Portões do Paraíso: Explicamos o final de Era Uma Vez em Hollywood

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ATENÇÃO: Contém spoilers de Era Uma Vez em Hollywood

Era Uma Vez em Hollywood não traz o prefixo normalmente atribuído a contos de fadas por acaso. Não é  a primeira ocasião em que ele aparece na filmografia de Quentin Tarantino, afinal a sugestão de fantasia estava ali na abertura de Bastardos Inglórios, quando começou sua saga de Segunda Guerra Mundial com a frase “Era Uma Vez… Na França Ocupada pelas Nazistas”, e a completou com Adolf Hitler sendo metralhado brutalmente. Revisionismo histórico não é novidade para Tarantino, e seus fãs certamente esperavam isso para seu novo filme.

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Até porque, mais do que em Bastardos Inglórios, Tarantino lida com personalidades reais e bem conhecidas da cultura pop em Era Uma Vez em Hollywood. Principalmente a atriz Sharon Tate, que é um dos pontos centrais de seu novo filme, e que gerou preocupação geral; afinal, ultraviolência sempre foi uma das marcas de sua carreira, e a história de Tate terminou de forma sádica e chocante. Felizmente, Tarantino vai por uma direção oposta, e mais uma vez altera o curso da História para algo melhor, e que certamente todos desejariam que tivesse acontecido.

O terceiro ato de Era Uma Vez em Hollywood joga o espectador na fatídica noite de 8 de agosto de 1969, onde encontramos nossos personagens principais se estabelecendo à novas rotinas. Rick Dalton e seu dublê Cliff Booth retornam para Los Angeles depois de uma viagem para a Itália onde trabalharam em diversos novos filmes, enquanto Sharon Tate vai lidando com sua gravidez de seis meses ao lado de seus amigos – Jay Sebring, Abigail Folger, Voytek Frykowski e Steven Parent. É a mesma noite em que Charles Manson manda quatro de seus seguidores, Tex Watson, Linda Kasabian, Susan Atkins e Patricia Krenwinkel para cometer uma série de assassinatos para chocar Hollywood e criar uma áurea de medo na cidade. O alvo? A residência de Sharon Tate em Cielo Drive.

Mas a divergência começa quando uma das assassinas sugere que o grupo ataque a casa vizinha, onde mora o astro Rick Dalton; que minutos antes havia gritado com eles, exigindo que saiam de sua propriedade. O grupo então avança para a casa de Dalton, mas acabam encontrando um Cliff Booth viajando após fumar um cigarro de ácido, e que prepara o jantar de sua cachorra feroz, Brandy. Quando Tex as garotas tentam avançar contra Booth, ele violentamente da conta de dois deles. Brandy avança contra Tex e Leslie, enquanto ele esmaga a cabeça de Patricia nas paredes da casa – e dá um pisão na cara de Tex. Por fim, Leslie é morta quando Rick vê o confronto, queimando-a com seu lança-chamas, do filme Os 14 Punhos de McCluskey. Um típico final Tarantinesco de violência extrema e estilizada.

Salvando Sharon Tate

Após toda carnificina, Rick Dalton finalmente conhece sua vizinha, Sharon Tate, agora em segurança. Ela o convida para tomar uma bebida com seus amigos, e até cita alguns de seus trabalhos na TV, o que significa muito. Durante todo o filme, a jornada de Dalton foi a de um ator que caiu no esquecimento e luta para se tornar relevantemente novamente, enquanto Tate segue o extremo oposto: é uma jovem estrela que vai ganhando cada vez mais reconhecimento na indústria, e que na vida real foi tragicamente tirada de um caminho brilhante. Tarantino corrige duas injustiças aqui.

Em uma bela e simbólica tomada, os portões da casa de Tate são abertos para Dalton quase como se estivéssemos diante do Paraíso, já que o personagem alcançou sua catarse: é reconhecido, e tem aprovação. É o futuro (Tate) acolhendo o velho (Rick), o que garante um simbolismo melancólico e até belo que o diretor nunca havia explorado antes, e que de forma quase poética garante que Tate está viva – mesmo que nas telas de cinema e na Hollywood de contos de fada do diretor.

Através desse releitura histórica, Quentin Tarantino traz um novo sentido para Era Uma Vez em Hollywood. Ao manter Sharon Tate viva e longe da família Manson, ele garante que a voz “futura” do cinema segue viva em Hollywood, e também preserva a alma de Sharon Tate de maneira respeitosa e catártica. Se a premissa é de um Era Uma Vez, o final com certeza traz “e viveram felizes para sempre” em suas entrelinhas.

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