele tenta fazer seus amigos jogarem com ele, nada mais justo, considerando o tempo que ele ficou preso no Mundo Invertido ou afetado pelo Mind Flayer. Por sinal, ainda fica no ar a questão da sexualidade de Will: ele ainda não gosta de garotas por ser criança, ou porque é gay? Não é o foco do momento, mas a questão certamente foi deixada em aberto.

Esse amadurecimento dos garotos e garotas de Stranger Things ainda se encaixa perfeitamente com a evolução natural da trama geral da série. A escala vai se tornando maior e maior, ao passo que o Mindflayer certamente prova ser uma ameaça muito maior que o demogorgon (e os demodogs).

O importante disso tudo é como a série reconhece esse amadurecimento sem esquecer do seu passado. Ela retrata essa transição de forma orgânica, o que inevitavelmente faz com que nos aproximemos ainda mais dos personagens centrais. Com isso, Stranger Things entrega uma temporada que consegue superar as anteriores, ao ser ainda mais relevante, ao mesmo tempo que respeita seus personagens e a trama geral em que estão inseridos.