Crítica | Anomalisa

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Quando encaramos mais um filme com a assinatura de Charlie Kaufman, 17 anos depois de Quero Ser John Malkovich, já sabemos o que esperar. Cada uma das obras do roteirista (e agora diretor) mergulha em um mundo muito específico de metalinguagem e reflexões existenciais que foram se tornando cada vez mais angustiantes com o tempo. A meditação sobre as idas e vindas do amor em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, as ansiedades artísticas de Adaptação, tudo culminou no fundamentalmente exasperador (e pessimista, e terrivelmente belo) Sinédoque, Nova York, em 2008.

Talvez justamente por isso Kaufman tenha demorando tanto tempo para moldar sua obra seguinte, que sai agora, quase 8 anos depois de Sinédoque, e abraça uma técnica cinematográfica inédita na filmografia do diretor (a animação stop-motion), adaptando para o cinema de maneira única um texto escrito por Kaufman originalmente para o teatro. E talvez também por isso Anomalisa possa parecer simples e fácil demais para os adeptos da obra anterior do roteirista.

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Sem esconder as origens teatrais, o filme se passa em poucos cenários, e contem longos diálogos entre um número limitado de personagens – Michael Stone (voz de David Thewlis) é um escritor de não-ficção que vai para a cidade de Cincinnati para dar uma palestra, e no hotel encontra Lisa (Jennifer Jason Leigh), que lhe chama a atenção por ter uma voz diferente de todos ao seu redor. O que acontece é que aos ouvidos de Michael, todos os outros personagens do filme soam como o ator Tom Noonan, um efeito interessante e bizarro que coloca Anomalisa pelo menos um pouco no terreno da metaficção de Kaufman. Ao ouvir o belo tom dessa mulher machucada por decepções e de baixa autoestima, Stone se convence que está apaixonado.

O filme não perdoa o seu protagonista pela forma como ele se aproveita dos problemas de Lisa e da sua (relativa) inocência, apenas nos mergulha no mundo dele em que a monotonia (literal) do mundo se torna verdadeiramente exasperante. Kaufman nos explica os atos de seu Michael Stone, mas não os justifica – e, essencialmente, humaniza a jornada de Lisa de tal forma que somos levados a sentir por ela muito mais do que sentimos pelo casamento fracassado e pela crise existencial de Michael. A voz brusca de Thewlis contrasta com a interpretação delicada de Jason Leigh, e é aí que o pendor emocional e moral do filme está decidido, mesmo que sutilmente.

Apesar desses pequenos truques e da forma como se utiliza da técnica de animação (lindamente executada, diga-se de passagem), Anomalisa é uma história direta, simples e extraordinariamente crível para os padrões de Kaufman. Obrigando-se a encarar a realidade ao invés de tecer argumentos existenciais da fantasia, o roteirista/diretor cria um de seus filmes mais tocantes e interessantes, e mostra que não precisa de muito para desenvolveu sua forma única de ver a arte da narrativa.

Anomalisa é de quebrar o coração, é tremendamente corajoso, e é mais uma pecinha especial do trabalho em constante evolução que é a visão de mundo de Charlie Kaufman. Em resumo: é um filme indispensável.

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