O remake de Brinquedo Assassino é muito melhor do que precisava ser

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Desde o começo, presumimos que era uma ideia ruim. Tudo o que era revelado e anunciado sobre o projeto também não eram os maiores argumentos para nos deixar empolgados. Em outras palavras, o remake de Brinquedo Assassino tinha tudo para ser ruim, seguindo a longa lista de slashers do terror que também enfrentaram o caminho da refilmagem: A Hora do Pesadelo, O Massacre da Serra Elétrica, Halloween (de Rob Zombie) e o infame Psicose servindo como notórios exemplos sobre como não fazer funcionar. E justamente por esse motivo, é uma grande e agradável surpresa testemunhar que o retorno de Chucky às telas é ótimo. Muito melhor do que precisava ser. 

O grande segredo para o sucesso deste novo Brinquedo Assassino está no elemento que se aplica aos bons remakes: ser diferente. O filme de Lars Klevberg praticamente criou uma história nova, aproveitando apenas o título e alguns personagens da obra original de 1988, e nesse processo trouxe a atualização perfeita. Brinquedos já não são mais tão marcantes como eram para a década de 80, e o filme acertadamente olha para o “brinquedo” que todas as gerações usam hoje: a tecnologia, seja ela em smartphones, aplicativos ou qualquer tipo de instrumento tecnológico que se destaca na sociedade do século XXI.

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Diversas críticas e análises apontaram que o novo Chucky funciona melhor até mesmo como um episódio de Black Mirror do que um terror slasher. E isso é meia verdade, contribuindo também para o sucesso da obra. Ao trazer Chucky como uma inteligência artificial, o novo Brinquedo Assassino está abordando temas como rastreamento, redes sociais e os perigos da dependência extrema em tecnologia para necessidades básicas – com a cena em que Chucky controla um “Uber” sendo um perfeito exemplo de um terror na sociedade contemporânea. Chucky também garante os pontos com o gênero slasher, já que as cenas de mortes aqui são caprichadas e com um nível de violência cartunesca que honra a classificação para maiores. Um slasher 2.0 é uma definição apropriada, e que ainda garante uma estética impecável graças à fotografia de Brendan Uegama.

Ótimos personagens

Mas além da estética, o novo Brinquedo Assassino realmente é bem sucedido em seu trabalho com os personagens. Pela primeira vez na história da franquia, temos um Andy que é carismático e que garante conexão com o público, e que também protagoniza uma narrativa mais interessante do que a do original: tem uma mãe jovem e seu principal conflito está ligado à dificuldade em se socializar com outras crianças de sua idade. Não que o roteiro de Tyler Burton Smith seja uma segunda vinda da arte dramática, mas é eficiente em criar relações básicas para manter nosso interesse – e que são bem sustentadas pelo ótimo elenco, com destaque para Gabriel Bateman, Aubrey Plaza e o sempre divertido Brian Tyree Henry.

O grande acerto, porém, está no próprio Chucky. Sim, o visual realmente ficou péssimo e bem menos memorável (e sinistro) do que aquele eternizado na franquia escrita por Don Mancini, mas o personagem de Chucky conta com ideias audaciosas. Sua origem como uma inteligência artificial é o tipo de mudança que mexe no núcleo da franquia e certamente irritou os fãs – eu mesmo, ainda que longe de um admirador de Brinquedo Assassino, julguei a ideia como equivocada no início. Essa decisão faz com que Chucky vá se corrompendo ao longo da narrativa, aprendendo a ser violento como um reflexo de sua observação de filmes e comportamento humano. É uma iniciativa complexa, e bem longe dos rituais de magia negra que iconizaram o original, e ainda garante um belo trabalho vocal de Mark Hamill.

Brinquedo Assassino é a grande surpresa de 2019. Tinha tudo para ser uma bomba, mas uma atualização sensata e uma execução sofisticada acabaram elevando o material; que acabou trazendo um resultado muito melhor do que o esperado.

Torço muito para continuações dessa cronologia, que desde já mostra-se infinitamente superior à original.

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