Critica | Que Horas Ela Volta?

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Que Horas Ela Volta? é uma crônica bastante eficiente das diferenças entre classes sociais existentes no Brasil. A partir do universo das relações empregados-patrões a diretora e roteirista Anna Muylaert (de É Proibido Fumar) pinta um curioso filme que se apóia em grande parte na atuação acima da média de Regina Casé.

Somos apresentados a uma típica família brasileira de classe média alta que vive em uma casa confortável, onde pai, mãe e filho são completamente dependentes da empregada doméstica Val (Regina Casé). A família possui uma rotina toda própria na qual Val coloca pratos na mesa para as refeições, prepara o café da manhã, serve sorvete de sobremesa, lava louças… Mecânica muito familiar a vários lares brasileiros.

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A família em sí ja demonstra ter um quê disfuncional quando vamos aos poucos compreendendo a estranha relação conjugal entre o pai e a mãe de Fabinho, o único filho. Neste environment um tanto quanto desconcertante percebemos o tanto que as figuras paterna e materna nao sabem como lidar com a adolescência de Fabinho, ao contrário de Val, que acaba assumindo o papel de mãe do garoto toda vez que ele corre para o quarto da empregada doméstica com o intuito de desabafar ou de ganhar um carinho ou uma adulação.

Tudo vira do avesso quando Jéssica, a filha de Val, chega do nordeste e vem passar alguns dias na casa dos patrões de sua mãe. A menina chega em São Paulo para tentar o vestibular de arquitetura na FAU, uma das mais concorridas do pais. A partir daí, uma série de eventos irão colocar em cheque o lugar dos empregados e dos patrões nesta dinâmica “do lar”.

Jéssica não compreende porque não pode sentar a mesa com os patrões da mãe no almoço, nem porque não pode usar a piscina em um dia de calor. São diversas cenas que colocam o dedo na ferida a cada vez que a menina tenta quebrar estas convenções sociais de que lugar de empregado é na copa humildezinho. Para arrepio de Val, a estada de Jéssica começa a desregular a “sintonia” da casa e o filme brilha justamente no desconforto causado por este elemento dissonante.

Regina Casé constrói uma Val bastante familiar a muitas familias brasileiras, há empregadas domésticas que realmente se tornam membros da familia e são alçadas a categoria de “salvadoras da pátria”, seja por serem fundamentais na criação das crianças ou seja por manterem a harmonia dessas casas. Suas expressões são sempre muito originais e sua interpretação bastante natural acaba sendo o tour de force do enredo.

A atriz brasiliense Camila Márdilla assume com louvor a tarefa de construir uma adolescente que não se contenta com o papel que a vida a delegou. Ela é ambiciosa e busca um lugar na sociedade que parece longe dos horizontes de sua mãe. O sotaque nordestino acrescenta um poderoso recurso para Camila se esbaldar em expressões que acabam dando um plus em sua atuação. Garota de potencial esta.

Sem cores fortes, Muylaert retrata a casa da família de maneira fria, quase não há elementos que destacam na tela. O próprio corredor da casa que inteliga os quartos de cada membro da familia parace longo, impessoal e escuro: uma poderosa metáfora para compartimentalizar quartos que não se “comunicam”. Em determinada cena, a familia janta e permanece em silêncio absoluto enquanto cada um se conecta em seu respectivo smartphone.

Outra bela cena é a que envolve a entrada de Val na piscina da casa, carregada de simbolismo no percurso de vida da doméstica.

O filme tem mais méritos pela dinâmica das personagens de Regina Casé e Camila Márdila do que propriamente pelo roteiro. Mas de qualquer forma, é um filme absolutamente relevante dentre as produções nacionais recentes que parecem ter perdido contato com o cinema de qualidade depois da enxurrada de filmes medíocres estrelados por Leandro Hassum e companhia.

Precisamos de mais filmes assim. Corajosos em explorar boa dramaturgia, com boa construção de personagens e com apuro técnico. Que Horas Ela Volta? tem tudo isso e merece ser celebrado por ser uma esperança para o futuro do cinema nacional. É uma boa prova de que somos sim capazes de fazer coisa muito melhor do que estamos fazendo nos últimos anos.

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