Vândalo Americano | Crítica – 2ª Temporada

Publicado em 14/09/2018 15:49
Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Uma verdadeira jóia esquecida pelo acervo da Netflix, Vândalo Americano retorna para sua segunda temporada com a difícil missão de manter sua inventividade, sem o apelo de sua proposta inusitada sendo explorada pela primeira vez. No ano anterior, a casualidade da trama era essencial para construir uma atmosfera sarcástica ao longo do documentário que Peter e Sam produziram em sua própria escola, tratando o crime em questão como se fosse um caso de cobertura nacional, e gerando um humor despretensioso. Nesta segunda temporada, no entanto, a dupla já carrega o peso de sua fama, e a série abraça esta consequência, colocando os personagens em posições mais adequadas para uma nova história.

Desta vez, Peter (Tyler Alvarez) e Sam (Griffin Gluck) abordam o crime com visões imparciais, uma vez que são tirados de seu ambiente comum (repleto de amigos e interpretações pessoais), e assumem a investigação em uma escola de classe alta desconhecida. Esta troca de cenário traz menos reviravoltas dramáticas para os protagonistas e pode acabar deixando a trama menos pessoal para o espectador, mas também oferece a oportunidade dos documentaristas exibirem sua evolução como personagens contínuos, mais seguros e concentrados, retratando a história com uma perspectiva muito mais semelhante às apresentadas nos reais documentários criminais em que a série se inspira. Parte do charme simplista da primeira temporada pode ter sido perdido, mas Vândalo Americano incorpora estas mudanças em suas ambições, e coloca seus personagens em um colégio de adolescentes ricos (e “um dos jogadores de basquete juvenil mais importantes do país”), onde a escala é significativamente maior e, consequentemente, as pessoas tentam, com ainda mais determinação, acobertar crimes para manter o “status quo” da comunidade.

Continua depois da publicidade

Carregando anúncio...

Não foi possível carregar anúncio

Parte do que torna Vândalo Americano, uma série tão relevante dentro do cenário atual, é o fato das tramas envolverem diversos aspectos da vida adolescente que ainda estão no processo de serem melhor trabalhados pela TV e pelo cinema. Nesta segunda temporada, Sam e Peter gastam boa parte de um episódio focados na maneira como o criminoso compõe suas mensagens no Instagram, analisando se suas figuras de linguagem e detalhes de sua escrita combinam com a de alguns alunos do colégio. A dupla ainda formula teorias válidas, baseadas em um mal-funcionamento do aplicativo que alterava certas letras de uma mensagem em um determinado período, supondo quais celulares poderiam ter sido usados pelo criminoso. Esta é apenas uma das várias maneiras criativas com que a série utiliza o cenário escolar para formar uma narrativa semelhante ao trabalho policial de produções documentais, e constantemente consegue replicar, com eficiência, parte da intriga que procura referenciar.

O formato seguido pela série, produzida como se fosse um documentário de verdade (até mesmo com os créditos de entrada fictícios), é executado com grande atenção à estrutura dos episódios e ao ritmo da narrativa. Seus oito episódios podem ser consumidos tanto em uma única exibição, quanto em porções separadas, sem perder sua fluidez e seu engajamento. E nesta segunda temporada, Vândalo Americano soube integrar muito bem o seu formato antológico com sua narrativa contínua, a fim de trazer de volta a dupla de documentaristas da primeira temporada, ao invés de criar um novo universo por completo. As duas temporadas podem ser assistidas separadamente sem problemas, mas a primeira pode ser vista, agora como uma espécie de história de origem para Sam e Peter, que se mostram menos voláteis (além de terem um orçamento maior para suas produções), e podem muito bem cobrir outros casos pelo país ao longo de novas temporadas, sem sacrificar o frescor e a originalidade necessária para novas tramas.

O que realmente torna Vândalo Americano tão aproveitável e divertida de se acompanhar, é o equilíbrio com que os roteiristas caminham uma linha tênue entre o acreditável e o absurdo. Inicialmente, a série ignora a banalidade aparente de seus tópicos, mas não se entrega à sátira sem restrições, compondo histórias que são perfeitamente críveis dentro de um ambiente adolescente, mas tratando-as com compromisso e justificando seu interesse para o espectador, à cada episódio. Seria fácil para os criadores, colocar os protagonistas em situações completamente inacreditáveis e buscar a atenção do público com tramas mirabolantes sendo investigadas por dois adolescentes, mas é ainda mais louvável ver como estes crimes, embora gradativamente absurdos, são construídos em torno de uma realidade palpável, com os personagens enfrentando obstáculos relevantes em suas próprias circunstâncias. Tornar o chato, o mundano, ou o ridículo, algo interessante, não é uma tarefa fácil, mas sempre que a TV ou o cinema são capazes de tal tarefa, o resultado costuma ser (como é por aqui) muito gratificante.

Não foram só as circunstâncias da trama que se viram elevadas nesta segunda temporada. Os roteiristas também se propuseram a passar uma mensagem mais pungente em seu texto, e baseiam as resoluções deste novo caso em elementos bem contemporâneos da nossa vida social (principalmente para os mais jovens). O criminoso se aproveitou da solidão de suas vítimas, e conseguiu devolver o ódio que enxergava nos outros à sua volta, utilizando a fraqueza daqueles que desprezava. Confiante de sua construção até aqui, a série adota um tom discursivo em sua reta final, e busca tirar algumas observações conscientizantes de seu trajeto neste novo ano, apontando a maneira como esta nova geração tem dificuldade em distinguir suas relações e aparências reais, das virtuais. Mais uma vez, Peter Maldonado continua dedicado a mostrar o melhor retrato da verdade que puder produzir, sem se esconder de reflexões desconfortáveis.

A segunda temporada de Vândalo Americano traz um desenvolvimento tão ágil quanto foi visto no ano anterior, porém menos envolvente. E busca ser ainda mais relevante, ainda que não tenha mais a mesma distinção. A série continua a ser extremamente válida para diversos públicos ao mesmo tempo, exibindo seu lado cômico com a perspectiva adolescente, e seus atributos dramáticos com narrativas bem orquestradas. Em uma terceira temporada, será ainda mais difícil para os criadores manterem a sensação revigorante que a série prezou até então, mas se continuarem a trabalhar a consciência deste universo, e seus reflexos do mundo real, podemos ter um caminho muito interesse nos anos seguintes.

Publicidade

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Em Alta

Carregando...

Erro ao carregar conteúdo.

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio

Carregando...

Não foi possível carregar anúncio