Olhar Geek #10 | Caça-Fantasmas, Margot Robbie e o inferno de ser mulher em Hollywood

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Bem-vindos de volta à Olhar Geek. Nesta quinta-feira (14), chega finalmente aos cinemas a nova encarnação da franquia Caça-Fantasmas, depois de uma trajetória de supernova que incluiu recordes nada lisonjeiros (o de trailer mais odiado do Youtube, por exemplo) e muito espaço para reflexão sobre o papel da misoginia na indústria hollywoodiana e na reação a esse filme em específico.

A Olhar Geek já falou disso uma vez, lá em maio (veja aqui), e a ideia aqui não é repetir aquela discussão – já falamos o bastante sobre machismo no universo nerd, e o porquê dele ainda ser um problema. Conforme nos aproximamos da estreia do filme, no entanto, mais evidências desse problema que tantos insistem em negar vão surgindo. A recepção crítica ao Caça-Fantasmas de Paul Feig, Melissa McCarthy e companhia tem sido majoritariamente positiva – com média de 62/100 no Metacritic e porcentagem de 76% de aprovação no Rotten Tomatoes, o filme mantem o nível da parceria Feig/McCarthy, que rendeu Missão Madrinha de Casamento, As Bem-Armadas e A Espiã Que Sabia de Menos.

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Crítica | Caça-Fantasmas

Enquanto isso, no IMDb, onde a imensa maioria dos usuários não são críticos de cinema e, portanto, não puderam ver o filme ainda, a média é de 3,7/10 com 7.617 votos do público. Dando uma olhada embaixo do capô, nas estatísticas providas pelo site, 4.891 desses votos foram dados por usuários declaradamente do sexo masculino – na média deles, o filme sai com 3,4/10. Já nos 613 votos femininos, o filme ficou com 6,7/10. Tem algo errado aí, não?

https://www.youtube.com/watch?v=ALogB8K9U_8

A discrepância aparece clara também em outros filmes criticados com argumentos misóginos, como o documentário Miss Representation (2011), que cutuca a tendência da mídia de retratar mulheres de forma ultra-sexualizada e nada empoderada. Com 2.399 votos no IMDb, o filme recebeu média 6,9/10 dos moços, e média 8,2/10 das moças. Na faixa dos espectadores abaixo dos 18 anos, a diferença é mais gritante – 3,5/10 para os meninos, 8,6/10 para as meninas.

No mesmo Miss Representation, a atriz Geena Davis (Thelma & Louise), que comanda uma organização que vigia a representação feminina em Hollywood, diz que a terra do cinema é construída em cima de uma suposição: a de que espectadoras femininas são capazes de apreciar e pagar por histórias de personagens masculinos, mas espectadores masculinos não se interessam por histórias de personagens femininas. Nessa lógica (cada vez mais provada como falha), Hollywood acaba se tornando uma indústria de produção artística que mira apenas no público masculino – e o público masculino, mal-acostumado com esses e outros privilégios, se revolta quando as coisas começam a mudar.

Caça-Fantasmas é uma de muitas facetas claramente visíveis de um sistema machista que não se limita às reações a um filme. Só na última semana, uma dupla de casos específicos envolvendo Margot Robbie e Renée Zellweger mostrou que, nada surpreendentemente, a indústria controlada por executivos homens e feita sob medida para espectadores homens não poupa suas atrizes de uma cultura que ou as objetifica, ou as torna descartáveis.

Margot Robbie para a Vanity Fair de julho de 2016

Síndrome de Peter Pan

Antes de começar a entrar na discussão dos casos de Margot Robbie e Renée Zellweger, no entanto, vale lembrar que o discurso nas próximas linhas não é exatamente meu. Não digo isso para me remover da opinião expressa aqui, mas para sublinhar que, como um jornalista homem em um mundo que me deu mais oportunidades que qualquer jornalista mulher, só posso ler, refletir e reproduzir discursos de gente como Rose McGowan (aqui) e Christina Cauterucci (aqui) num esforço para que esse tipo de pensamento em profundidade chegue ao círculo de pensamento brasileiro e aos leitores do Observatório do Cinema.

A capa da Vanity Fair de julho de 2016 é dedicada à Margot Robbie, o que faz muito sentido. Com Esquadrão Suicida prestes a estrear, a atriz australiana de 26 anos é uma das principais estrelas do momento. Além de ser uma atriz respeitável, como qualquer um que tenha visto o indie Os Últimos na Terra (2015) pode atestar, Robbie é lindíssima e representa uma história de ascensão e sucesso que não pode ser ignorada pela imprensa de entretenimento. Margot Robbie merece a capa da Vanity Fair – ela só não merece o conteúdo da matéria que a perfila.

Para conferir por si mesmo, vale dar uma olhada depois aqui. Escrito pelo veterano jornalista Rich Cohen, o texto demora-se por parágrafos descrevendo a beleza de Robbie em termos sinceramente nojentos, embora disfarçados de sofisticados, muito antes de nos introduzir a qualquer uma de suas conquistas na curta, porém impressionante, carreira. Quase nada sobre as habilidades de atuação da moça, também, é dito no artigo – de forma previsível e ainda assim revoltante, a adorável, talentosa e, sim, bela Robbie é reduzida a seus atributos físicos, à nova “garota da casa ao lado” de Hollywood, essa terra de eternos adolescentes com binóculos observando a vizinha trocar de roupa.

O abdômen de Alexander Skarsgard quase faz de Tarzan um filme erótico

Moore tem um histórico nesse sentido. Chamado por um dos tweets de resposta à sua matéria de “o tio nojento das mulheres dos EUA”, ele escreveu um perfil sobre Alicia Silverstone, então com 18 anos, em que dedicava um longo parágrafo ao motivo pelo qual a boca da atriz era tão sedutora. Outra usuária do Twitter respondeu ao artigo mais recente do jornalista com a metáfora perfeita: “É como se todas as edições da Vanity Fair desse mês viessem com uma fina camada do sêmen de Rich Cohen juntando as páginas do perfil de Margot Robbie”.

O valor jornalístico da matéria de Cohen só não é nulo porque ela serve como espelho de uma mídia que joga o jogo de Hollywood no sentido de diminuir e objetificar as mulheres que entram no jogo competitivo da indústria. Você nunca vai encontrar um perfil de Alexander Skarsgard, o co-protagonista de Robbie em A Lenda de Tarzan, em que parágrafos inteiros são dedicados para descrever a beleza germânica (bom, sueca) do ator, ou em que seu abdômen trincado é comparado com os rochedos de uma obra de J.W. Turner, ou qualquer besteira do tipo. Vale notar que os dois papeis mais destacados de Skarsgard até hoje na carreira foram largamente apoiados em seu poderio físico.

Há uma óbvia desigualdade aí, que muito logicamente se origina tanto quanto dá origem ao problema da sensualização exagerada da maioria dos papeis femininos na TV e no cinema. A partir do momento em que estamos em uma cultura de objetificação da mulher, a atriz se torna descartável. Quando estrelas ganham espaço por seu talento, nossa reação imediata é uma de crítica: dizemos-nos cansados de Jennifer Lawrence, de Anne Hathaway, de Melissa McCarthy. Seja pela atitude, pela aparência ou pelos papeis que escolhem, elas se recusam e deixar com que pensemos nelas apenas como rostinhos bonitos, e no caso das mulheres em Hollywood isso é visto com negatividade, ao contrário dos rapazes.

Renée Zellweger no trailer de O Bebê de Bridget Jones

Leave Renée Alone!

Outro caso especialmente doloroso que fala alto sobre ainda outra característica do machismo dentro da indústria é o de Renée Zellweger. Em um recente artigo da Variety, o jornalista Owen Gleibermann reflete sobre as alegadas cirurgias plásticas da atriz e se pergunta se, quando O Bebê de Bridget Jones estrear, o rosto diferente de Renée irá afetar a forma como ele vê a personagem. O título do artigo coloca uma questão que por si só é ultrajante – em tradução livre: “Renée Zellweger: Se ela não se parece mais consigo mesma, será que ela se tornou uma atriz diferente?”.

A resposta só pode ser uma: é óbvio que não. Durante seu artigo, Gleibermann defende seu questionamento dizendo que a presença de tela de Zellweger sempre teve muito a ver com sua fisionomia – as bochechas mais cheias, a boca pequena e os olhos sempre apertados, como se inquisitivos. Gleibermann cita a revelação de Zellweger em Jerry Maguire (1996) como um contraste direto com seu par no filme, Tom Cruise, dizendo que os americanos se apaixonaram por Zellweger porque ela era “uma mulher normal” que completava um astro de cinema que, de normal, não tinha nada.

O que Gleibermann falha em ver é que o charme e o talento de Zellweger nada tem a ver com sua aparência. Se ela conquistou Tom Cruise e o resto do mundo em Jerry Maguire e nos convenceu de que, mesmo sendo uma estrela de cinema, era apenas uma de nós (o que é tremendamente positivo, diga-se de passagem), é porque sua comunicação com o público é impecável, e sua sensibilidade ao encarnar seus personagens e trazê-los para a terra, ainda mais. Roxie Hart (de Chicago) não é só uma “garota da casa ao lado”, mas Zellweger lhe empresta vida, emoção, alegria e tragédia. Embora não houvesse nada (nada!) de errado com as feições de Zellweger, seu sucesso com o público tem a ver com a tremenda atriz que ela é.

Quando Zellweger apareceu com seu “novo rosto”, após quatro anos fora do olhar público, as reações foram tão grotescas quanto os comentários que ela costumava receber de membros do público que não ficaram tão encantados pelas feições “estranhas” da atriz depois de Jerry Maguire. Será que é tão surpreendente que uma mulher em Hollywood tenha feito cirurgia plástica para mudar seu rosto quando éramos tão cruéis com o rosto que ela tinha antes? Será que é surpreendente que qualquer mulher em Hollywood procure plástica quando a indústria continua na ditadura da juventude e da beleza padrão (que é a jovem)?

Quando pausou sua carreira, em 2010, os papeis estavam secando para Renée, que acabava de passar pela marca dos 40 anos. É um padrão familiar e terrível, que se abateu sobre gente como Meg Ryan, que foi a queridinha da América por décadas antes de cair no esquecimento e finalmente largar a atuação de vez, aos 48, após Armadilhas do Amor (2009). Rolou também com Patricia Arquette, que após época de estrelato nos anos 90, antes dos 30, também viu os papeis secarem – recorreu a TV e reapareceu para vencer o Oscar por Boyhood, mas nem isso parece ter reascendido o interesse de Hollywood por ela.

Até Meryl Streep, citada por todos como exemplo para argumentar que Hollywood não carrega esse preconceito, encontrou um momento de lentidão na carreira durante os anos 90, com poucas atuações dignas de nota. Ela, Helen Mirren, Melissa Leo, Judi Dench e algumas outras seletas atrizes são permitidas de “envelhecer com dignidade”, largamente porque nunca foram cooptadas pela máquina de fazer “beldades do momento” de Hollywood. À Renée Zellweger é negada a possibilidade de seguir com uma carreira saudável e lucrativa sem uma juventude artificial, e mesmo assim a condenamos quando ela busca pela mesma.

Ser mulher em Hollywood é uma escolha impossível entre duas opções terríveis. As críticas cruéis à Caça-Fantasmas são apenas a mais recente manifestação disso, e é importante notar que a situação é sintomática da que vemos em outras áreas, no mundo inteiro. Está longe de estar tudo bem, e ainda temos um longo (senão interminável) caminho a percorrer.

A Olhar Geek volta na semana que vem, no dia 19.

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