As últimas semanas no campo da televisão foram dominadas pelos painéis do TCA, a convenção de críticos de TV americanos, que sempre traz anúncios importantes e prévias de grandes títulos da próxima temporada. Um dos momentos mais explosivos do evento, como de costume, foi o painel da HBO, onde o diretor de programação recém-contratado da emissora, Casey Bloys, teve que responder uma multiplicidade de perguntas sobre um mesmo assunto: a HBO, e especialmente Game of Thrones, está mostrando estupros demais em tela?

Não é uma polêmica nova. Game of Thrones tem enfrentado acusações de banalização e até romantização do estupro desde sua concepção, com a cena na primeira temporada em que vemos Daenerys ser tomada á força por Khal Drogo, um par de personagens que a série mais tarde envolveu em um romance que muitos fãs lembram com um carinho incompatível à realidade da situação. Mais tarde, Cersei foi estuprada pelo irmão Jaime durante o velório do filho dos dois, Joffrey, em uma cena que não só pareceu completamente desnecessária e não acrescentou nada à personagem de Lena Headey, como atrasou e efetivamente “deu marcha ré” no desenvolvimento do próprio Jaime.

Daenerys Targaryen (Emilia Clarke), Cersei Lannister (Lena Headey) e Sansa Stark (Sophie Turner)
Daenerys Targaryen (Emilia Clarke), Cersei Lannister (Lena Headey) e Sansa Stark (Sophie Turner)

Na quinta temporada, foi a vez de Sansa Stark, que na tentativa de recuperar a fortaleza ancestral de sua família, agora dominada por cruéis usurpadores, acabou se casando com o sádico Ramsay Bolton (Iwan Rheon), que consumou à força o matrimônio na noite de núpcias. O uso de estupro em Game of Thrones como forma de expressão da dominação masculina sobre a mulher na sociedade fantasiosa retratada pela série não é exatamente questionável – é uma escolha narrativa que talvez seja muito mais frequente do que deveria ser na construção de sagas de fantasia como essas, que reflete a sociedade muito real em que vivemos de forma radicalizada, mas que quase nunca trata a trama de abuso sexual sob um ponto de vista que também reflita a realidade emocional das mulheres que passam por isso no nosso mundo.


Ficção como discurso social sempre é um conceito que a Fala Série! quer frisar, e portanto é preciso pensar não só se o estupro faz sentido dentro da trama de Game of Thrones, mas se o efeito da forma específica como ele é tratado na trama da HBO é positivo na sociedade que a assiste, a discute, a pensa, e é decisivamente influenciada por ela. Game of Thrones sempre foi essencialmente uma história sobre violência, e usou essa prerrogativa para “forçar a barra” em relação ao que é brutal ou permitido mostrar na televisão – no entanto, como autores da série mais popular do planeta, David Benioff e D.B. Weiss não podem e não devem esperar estar acima de qualquer crítica.

Personagem é estuprada em cena de Westworld
Personagem é estuprada em cena de Westworld

Violência por violência

A discussão no TCA da HBO resvalou também em Westworld, nova série que deve estrear em breve na emissora, baseada no filme de 1976 de Michael Crichton sobre um “parque de diversões” do futuro onde os visitantes podem viver a vida como um caubói do faroeste – sendo que a maioria dos outros habitantes e funcionários são apenas robôs. Uma dessas androides é vista sofrendo abuso na (literalmente) primeira cena do piloto – construída para atender aos desejos dos homens, a robô é tomada a força por um visitante do parque, em cena violenta.

E sim, Westworld, assim como Game of Thrones, tem algo a dizer com essa violência. E é aqui que entra a parte desse artigo em que este que vos fala teve que passar por um processo de aprendizagem: ter algo a dizer não justifica ou valida, automaticamente, a violência que os artistas (roteiristas, diretores, produtores, atores) colocam em tela. Não é só preciso motivo para começar a discussão e colocar o estupro na televisão, mas também cuidado e consciência na hora de contar a história do que acontece depois dele.

Para abrir meus olhos sobre isso, conversei com duas amigas que foram pacientes o bastante para falar sobre o assunto – a Martha Raquel Rodrigues, de São Paulo, e a Rafaela Camargo, de Minas Gerais. “Por que para se tornar forte, uma personagem feminina precisa sofrer algum tipo de abuso? Por que ela não pode ser forte desde o início? É ridículo como o estupro é usado como ‘motivação’ para personagens femininas de uma forma absurdamente frequente”, questionou a Rafaela na resposta de uma das minhas perguntas, o que por sua vez já estalou uma faísca de reconhecimento na minha cabeça.

Uma das repostas prontas de Casey Bloys, chefão da HBO, no painel da emissora no TCA, foi que homens nas séries da emissora são vítimas de violência tão frequentemente quanto as moças, o que de um olhar distante, sem comprovação estatística nenhuma, parece justo de se dizer. Bloys se complicou, no entanto, quando um repórter retrucou perguntando por que, então, os homens nunca eram vítimas de estupro.

“Se o estupro é um meio tão bom de dar força para um personagem, por que os homens não são estuprados com tanta frequência na ficção? E se existem tantas formas de dar força para o personagem masculino, por que o estupro é tão frequentemente usado como motivação nas personagens femininas?”, me questionou a Rafaela, e ela está absolutamente certa. Algo cheira muito mal na justificativa de que “todo mundo sofre com violência nas nossas séries” quando as mulheres são virtualmente as únicas a sofrerem violência sexual.

Essa disparidade foi assinalada pela Martha de forma ainda mais enfática: “Essa diferença é completamente significativa. Os tipos de abusos sofridos são diferentes. A mulher sofre abuso físico, psicológico, patrimonial, sexual e moral, todos eles descritos na Lei Maria da Penha – olha que curioso. Essas ‘mulheres fortes’ [que nascem das histórias de abuso] ainda continuam sendo vítimas da sociedade como um todo. A estrutura é machista e misógina, independente de comportamentos individuais”. E o problema, assim como todos os que a gente aborda aqui na Fala Série!, é que esse abuso e esse desequilíbrio de forma alguma fica só no plano da ficção.

A Martha cita um exemplo que não é nem de TV, mas vale colocar aqui: o filme Azul é a Cor Mais Quente, que levou a Palma de Ouro em Cannes 2013, e retrata o relacionamento lésbico entre as personagens de Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos. O filme do diretor Abdellatif Kechiche não retrata uma situação de abuso, mas as atrizes viveram uma nos bastidores, durante as filmagens de uma longa e gráfica cena de sexo em que o envolvimento íntimo das personagens é explorado pelo diretor em “ângulos completamente consumíveis para o público masculino”, conforme colocou a Martha. As circunstâncias abusivas dos bastidores das filmagens são bem documentadas e admitidas pelas atrizes, e ainda assim há uma romantização inexplicável da situação das duas e de suas personagens, envolvidas em um relacionamento estereotipado e fetichizado.

Parece fugir do ponto falar sobre isso aqui, mas não é. Uma situação (a banalização e mau desenvolvimento da história de estupro na TV) reflete e permite a outra (o abuso na frente e atrás das câmeras de um relacionamento entre duas mulheres). Como de costume na cultura do século XXI, as conexões estão todas ali – basta querer enxerga-las.


David Tennant e Krysten Ritten em Jessica Jones
David Tennant e Krysten Ritten em Jessica Jones

As alternativas

Em Jessica Jones, Krysten Ritter interpreta a titular heroína da Marvel, uma detetive urbana dotada de super força que, quando a conhecemos, está finalmente se libertando de uma relação abusiva com o vilão Killgrave (David Tennant), cujo poder é controlar mentalmente outras pessoas. Quem me apontou para a série da Marvel/Netflix como um exemplo interessante e alternativo de retratar o abuso foi a Rafaela, que elogiou a obstinação da série e mostrar a visão da vítima e as reais cicatrizes emocionais e físicas que o abuso deixou – o relacionamento de Jessica com Killgrave pode até tê-la feito mais forte, numa análise preguiçosa e incompleta, mas a série endereçou as muitas formas como ele destruiu sua vida, sua humanidade, e sua dignidade também.

“A série não retrata só o relacionamento abusivo da protagonista, mas mostra diferentes tipos de abuso, seja do Killgrave com outras personagens, ou a relação abusiva que os vizinhos da Jessica, que são irmãos, vivem. Nessa série, a gente vê o outro lado da moeda, enxerga com os olhos da vítima, e isso faz com que a gente entenda que existem sim inúmeras formas de abuso e que infelizmente ninguém está livre de sofrer com esse tipo de coisa. É uma história que abre os olhos e conscientiza”, contou a Rafaela, fazendo uma oposição direta à forma como Game of Thrones trata tramas parecidas, que servem mais como gatilhos de plot do que como forma de contar histórias honestas sobre suas personagens.

Lendo a resposta da Rafaela, me lembrei de Reign, da CW (sim, da CW), que na segunda temporada mostrou a protagonista Mary, Rainha da Escócia (a fabulosa Adelaide Kane) sofrendo abuso nas mãos de soldados opositores de seu marido, o Rei Francis (Toby Regbo). A série não só lidou com a medonha cena do estupro com a quantidade certa de coragem e restrição, como partiu para os episódios seguintes mostrando uma Mary machucada, frágil, com vários relacionamentos da sua vida (com o marido, com as amigas e confidentes, com a ambiciosa sogra, Catarina de Medici) inequivocamente mudados pelo que aconteceu.

Adelaide Kane como Mary em Reign

Adelaide Kane como Mary em Reign

Reign, em sua narrativa que favorece às vezes o drama novelesco e o romance, se permitiu tempo para respirar e de fato contar a história de sofrimento, dificuldade e, sim, eventualmente resiliência e superação, dessa mulher. Game of Thrones, uma interminável máquina de produção de trama, com mil personagens e mais 30 locações para acompanhar, não deu o mesmo luxo à Sansa, Cersei e Daenerys. “Uma mulher que foi estuprada não ganha nenhum tipo de força após sofrer esse abuso, muito pelo contrário. Ela vai ter que lidar com os machucados físicos e psicológicos, com o trauma, com o sentimento de culpa, com a falta de empatia das outras pessoas, com a frequente falta de amparo, com a muito possível impunidade do agressor. Essa coisa do estupro servir de motivação é só mais uma maneira de banalizar”, me lembrou a Rafaela.

“Acredito que um caminho para começar a mudar isso, pois é um longo processo, é dar às mulheres a importância que elas merecem nas narrativas. Personagens principais, independentes amorosamente e financeiramente. É difícil pensar em uma série em que a mulher seja retratada dessa maneira”, comentou a Martha, citando em seguida Orphan Black, aquela das muitas clones da Tatiana Maslany, como um exemplo. Enquanto Sarah Manning, a proverbial protagonista, mostra sua independência em momentos de rebeldia e em sua fundamental iniciativa individual, a dona de casa Alison Hendrix segue na vida doméstica com um marido que cada vez mais parece peso morto na vida da esposa.

Orphan Black sempre foi essencialmente sobre o castelo de cartas que é a vida dessas personagens, e a forma específica como cada um é construído (e cada um pode desmoronar). A devoção de Alison a sua família e a uma sensação de normalidade é parte dessa construção de personagem, uma sátira de certa forma sobre a vida acomodada da classe média americana, mesmo que Orphan Black não deixe que a piada seja à custa da personagem. No entanto, prestes a acabar no quinto ano, parece que a série da BBC America não está comprometida com o crescimento e evolução de personagem de Alison, cada vez mais confortável em seu lugar de alívio cômico.

Melissa Rosenberg e Krysten Ritter, showrunner e estrela de Jessica Jones

Melissa Rosenberg e Krysten Ritter, showrunner e estrela de Jessica Jones

Precisamos falar sobre estupro

Uma pergunta rápida: qual é a diferença mais fundamental entre Game of Thrones e as duas séries que citamos acima, Jessica Jones e Reign? Se você respondeu “showrunners e roteiristas mulheres”, acertou. Jessica Jones é conduzida por Melissa Rosenberg, três vezes indicada ao Emmy pelo trabalho em Dexter, da Showtime; Reign é produto da parceria entre Laurie McCarthy e Stephanie Sengupta, que trabalharam juntas antes em Ghost Whisperer.

Dos 60 episódios de Game of Thrones, 4 tiveram créditos de mulheres no roteiro. Dos 13 de Jessica Jones, 8 foram assinados ou co-assinados por mulheres. Dos 62 de Reign exibidos até hoje, nada menos que 50 tiveram roteiristas mulheres nos créditos. É uma diferença espetacular que significa muito mais do que meros números podem mostrar – a discussão da representatividade feminina nos bastidores de Hollywood, e não só na frente das câmeras, de repente se torna mais do que uma questão de igualdade trabalhista; é uma de representatividade e qualidade narrativa sobre personagens femininas.

Apontar isso, aliás, não significa vilanizar David Benioff e D.B. Weiss, ou quaisquer roteiristas homens de Hollywood, diga-se de passagem. “Existe um processo chamado socialização pelo qual todos os homens e mulheres passam, independente de suas vontades particulares. Somos moldados conforme os interesses dessa sociedade patriarcal, machista e misógina, e somos ensinados sobre quais são os papeis dos homens e das mulheres nas mais diversas relações e lugares. Dito isso, friso a diferença entre as percepções de um e de outro, e assim, consequentemente, os reflexos que isso traz para o trabalho de cada um – mais mulheres roteiristas tratariam as mulheres dentro das séries de forma totalmente diferente, pois não seríamos mais o segundo sexo”, resumiu a Martha.

A importância da representação da visão feminina dentro da produção de TV é central para esse debate porque o ponto aqui não é, de forma alguma, que as mídias parem de retratar histórias de abuso. Pelo contrário, precisamos urgentemente falar sobre estupro – é um problema sistêmico e arraigado nas entranhas mais feias da nossa sociedade, e é absolutamente fundamental que a ficção o reflita.

Taryn Manning em Orange is the New Black
Taryn Manning em Orange is the New Black

Historicamente, questões que não são abordadas pela ficção (especialmente a televisiva) raramente são levantadas em foro público e, portanto, podem provocar discussões que tragam avanços sociais relacionados a elas. Nós precisamos de políticas melhores de proteção à mulher e uma mudança cultural e educacional quanto à forma como vemos a presença dela na sociedade – para isso, humaniza-las e contar suas histórias na ficção é de suprema importância.

É aí que chegamos àquela questão fundamental que já colocamos lá em cima, no título do artigo: Game of Thrones e a HBO não estão mostrando estupro demais – estão mostrando errado, e talvez isso seja ainda pior. Em uma de suas respostas para mim, a Rafaela indicou um artigo da jornalista Jada Yuan, refletindo estupros em Orange is the New Black da Netflix, que estabelecia uma espécie de teste para identificar a validade e a responsabilidade de uma história de abuso sexual na TV (ou no cinema, diga-se de passagem).

Você pode conferir o artigo completo da jornalista do site Vulture aqui, mas tudo acaba se resumindo a três perguntas simples que Yuan chamou de “o teste de Pennsatucky”, em homenagem à personagem de Orange is the New Black – que também tem showrunner mulher, diga-se de passagem.

1) O ponto de vista da vítima é mostrado?
2) A cena tem razão para existir para a personagem, e não só para a trama?
3) O impacto emocional do abuso é mostrado?

Se qualquer uma dessas perguntas for respondida com um sonoro “não”, e pelo menos algumas das cenas de Game of Thrones certamente podem ser, é totalmente argumentável que a série em questão está lidando com o abuso de maneira irresponsável, e provavelmente fazendo mais mal que bem. Westworld ainda não estreou, portanto não sabemos de que forma as perguntinhas aí em cima serão respondidas pela série, que afinal tem uma co-showrunner feminina (Lisa Joy Nolan), mas vale a pena ficar de olho. A Fala Série! certamente ficará – dormir no ponto não é nada aconselhável quando há tanto trabalho a se fazer ainda.

A Fala Série! retorna no dia 20/09.