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Fala Série! #11 | Heróis na TV: A DC está mesmo na frente da Marvel?

Na noite dessa segunda-feira (28), a DC Comics começou a dar seu passo mais ambicioso no campo da televisão: o mega-crossover entre Supergirl, The Flash, Arrow e Legends of Tomorrow. O quarteto de séries da CW, que começou a ser construído com a do Arqueiro Verde, lá em 2012, encontra seu ápice nesse evento que junta todos os heróis contra um inimigo em comum, os alienígenas conhecidos como Dominadores, mas na realidade é apenas o grande evento de coroação de uma fase espetacular que começou a ser construída há algum tempo.

Se Arrow abriu as portas da CW para o gênero, The Flash escancarou-as para o que claramente viria a se tornar a grande fundação da atual fase da emissora. Os resultados fabulosos de Supergirl em sua vinda de uma primeira temporada na CBS e a lenta evolução da audiência de Legends of Tomorrow, que está demorando para pegar com o público, só confirmam o lance de sorte (e habilidade narrativa/mercadológica) que foi construir esse universo televisivo inclusivo, vibrante e super (em muitos sentidos) populado.

Heróis da DC reunidos
Heróis da DC reunidos

O dito usual entre os fãs do gênero, portanto, é que a DC está à frente da Marvel em termos de TV, mesmo que continue atrás em termos de cinema. O quarteto de séries, ao lado da bem-sucedida Gotham, da Fox, forma o “pelotão de ataque” contra produções como Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Agents of SHIELD, liberadas pela Marvel no cenário televisivo, e é interessante ver esse contraste tanto em tons narrativos quanto em modelos de produção.

O universo formado por Arrow, The Flash, Supergirl e Legends of Tomorrow é frequentemente elogiado por retratar o trabalho em equipe e o idealismo inerente ao conceito de super-heróis com esperteza, além de construir a relação entre seus personagens com cuidado quase artesanal e buscar um tom leve sem soar inconsequente. Por outro lado, as séries da Marvel na Netflix ganharam os críticos com sua abordagem mais urbana e sombria, lidando com questões reais (racismo, abuso sexual) enquanto conta a história de seus vigilantes. Como no cinema, duas abordagens diferentes que não precisam competir – mas é divertido demais compará-las.

Aposta no formato

“A Marvel provou com a franquia dos Defensores que o formato [da televisão] é ideal para desenvolver seus personagens de forma mais aprofundada. Fora que a TV funciona melhor por possibilitar explorar outras dimensões da figura humana e suas problematizações mais verossímeis ao nosso mundo”, me disse o Rubens Rodrigues, um fã do gênero de Caucaia, no Ceará. Muitos fãs argumentam que isso se deve à semelhança do formato episódico com o das edições semanais ou mensais de quadrinhos, que permitem um desenvolvimento “à prestação” muito diferente dos arcos expansivos desenhados pelos personagens da Marvel no cinema.

Com a TV, ao que parece a Marvel também se permite experimentar mais. A fórmula de sucesso atribuída aos filmes da editora está fixa, e é difícil fugir dela: embora os filmes mais recentes tentem desconstruir o mito do herói erguido justamente por seus antecessores, é uma revolução à conta-gotas que não cairia bem na TV, uma mídia muito mais alimentada por redes sociais, onde cada vez mais um grande risco leva a uma grande recompensa. “Acredito que o problema (ou solução) não está no formato. Tudo se resume ao eixo criativo e suas possibilidades”, comenta o Rubens – e ele está certo. A parceria Marvel/Netflix dá mais espaço para essas possibilidades serem exploradas.

Demolidor – 1ª temporada

“Já a ABC se perdeu no começo de [Agents of] SHIELD”, compara o Rubens. “Na segunda temporada a série se encontrou e o que a gente viu a partir disso foi um desenvolvimento muito bem trabalhado dos personagens. Tanto que se você comparar, parece que eles nem são as mesmas pessoas que começaram na série”. É um processo natural à televisão aberta – as séries que dão certo são aquelas que “se corrigem” e se encontram no meio do caminho. Basta olhar para títulos como Teen Wolf, que começou como um drama adolescente bobinho e kitsch e, sem abandonar essas “raízes” que prendem o seu público, cresceu para se tornar cada vez mais arrojada visual e narrativamente.

É também um processo que existe muito nos quadrinhos. Após assumir um título, um autor ou desenhista qualquer pode demorar a se adaptar e traduzir sua visão, enquanto o que vemos na Netflix é mais semelhante à graphic novels fechadas, que vem para contar uma história de um ponto de vista específico e ficam assim. Como televisão, é mais envolvente e transpira uma qualidade mais óbvia, mas não significa que é a única forma de se fazer uma boa série de heróis.

Pinguim em Gotham

Fidelidade é tudo?

As muitas mudanças feitas por Gotham, da Fox, em personagens clássicos do cânone da DC (mais especificamente, do Batman) já causavam furor antes dos roteiristas fazerem o Pinguim, interpretado por Robin Lord Taylor, se apaixonar pelo Charada (Cory Michael Smith) em uma trama da terceira temporada. De forma semelhante, os heróis da Marvel na Netflix rejeitaram aspectos clássicos dos quadrinhos (como seus uniformes), introduziram novos vilões e aliados, e até trocaram o sexo de alguns personagens secundários.

O Rubens faz uma divisão muito interessante entre Demolidor, por exemplo, e Agents of SHIELD. Enquanto Demolidor respeita as origens do personagem ao mostrar o uniforme preto, a ascensão do Rei do Crime, e o treinamento com Stick, SHIELD não se preocupa tanto. “SHIELD também traz personagens dos quadrinhos, incluindo alguns Inumanos da história dos Guerreiros Secretos, mas ali não existe o mesmo primor pela adaptação [que em Demolidor]. É importante que se entenda o limite do que pode ser feito com orçamento de TV aberta. A liberdade é positiva na medida em que as boas histórias são contadas essencialmente”, diz.

Luke Cage

Fidelidade também não é a primazia das séries da DC, como os fãs de Arqueiro Verde e The Flash podem testemunhar, mas a impressão é que esses personagens são muito mais símbolos do que cartilhas a serem seguidas à risca. Há elementos sobre eles indispensáveis, e o universo televisivo da DC entende isso, seja no otimismo incansável de Barry Allen, na complicada relação entre os primos Superman e Supergirl, ou no eterno dilema entre justiça e vingança do futuro Comissário Jim Gordon. Esses são os compassos que as séries da DC usam para não saírem do caminho correto, e tem funcionado.

A questão é que a Marvel usa indicadores muito mais específicos e complexos para fazer o mesmo. Luke Cage não é o cara de tiara e camisa amarela aberta á la blaxploitation, mas não só continua sendo um símbolo de resiliência frente ao racismo como ainda é um homem negro que foi encarcerado injustamente, usado pelo Estado de forma ilegal e constantemente ameaçado e subestimado por tudo isso. Parece que, na Marvel, esses personagens são menos cifras com as quais os roteiristas podem brincar, e mais seres humanos totalmente realizados que conduzem as tramas em que estão.

Jessica Jones

Impacto fora da tela

“A primeira temporada de Demolidor chega a ser mais competente do que qualquer outra coisa que a Marvel fez na TV ou no cinema. E não falo só de qualidade narrativa. Foi um divisor de águas para mostrar que existem outros tipos de histórias que precisam ser contadas”, mencionou o Rubens. Esse é talvez o elemento que, na minha visão, força a balança para o lado da Marvel na TV – com a liberdade conseguida na Netflix, a editora/estúdio busca explorar uma profundidade dentro do gênero de super-heróis que ainda falta, mesmo cinco anos depois, nas séries da DC na CW (e, obviamente, em Gotham também).

Há espaço para as duas coisas, com certeza: um universo luminoso e idealista de super-heróis como o da CW não é sem seus méritos, mas analisar situações reais e importantes através da ficção está no próprio cerne do que esta coluna e aquele que a escreve buscam representar. Não é algo que a Marvel ou a DC façam ativamente no cinema – é preciso ler cuidadosamente nas entrelinhas, porque eles são filmes decididamente políticos, mas só metaforicamente. Por isso, é fascinante e necessário saber que há alguém na TV refletindo racismo, machismo, problemas urbanos e a moral do próprio conceito de super-herói abertamente.

É um diálogo que precisamos ter, indiscutivelmente. Nossa cultura pop precisa significar algo além da nossa obsessão por capas e látex. Por enquanto, só um dos lados dessa “disputinha” boba (mas tremendamente útil) entre Marvel e DC está nos ajudando a achar esse significado.

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