Crítica | A Grande Aposta

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Em 2008, a bolha imobiliária dos Estados Unidos estourou e quase acabou destruindo o sistema bancário daquele país. Devido ao peso que os EUA exercem na economia mundial, a crise acabou se espalhando por todo o globo e levando inúmeros países a entrar em crise econômica profunda. Muitos, à época, se perguntaram: como ninguém percebeu que isto aconteceria? Não é verdade. Algumas pessoas perceberam, sim, o que aconteceria e se aproveitaram do desastre inevitável para lucrarem em cima. O filme A Grande Aposta conta exatamente a história deste pequeno grupo de pessoas que entenderam melhor o que aconteceria antes de todo mundo.

Um jovem executivo, dono da sua própria empresa de investimentos, Michael Burry (Christian Bale, de Êxodo: Deuses e Reis), fã de heavy metal e um pouco tímido por ter um olho de vidro, analisando os números de investimentos no mercado imobiliário percebeu que devido a alguns tipos de negociações realizadas, o ritmo do mercado não se sustentaria por muito mais tempo e resolveu fazer investimentos contra o mercado.

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Um executivo de um dos bancos procurados por Burry, Jared Vennett (Ryan Gosling, de Só Deus Perdoa), ao contrário dos outros que acharam Burry louco, percebeu que ele poderia ter razão, sim, e resolveu, por conta própria, oferecer o mesmo tipo de negociações criado por aquele para outros clientes. Burry, então, oferece estes papéis para um outro banco de investimentos, uma representante do banco de investimentos Merryl Lynch, presidida por Mark Baum (Steve Carell, de Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo). De primeira, Mark desconfiou desta oferta. Entretanto, quando Jared lhe explicou melhor como ela funcionaria, ele achou que poderia ser um ótimo investimento. Porém, ainda com algumas incertezas, Mark resolve investigar o mercado imobiliário melhor. Ao mesmo tempo, dois jovens investidores, praticamente de fundo de quintal, Charlie Geller (John Magaro, de Invencível) e Jamie Shipley (Finn Wittrock, também, de Invencível), descobrem, por acaso, as análises de Michael Burry e resolvem apostar na mesma ideia. Mas como eles não tinham a quantidade de dinheiro suficiente e a experiência necessária para fazer tão arriscada ação, eles pediram ajuda para um ex-executivo que agora investia por conta própria, Ben Rickert (Brad Pitt, de À Beira Mar).

O roteiro foi baseado em mais um best-seller de Michael Lewis, A Jogada do Século – The Big Short (2011). A dupla de roteiristas que o adaptou foi Adam McKay e Charles Randolph. Este só escreveu para as telas grandes dois roteiros, A Intérprete (2005) e Amor e Outras Drogas (2010), uma adaptação, também. Já McKay, também diretor deste longa, escreveu Homem-Formiga (2015) e Tudo Por um Furo (2013), que ele também dirigiu. McKay é mais especializado em dirigir comédias e isso fica claro para o espectador ao longo do filme, apesar deste não ser propriamente uma produção desse gênero comédia. Este filme é mais no estilo rir para não chorar.

Os dois fizeram uma maravilhosa adaptação. Exemplos da forma como eles acharam para deixar uma história complexa e cheia de nomes complicados de negociações financeiras mais leve e fácil de ser entendida foi a quebra da quarta parede por vários personagens e quebra do ritmo da história com a entrada de convidados explicando os nomes de diversos tipos de aplicações financeiras.

A primeira convidada foi a atriz australiana Margot Robbie. Margot, nua, deitada em uma banheira de espuma e tomando champanhe, explica o que é subprime, por exemplo. Outros convidados foram o chef Anthony Bourdain e a atriz e cantora Selena Gomez. Uma ótima sacada para quebrar o difícil ritmo de diálogos do filme. A Grande Aposta, com certeza, seria realmente muito maçante devido aos inúmeros tipos de negociações e aplicações realizadas pelos grupos de investidores envolvidos na história e por causa da tensão que história transmite, senão fosse a ótima edição de Hank Corwin (A Árvore da Vida, 2011) – precisa e ágil. Como existem no mínimo três grupos diferentes de pessoas, há muitos ambientes e situações acontecendo quase que simultaneamente. A edição, se não tivesse sido bem feita, poderia deixar o público completamente confuso.

O elenco como todo, tanto os protagonistas, quanto os coadjuvantes, está muito bem. Não há um ator que esteja abaixo da alta média imposta por este grupo de atores. Até por causa deste excelente elenco reunido, seria complicado alguém estar ruim. Merecidos destaques vão para Steve Carell e Ryan Gosling. Os dois sempre surpreendem quando estão na tela grande. Carell tem acertando na escolha de seus personagens e este não foge a regra do tipo que ele tem escolhido: o homem com a aparecia normal, mas que na realidade, é um ponto fora da curva. Ryan Gosling também escolhe personagens que ele possa fazer coisas diferentes e este é um deles. E Gosling acerta o tom que o personagem exige do ator para interpretá-lo.

A direção de fotografia de Barry Ackroyd (Lugares Escuros, 2015) também contribui para que a história siga em um ritmo forte, porém sem deixar o espectador tonto e o deixando entender o que está se passando. Com posicionamentos e movimentações de câmera semelhantes ao de um documentário, A Grande Aposta passa esta sensação ao público que assisti-lo. Parece que o filme foi feito através de filmagens com câmeras escondidas instaladas nas empresas e nos bancos de investimentos. O ritmo dele também é ditado pela trilha sonora criada por Nicholas Britell (Whiplash: Em Busca da Perfeição, 2013). Brittel compôs músicas que tem certa carga dramática, porém sem serem ficarem na memória do público.

O longa, com um pouco mais de duas horas de duração, deixa claro como o mercado financeiro era – e ainda é – completamente sem regulamentação e sem fiscalização. Como fica bem claro durante a investigação do personagem de Steve Carell, principalmente ao visitar a agência de classificação de risco, Standard & Poor’s, em uma das melhores sacadas do filme sobre este player do mercado financeiro. À época, mesmo que você tivesse apenas um olho, mas fosse observador, perceberia para o quê o mundo estava caminhando. Infelizmente, quem percebeu isso, só teve tempo de ganhar com as perdas dos outros.

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