Talvez seja ainda um pouco cedo para sentenciar, mas vamos correr um risco aqui: a fall season de 2016 é a melhor da TV americana em muitos, muitos anos. Talvez desde 2004, a mítica fall season que gerou Lost, Dr. House e mais uma bordoada de sucessos. Talvez desde 2009, a única mais recente de que consigo me lembrar nitidamente por ter trazido tantas séries de sucesso (Modern Family, etc).

Por outro lado, já passou da hora de admitir: o cinema americano teve seu pior verão de blockbusters da década. Após anos a fio quebrando recordes de bilheteria, a indústria cinematográfica vai penar para alcançar os US$10 bilhões de bilheteria americana esse ano, um nível que vem batendo constantemente desde 2008. A quantidade de lançamentos de peso naufragados é impressionante – de Tartarugas Ninja 2 a Alice Através do Espelho, a indústria raramente acertou em 2016.

Em meio a esse clima de pessimismo, as primeiras semanas de fall season espetacularmente bem-sucedidas chegaram como uma surpresa – mais até do que isso, o sucesso com ideias originais, e não adaptações ou remakes! Designated Survivor, por exemplo, trouxe não só os fãs de 24 Horas, que vieram para ver o retorno de Kiefer Sutherland à TV, mas também os americanos aflitos com um ano de eleição conturbado que se aliviaram ao ver um personagem idealista assumindo a presidência novamente. O resultado? 10 e 8 milhões de espectadores nos dois primeiros episódios, respectivamente.


Ao mesmo tempo, This is Us apostou em uma campanha de marketing esperta (e no traseiro de Milo Ventimiglia) para conquistar o imaginário americano e, especialmente, o público on-line, antes mesmo de estrear. Quando exibiu seu surpreendente episódio de estreia, o público percebeu que se tratava de um drama delicado, por vezes engraçado e extraordinariamente sentido, que fisgou todo mundo por aquele lugar que tão poucas vezes é acionado no momento: nosso prazer por coisas bem-escritas e reais. Ainda melhor que Designated Survivor, This is Us trouxe 10 e 9 milhões de espectadores para os primeiros capítulos.

Resultado similar ao do reboot de MacGyver, que rejuvenesceu o protagonista e o apresentou para um público de emissora (a CBS) que sabe o que esperar de um procedural – afinal, o canal é a casa de sucessos como NCIS e CSI. Das três séries mais bem-sucedidas do ano até agora, é a que parece uma aposta mais segura, mas levando em conta o fracasso de reboots televisivos similares como Ironside e As Panteras, não é bem assim. Competindo de frente com This is Us, MacGyver trouxe os sólidos números de 10 e 9 milhões de espectadores nas primeiras semanas.

Quer saber quem mais está no caminho do sucesso? Máquina Mortífera, da Fox, que manteve seus 7 milhões de espectadores na segunda semana de exibição; The Good Place, que segurou 5 milhões dos 8 que assistiram o episódio de estreia, exibido em horário diferente do que será fixo para a série; a comédia Speechless, que pontuou na casa dos 7 milhões nas duas primeiras semanas; e Bull, que trouxe o público de NCIS junto consigo graças ao ator Michael Weatherly, fazendo impressionantes 13 milhões de espectadores nas primeiras semanas.

Thomas Haden Church e Sarah Jessica Parker em Divorce
Thomas Haden Church e Sarah Jessica Parker em Divorce

Precedentes

A essa altura, o leitor deve ter notado que, quando discutimos a fall season, falamos de emissoras abertas americanas. Nomeadamente: CBS, ABC, NBC, Fox e CW. As emissoras fechadas, onde muitas das produções mais prestigiadas são produzidas e transmitidas, não seguem o calendário próprio das abertas, com as estreias todas – ou quase todas – entre setembro e outubro, mesmo que algumas dessas estreias acabem acontecendo nesse período. É o caso de Westworld, da HBO, de Atlanta, da FX, e da vindoura Divorce, que estreia neste domingo (09) também na HBO.

Em 2016, terminou aquela que era talvez a última das grandes séries de TV aberta para o circuito de prêmios e prestígio – The Good Wife. Nas categorias dramáticas do Emmy 2016, nenhum dos prêmios foi levado por uma série de TV aberta. Das sete indicadas a Melhor Série Dramática, nenhuma (nenhuma) era de emissora aberta. Mesmo nas comédias, onde as emissoras fechadas costumam ter menos vantagem até hoje, apenas duas indicadas ao prêmio principal (Modern Family e Black-ish) eram de canais abertos.

Porque, portanto, vale ficar de olho na TV aberta americana? A resposta mais simples é que a maioria da produção televisiva do país ainda vem de lá, e as contempladas pelo Emmy não representam a totalidade da produção de qualidade da mídia, muito menos em época de “Peak TV”, onde mais e mais séries pipocam indiscriminadamente por aí. A resposta longa tem a ver com a série de fall seasons fracassadas que a TV aberta americana teve, produzindo poucos hits verdadeiros (The Blacklist, Quantico, Blindspot) e ainda menos sucessos de qualidade.

The Flash e Jane the Virgin, trunfos da CW
The Flash e Jane the Virgin, trunfos da CW

Essa série de fracassos é fascinante de acompanhar porque é indicativa de uma adaptação a um novo sistema, a um novo ambiente de consumo – e essa adaptação chegou muito atrasada. A CW foi a primeira emissora de TV aberta a entender como um mundo televisivo lotado de opções e cheio de reações imediatas na mídia social funcionava, entendendo que a escala menor em que opera é uma vantagem. Na CW, por exemplo, Jane the Virgin é um hit, atraindo pouco mais de 1 milhão de espectadores por semana, e The Flash, com seus 3 milhões, é um mega-hit.

O modelo mais modesto permite que a CW ouse na produção e entenda melhor o público específico para o qual apela como produtora de conteúdo, enquanto emissoras como a CBS e a NBC, que precisam segurar dezenas de milhões de espectadores diariamente, não se dão ao luxo de pensar em nada que não seja atrativo para um público maior (quanto maior, melhor). Custou para que essas grandes emissoras achassem um caminho que as permitisse continuar atuando de forma bem-sucedida com esse novo público, e 2016 pode marcar o ano em que isso finalmente aconteceu.

Negócios de grande porte rotineiramente demoram mais para se adaptar a novas realidades de mercado e de sociedade do que negócios de porte menor, logo não dá para culpar as emissoras. Ao mesmo tempo, não deveria ser tão difícil para quem trabalha no negócio do entretenimento ler o zeitgeist do momento e entender quais produções especializadas apelariam mais com o público de 2016 – de Designated Survivor a This is Us a Speechless, essas novas apostas só são ousadas porque a TV aberta americana passou anos colocando suas fichas em elementos que eram obviamente equivocados.

Não leve a mal…

É claro, a fall season ainda tem muitos títulos para estrear, e alguns que não colaram: muito divulgada, Pitch, da Fox, naufragou (menos de 3 milhões de espectadores); a nova O Exorcista também não foi bem, caindo para abaixo dos 2 milhões na segunda semana; Timeless pontuou bem na estreia (7 milhões), mas a má recepção crítica pode descarrilhar a série nos próximos episódios; enquanto isso, Conviction (5 milhões) e Notorious (4 milhões) não fizeram bons números para seus horários e emissoras.

Nenhuma fall season é fall season sem alguns títulos que morrem assim que estreiam, no entanto – se nenhum morresse, teríamos uma agenda (ainda mais) impossível de séries para assistir por aí. Essas são as exceções que provam a regra, e a regra é que as emissoras acolheram criadores talentosos (Michael Schur, de The Good Place; Dan Fogelman, de This is Us) para montar séries que se estruturassem ao redor de um tema universal e atraente para o público geral, sem abrir mão da própria criatividade, charme ou identidade.

Speechless, sucesso da ABC
Speechless, sucesso da ABC

Encontrar o meio termo sempre foi a especialidade das emissoras americanas, que costumam andar alguns passos atrás do progresso social do país a fim de fazer sempre apostas seguras – por exemplo, só três anos depois do boom de Laverne Cox em Orange is the New Black é que a TV aberta está acolhendo atores transgênero. O mesmo processo vale para a inclusão étnica, para os personagens LGBT, para a representação de mulheres no papel central das tramas, e, o passo mais recente, atores com deficiências (em Speechless, justamente).

Agora, também mercadologicamente, eles encontraram o meio termo entre a inovação e especialização do canal fechado e o apelo mainstream que seus títulos, naturalmente, precisam ter. Se vivemos em um mundo em que a Starz exibe Ash vs Evil Dead e Outlander, entre outras produções de gênero, nas TVs abertas teremos esse ano Timeless, Time After Time e Frequency, três séries sobre viagem no tempo. Se a Netflix tem Lady Dynamite e Kimmy Schmidt, suas comédias mais excêntricas, a TV aberta ataca de The Good Place e Son of Zorn, versões “domadas” de uma concepção parecida.

A impressão que fica é que a TV aberta americana realizou uma calculada revolução a conta-gotas nos últimos anos, testando o terreno e encontrando as armadilhas nele, experimentando. Em 2016, o tubo de ensaio transbordou.

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