OMG! #8 | Harry Potter fez muito ou muito pouco pela comunidade LGBT?

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É difícil falar sobre Harry Potter com a minha geração. Para exemplificar por que, vou contar a minha própria história com a saga. Em 2003, aos 7 anos de idade, peguei pela primeira vez o livro Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban para ler – já havia visto os dois filmes anteriores, e saber o que acontecia a seguir antes de ver o terceiro era algo que atiçou minha curiosidade. Sempre fui adepto da leitura, mas meu primeiro livro de mais de 300 páginas foi Harry Potter.

Antes de ir ao cinema assistir Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, no ano seguinte, eu li o livro oito vezes. Não é hipérbole, porque eu me lembro exatamente quantas vezes foram. E lembro também quando o reli, junto a todos os outros, anos depois, logo após o lançamento de As Relíquias da Morte nas livrarias. Faz nove anos desde que as palavras “tudo estava bem” concluíram uma jornada de amadurecimento que me levou da infância à adolescência e, com o lançamento dos filmes, até o finalzinho dela (tinha 17 anos quando fui ver Relíquias da Morte – Parte 2 nos cinemas).

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De uma forma que é muito distinta da minha geração, portanto, eu cresci com Harry Potter, Hermione Granger, Rony Weasley, Luna Lovegood, Remo Lupin (que sempre foi meu personagem favorito), etc. O ponto, no entanto, não é só que eu cresci com eles. Eu aprendi com eles – e com J.K. Rowling –, e de uma forma muito distinta, eles formaram meu caráter. Aprendi sobre a força do amor (em todas suas formas), sobre a rejeição ao preconceito, sobre aceitação, gentileza e o delicioso gostinho de apreciar cada estranheza e desajuste de si mesmo com o mundo.

J.K. Rowling em Kings’ Cross

Eu nunca vou conseguir não amar Harry Potter. Como J.K. Rowling disse na pré-estreia do último filme, a sensação é que Hogwarts sempre será um lugar que posso chamar de casa, tanto quanto a casa na qual passei, concretamente, toda a minha infância. E é a partir desse ponto de vista, e dessa ótica de amor e gratidão, que é preciso admitir as imperfeições do objeto de minha afeição, e a natural incompletude da sua reflexão da minha realidade.

Os quatro parágrafos acima são uma defesa, portanto, da noção de que amar e guardar eternamente algo dentro do seu coração, que teve um papel fundamental e positivo em uma fase formativa da minha vida, não significa deixar de cobrá-lo da mesma forma como cobro todos os outros tipos de ficção. A ótica da OMG! sempre foi que entretenimento é importante, tem um impacto muito real no nosso mundo, e precisa se comprometer com questões como representatividade, qualidade de representação, positividade social.

Em suma, Harry Potter nos fez muito bem, e continua fazendo. Sua mensagem, como apontam muitas pesquisas até hoje (há estudos por aí comprovando que fãs americanos da saga são menos propensos a votar em Donald Trump, por exemplo), é de uma influência absurdamente positiva para a comunidade LGBT e qualquer minoria que esteja procurando respeito. Mas justamente por que ela nos fez muito que precisamos prestar atenção nos momentos em que fez muito pouco.

Dumbledore, o único personagem LGBT de Harry Potter até o momento

Texto e subtexto

A história do subtexto gay na ficção é muito mais rica do que a história do texto gay na ficção. Como membros da comunidade LGBT mais veteranos podem comprovar, caçar por indícios, pistas e significados nas entrelinhas se tornou a sobrevida da comunidade em tempos em que a representação explícita era escassa. Entre 1997 e 2007, quando os livros foram lançados, este ainda era o caso – por isso, não passou como uma grande surpresa quando Rowling resolveu revelar que Alvo Dumbledore era homossexual só depois do lançamento do último volume.

“Quando a J.K. revelou que o Dumbledore era gay, eu fiquei muito contente, achei muito importante, e lembro que saiu em tudo quanto é lugar”, comentou o Henrique Fernandes, 22 anos, fã de Harry Potter desde os 8. “Se é o bastante? Não é. Mas se era necessário revelar no livro ele e outros personagens? Não sei. Imagina se ele é revelado no livro, o tanto de atenção que esse detalhe ia receber e a história em si e outros detalhes importantes poderiam passar despercebidos. Temos que lembrar que quando o último livro saiu, ainda estava começando essa onda de inserção de personagens LGBTs em histórias, ainda mais na literatura young adult”.

Quase uma década depois em um século que se movimenta mais rápido (socialmente) do que qualquer outro, essa justificativa então válida parece não colar. Como o Henrique mesmo apontou, incluir personagens gays na ficção infanto-juvenil, hoje em dia, não é mais tabu – pelo contrário, é esperado e até exigido. Com o passar dos anos, a comunidade de fãs de Harry Potter, que continuou enriquecendo e até liderando uma massa virtual de fãs de ficção que cobravam representatividade e responsabilidade de suas obras, achou mais difícil conciliar o fato de que Rowling, sua primeira grande paixão, não havia usado um personagem LGBT em sua saga.

Lupin e Sirius eram lidos como um casal por fãs (antes de Lupin se casar e ter filhos)

“Se aproximadamente 5 a 8% da população é LGBTQ, e há quase 900 personagens na série como um todo, em torno de 45 a 72 deles precisariam ser LGBTQ. Onde eles estão?”, escreveu uma fã, ainda em 2012, neste Tumblr.

Esse tipo de contestação é importante de se fazer, mas contexto também é, e o contexto era a própria salvação de J.K. Rowling nesse sentido – estava tudo bem, porque desde que os tempos se tornaram mais abertos, a autora havia demonstrado constante apoio à comunidade LGBT, e em 2007 o receio era que a polêmica em torno de um personagem da comunidade ofuscasse ou mesmo marginalizasse o trabalho. Como o Thiago Santos, outro fã da saga de Campinas (SP), perfeitamente diz: “Hoje as pessoas estão mais dispostas a lutar e discutir sobre, mas antes isso poderia ocasionar mais sofrimento que ajuda, o livro poderia ser associado a uma literatura ‘de viadinho’, as crianças e fãs da saga poderiam sofrer um tipo de repressão de amigos e família, e isso poderia barrar a leitura”.

Essa maré do contexto, no entanto, mudou quando J.K. Rowling resolveu voltar a sua saga quase dez anos depois. Escrevendo o roteiro da trilogia Animais Fantásticos e Onde Habitam, ajudando a desenhar a história da peça Harry Potter and the Cursed Child, liberando contos e pedaços de informação sobre o mundo bruxo através do Pottermore… Quanto maior a saga fica, e especialmente quanto mais longeva ela se torna, mais faz sentido cobrar por representatividade. Não estamos em tempos de evitar represálias mais – agora é hora de ser corajosa e, com uma marca estabelecida e uma plataforma de discurso sólida, traduzir suas crenças pessoais em escrita. É 2016, afinal.

Certo, J.K. Rowling? A julgar por Cursed Child e pelo que vimos até agora dos outros projetos, aparentemente não.

Alvo Potter e Scorpio Malfoy em Harry Potter and the Cursed Child

Amizade à primeira vista

Em Harry Potter and the Cursed Child, a história é focada em Alvo Severo Potter, filho de Harry com Gina Weasley, e também em Scorpius Malfoy, filho do velho rival do bruxinho, Draco. Os dois são vistos como garotos na beira da adolescência que não se sentem confortáveis em sua própria pele, com seus próprios nomes e o peso que vem deles – em suma, eles são muito como Harry e seus colegas eram no começo da saga original. Alvo e Scorpius encontram um ao outro, e o que acontece a seguir é um romance LGBT em tudo, menos na literalidade.

“Eu shippo Alvo e Scorpius”, me contou o Henrique. “Tem várias e várias cenas que deixam em aberto uma relação de mais que amizade, principalmente quando os dois se separam. Se isso foi colocar uma temática gay só no subtexto? Não sei, os dois são crianças na peça, duas crianças 100% sozinhas, 100% frustradas com a vida, e a amizade dos dois é a primeira relação importante que eles tem na vida. Eu li sobre essa discussão e consigo ver os dois lados. Na peça eles começam com 13 anos e terminam com 15 ou 16. Foi a mesma época em que eu estava decidindo o que eu era na minha própria vida”.

Harry Potter and the Cursed Child não exatamente vive ou morre por suas tramas românticas, como o próprio Henrique indicou. Romance é um pensamento de fundo em uma aventura que é mais sobre fazer referência à saga original e “brincar” em Hogwarts mais uma vez. Mas então, porque inserir as cenas que dão a entender que Alvo e Scorpius são algo mais que amigos? Não é como se a relação deles seja como a de Harry e Rony, dois amigos homens heterossexuais, na série original.

Harry e Rony, uma amizade sem carga sexual

Como apontou a Aja Romano, escritora da Vox, em um ótimo artigo: “Harry e Rony tem uma profunda e íntima amizade por sete livros. O que eles não tem é subtexto gay: não há momentos repetidos e carregados de contato físico, não há discursos repetidos sobre o quanto eles amam um ao outro e não conseguem viver um sem o outro, não há momentos em que ver seu amigo interessado em uma menina inspira algo de ciúmes. Eles não tem nenhum dos marcos de um relacionamento homossexual em florescimento, como Alvo e Scorpius tem”.

“Eu particularmente não li nada do Cursed Child ainda, então não posso afirmar que exista essa situação de possível romance entre o Alvo e Scorpius. Contudo, se ela realmente existiu, foi um erro ter dado sinais e não ter entrado no assunto, ainda mais sendo que agora sim o assunto pode ser mais amplamente discutido, principalmente com os primeiros fãs da saga, que hoje são adultos, muitos da comunidade LGBT, e existe muita necessidade de representatividade”, comentou o Thiago à respeito.

E sim, como ele mesmo apontou pouco depois para mim, talvez introduzir uma única amizade íntima entre dois homens e implicar que eles são gays possa ser retrógado no sentido que reforça a noção de que homens só podem ser amigos de forma reservada e não-física, ao contrário de mulheres, ou um deles sem dúvida nenhuma é gay. É uma questão complexa. Quando a fonte está seca, uma gota de água suja não funciona para matar a sede, mas pode te manter vivo.

Teatro que exibia Harry Potter and the Cursed Child exibiu bandeira LGBT após ataque em Orlando

Amor condicional

“Eu aprendi muito sobre preconceito, sobre intolerância, com Harry Potter. E isso eu levo para a vida, levo para todas as questões que hoje eu estou aprendendo e desconstruindo – mas acredito que o papel de Harry Potter não é combater a homofobia”, me disse depois o Henrique. “Ele ensina sobre preconceito e intolerância, e se você aprende isso direito, vai levar esse ensinamento para toda questão, seja homofobia, ou racismo, ou qualquer outra forma de opressão”.

De fato, Harry Potter fala com uma contundência enorme sobre opressão. A questão dos ditos “Sangue-Puros” (aqueles nascidos da união entre dois bruxos, e não entre um bruxo e alguém sem poderes mágicos) e a intolerância de determinada facção destes em relação àqueles que não pertencem à “sua classe” é uma óbvia metáfora para a forma como minorias e grupos tidos como inferiores por determinadas ideologias são tratados no mundo real. É fantasia em seu melhor, usando uma situação irreal para discutir, refletir e, principalmente, julgar uma questão social importante.

Como obra de seu tempo, e obra que moldou uma geração, é difícil colocar defeito na mensagem, no legado e até na técnica de Harry Potter. Rowling é uma escritora habilidosa que costurou uma mensagem que ordinariamente não seria bem recebida em determinados lugares dentro de uma história complexa que nunca parou de evoluir e conquistou gente de todas as etnias, credos e sexualidades.

“Hogwarts é minha casa”

“Acredito que de forma geral, a saga te ensina a lutar com seus medos e inseguranças com relação a você mesmo. Harry diversas vezes se pega achando que é alguém ruim, que mesmo estando onde é muito feliz, ele não merece aquilo. Muitas vezes nos sentimos assim na sociedade, e lidar com isso é muito difícil, esse sentimento e a própria compreensão dele pode ser interpretada na leitura da saga e conciliada com a situação individual de cada, um seja LGBT, negro, mulher, etc”, definiu perfeitamente o Thiago.

Como autora de uma obra ainda em evolução, no entanto (mais três filmes estão por vir, a peça ainda está sendo apresentada, e os conteúdos extras no Pottermore, por exemplo, não dão sinais de parada), J.K. Rowling precisa entender que sua importância e seu bom trabalho em difundir essa mensagem só lhe dão mais responsabilidades, ao invés de privilégios. Em 2011, ela nos convidou a chamar Hogwarts de lar, e dessa forma libertou o universo criado por ela de sua própria imaginação, excepcional mas limitada, como a de qualquer ser humano.

Reconhecer essas limitações quando Rowling toma a custódia da saga de volta não é pecado, nem traição. Amor e gratidão podem conviver com a cobrança e o olhar crítico que a própria saga, querendo ou não, nos ensinou. É um equilíbrio difícil, mas não estou aqui, caro leitor, para entregar as chaves para esse dilema, e sim para posar uma pergunta: se enxergar metaforicamente na ficção de Harry Potter é o bastante para você? A resposta é tal e qual um Patrono, diferente para cada um de nós.

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