Crítica 2 | Trumbo – Lista Negra

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Trumbo – Lista Negra é um filme redentor. Não com um personagem em busca de algum tipo de perdão ou algo assim, mas sim um longa que é quase um pedido de desculpas a toda uma vida marcada pelas injustiças da paranoia do macarthismo e da Guerra Fria. Um filme sobre um homem que não abandonou o que acreditava, nem permitiu que seus ótimos trabalhos fossem jogados na sarjeta, e é quase uma tentativa da indústria cinematográfica americana se redimir diante da vida de Dalton Trumbo. Só por essa vontade de colocar toda injustiça às claras, Trumbo já deveria ser considerado um grande filme.

O longa conta a história de Dalton Trumbo, um roteirista de sucesso nos tempos de ouro de Hollywood, mas como membro do partido comunista americano foi considerado uma ameaça e colocado na famosa lista negra americana, que tinha nomes de milhares pessoas que trabalhavam no ramo do entretenimento e por seu envolvimento subversivo e antiamericano estariam colocando sutis propagandas comunistas nos filmes hollywoodianos. Injustiçados, esses profissionais foram presos e depois impedidos de continuarem trabalhando no ramo. Trumbo foi um dos que se rebelaram contra esse sistema, e através de uma série de pseudônimos continuou escrevendo para os estúdios cinematográficos, recebendo até um Oscar por um de seus scripts, ironizando de vez a lista negra dos EUA. O filme conta toda essa trajetória do polêmico e corajoso Dalton Trumbo, mostrando seu envolvimento, mesmo na sarjeta hollywoodiana, com obras-primas do cinema como Spartacus (1960), Êxodos (1960), A Princesa e o Plebeu (1953).

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Não é só seu real protagonista que é um verdadeiro corajoso, mas sim o filme como um todo mostra sua bravura. Coragem de revirar o passado à luz da história sem medo de derrubar ídolos e mostrar, de fato, quais foram as reais consequências daquele processo de caça às bruxas, mostrando, por exemplo, o grande envolvimento do astro John Wayne em buscar e punir seus colegas comunistas. Trumbo não tem medo de falar sobre política, não polemizando os temas ou ideologias, mostrando que de certa forma alguns pensamentos são apenas intoleráveis. E de certa forma, dar a chance ao público de ver que essa caça a um tipo de ideologia ou qualquer coisa do gênero só leva pessoas como você mesmo ao fundo do poço. E esse é um alerta muito importante nos dias de hoje, infelizmente. Em certo momento do filme ouvimos John Wayne afirmando para que seus colegas da indústria irem para a Rússia, se querem ser comunista. Qualquer semelhança com a realidade atual não é mera coincidência, mas 60 anos depois desses fatos, não deveria haver nenhuma semelhança.

É interessante notar como Trumbo tem uma preocupação com a veracidade dos fatos para fazer valer sua denúncia a respeito dos erros do passado. Utiliza, assim, a todo o momento trechos de entrevistas, jornais e documentos da época, mas com um ótimo trabalho de edição consegue inserir essa parte documental sem ser enfadonho. Conseguindo unir todas essas informações com a parte ficcional com êxito. Além disso, o longa faz um trabalho de caracterização excepcional, onde facilmente os personagens são identificados, é difícil dizer que não estamos vendo Kirk Douglas ou Otto Preminger de carne e osso. Isso tudo torna Trumbo quase uma reencenação dos fatos, não apenas um filme livremente baseado nesses acontecimentos e mostrar como Dalton Trumbo virou totalmente esse jogo é ainda mais fascinante.

E o modo como o filme retrata as peripécias do roteirista para continuar escrevendo é ótimo, indo do drama à comédia com uma fluidez incrível, que deixa o longa ainda mais agradável. Muito disso se deve ao trabalho do diretor Jay Roach (Entrando Numa Fria) que impõem a Trumbo um ótimo timing cômico sem esquecer que seu filme trata de um tema bem sério. Além do trabalho de direção, o elenco compreende muito bem essas nuances entre o trágico e o cômico com destaque para John Goodman, Louis C.K. e claro Bryan Cranston. Em momento alto do longa, em que Trumbo assume que é um de seus pseudônimos, a entrevista ao jornal tem um tom sarcástico e irônico, mas que por uma leve mudança de feição de Cranston o discurso torna-se sério e ele diz que Oscar para ele está coberto de sangue de seus companheiros marcados pela lista negra de Hollywood, uma cena marcante para colocar um nó na garganta de qualquer espectador.

E não reservar um parágrafo para atuação de Cranston seria uma grande injustiça. É verdade que ele sempre será marcado pelo icônico papel de Walter White em Breaking Bad, mas basta cinco minutos de cena para Cranston com sua habilidade e carisma cativar o público. Com seus gestos e feições sutis, o ator constrói um Dalton Trumbo em que cada ação tem o peso de seu trabalho e de suas acusações, marcado pelo sarcasmo, mas também pelo cansaço. Em outro grande momento de Trumbo – Lista Negra, quando o roteirista é preso e um guarda deve revistá-lo, nu diante daquela situação, sem armas físicas ou intelectuais, Cranston através de pequenas reações consegue provar o quanto é incômoda aquela situação, não só a revista, mas também todo aquele cárcere por causa de suas ideias. Uma atuação que diz muito nos pequenos traços e que deixa ainda mais marcante toda injustiça sofrida por aquele homem.

Sabendo que nenhum livro, filme ou prêmio é capaz de apagar as marcas da história, Trumbo não é um filme que procura novos culpados por tudo aquilo que ocorreu, mas apenas conciliar esse passado e seus traumas e mostrar quanto sofrimento aqueles erros trouxeram. Expor tudo isso é mais do que necessário e espero que mostre uma mudança de pensamento nos dias de hoje. E por esse e todos os outros motivos listados acima que Trumbo é um grande filme.

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