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Crítica | Creed: Nascido Para Lutar

Publicado por Redação

14/01/2016 03:44

Nas décadas de 1970 e 1980, vários personagens de muitos longas acabaram se tornando símbolos da cultura pop, como o lutador de boxe Rocky Balboa e o soldado John Rambo. Ambos foram interpretados pelo mesmo ator: Sylvester Stallone. Filho de um italiano e nascido em Nova York, morou, posteriormente, com a mãe na Filadélfia, Stallone também escreveu o roteiro de Rocky. O último filme da franquia foi lançado há 10 anos, e como todos os outros, o roteiro deste foi escrito pelo próprio ator. Imaginava-se que nunca mais veríamos Rocky Balboa novamente. Porém, o cinema é uma caixinha escura de surpresas e Creed: Nascido Para Lutar o trouxe de volta.

A grande sacada de Creed: Nascido Para Lutar é ter uma história baseada na vida de um dos mais importantes adversários de Rocky, Apollo Creed. O público descobre que Creed teve um caso com uma mulher e ela acabou tendo o filho dele. Ela, porém, também morre muito cedo e o garoto acaba vivendo mais em reformatórios do que em lares adotivos. A viúva de Creed, Mary Anne (Phylicia Rashad, da série The Cosby Show) acaba encontrando-o e adotando-o.

Anos mais tarde, o garoto Adonis Creed (Michael B. Jordan, de Quarteto Fantástico), está em um ótimo emprego, no qual acabou de ser promovido. Mas Adonis tem o prazer pela luta em seu sangue; desde criança. Por essa razão, ele participa de lutas ilegais de boxe no México. Infeliz, ele resolve largar tudo e se dedicar ao boxe, mesmo contrariando a sua mãe adotiva. Ela cuidava do Apollo Creed após as lutas e o viu o morrer por causa do boxe.

Adonis, então, resolve ir para a Filadélfia encontrar uma pessoa que talvez possa ser o seu treinador, Rocky Balboa (Sylvester Stallone, da franquia Os Mercenários). Inicialmente, Rocky, agora um dono de uma cantina italiana, não aceita treiná-lo. Rocky se considera muito tempo fora do ramo. Mesmo assim, Adonis resolve ficar na cidade e treinar em uma academia de boxe conhecida no bairro. Isso tudo sem que saibam que ele é filho de Apollo Creed. Assim, ele acaba conhecendo a sua vizinha do andar de baixo, uma cantora e DJ, Bianca (Tessa Thompson, de Selma: Uma Luta Pela Igualdade), que tem uma doença que está deixando-a progressivamente surda. Aos poucos, ele vai conquistando tanto Bianca quanto Rocky. Este acaba aceitando treiná-lo e ela o aceita como namorado.

A ideia deste spin-off – obra derivada de outra já existente – foi do próprio Ryan Coogler. Ele é tanto um diretor quanto um roteirista iniciante. Este, por exemplo, é o seu quarto roteiro produzido e o segundo longa que ele dirige. Ele o escreveu em conjunto com Aaron Covington, sendo este o primeiro roteiro deste. Coogler e Covington criaram uma obra que, ao mesmo tempo em que segue a tradição das histórias de boxeadores, também traz algumas novidades e é uma linda homenagem ao Sylvester Stallone e ao personagem por ele criado. A superação dos problemas pessoais é uma tônica comum em filmes desse subgênero. Entretanto, uma novidade mostrada neste filme, por exemplo, é a ideia da superação do peso da fama do pai por Adonis. As várias passagens do filme que relembram momentos icônicos da franquia Rocky são muito bem incorporadas ao trabalho como um todo.

Outro diferencial em relação aos longas anteriores sobre boxe é a profundidade com a qual foi construído Adonis. Até para ser mais coerente com a história de vida do personagem, com uma infância problemática, porém, que acabou sendo criado com atenção, carinho e dinheiro, existem questões que fogem das comumente levantadas em filmes deste tipo. Percebe-se isso ao ver o personagem treinando, na relação deste com Bianca e na maneira como ele cuida de Rock em determinado momento da produção.

Os atores Michael B. Jordan e Sylvester Stallone conseguem fazer uma dupla fantástica em cena. Sylvester Stallone, realmente, criou o personagem da sua vida. Mesmo quando o roteiro é escrito por outras pessoas, Stallone é Balboa. O personagem se encaixa com uma luva – de boxe. Jordan faz o papel do jovem que segue o seu sonho apesar de tudo com a voracidade e o sangue nos olhos necessários para ser um bom boxeador. O destaque também vai para Tessa Thompson. Tessa consegue fazer o papel da jovem musicista que está perdendo a audição, porém, irá se trabalhar com o que gosta até não poder mais. Este problema dá à personagem a determinação necessária para realizar o seu sonho e Tessa a interpreta desta maneira. A veterana atriz Phylicia Rashad interpreta a mãe adotiva muito bem.

A diretora de fotografia, a francesa Maryse Alberti (A Visita, 2015), realizou um trabalho apurado de posicionamento e movimentação de câmera. Ela enquadrou corretamente e fez precisos movimentos de câmera para criar o clima pedido pelas cenas, fossem de luta, fossem de diálogo. Exemplos deste trabalho são a cena da primeira luta de Adonis: toda filmada em plano-sequencia desde a entrada dele até o nocaute do adversário em cima do ringue. Apesar dessa ótima ideia e da plasticidade dada à cena pelo uso desse recurso, a energia e a emoção necessárias em uma cena de luta acabou se perdendo. Tanto que ela não foi usada novamente na luta mais importante do filme. Um exemplo de cena de diálogo cujo posicionamento da câmera está bom é a de Adonis e Bianca, juntos, pela primeira vez, na sala da casa dela. Maryse posicionou a câmera no alto e deu closes em detalhes dos dois personagens para realçar a intimidade desta cena.

Falando em energia e emoção, a edição da carioca Claudia Castello e do norte-americano Michael P. Shawver, – que já trabalharam com Coogler em Fruitvale Station: A Última Parada (2013) – faz do ritmo do filme intenso, mas sem ser rápido demais. Consistente e preciso, o ritmo deixa Creed: Nascido Para Lutar com a velocidade certa deixando os espectadores absorverem a história.

O público que espera músicas e trilha sonora marcantes como as da franquia Rocky se sentirá decepcionado. Este é como tantos outros filmes, atualmente: as trilhas sonoras acabam sendo usadas mais para reforçar o clima das cenas e passando batidas pelos espectadores. O compositor sueco, Ludwig Göransson (Família do Bagulho, 2013), aproveita apenas em um momento a trilha sonora de Rocky nesta produção. Mas suas composições para o filme acabam não tendo a mesma importância daquelas.

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